A Oitava Passageira

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Frequentemente a chamo de Lula de saias. Não é por acaso, não é por reverência – ahaha, logo eu -, é pela habilidade. E o incrível, é que, exatamente como quando ela saiu do Governo, deixando o PT e a Dilma como vilões, a reação foi a mesma: menosprezo e arrogância. E o resultado: 20 milhões de votos.

Como noticiado pela agora, atônita, #velhamídia o desenrolar da leitura dos seus movimentos dá pra ver o quão hábil ela foi na hora crítica, perdeu na luta sangrenta, mas continuou jogando para tentar se apropriar da “nova política”. Eu não acredito nisso, mas pouco importa, o que está em jogo na verdade é o monopólio da esperança. Quem o perdeu, chora até hoje. E ela – a esperança – ficou ai, abandonada, órfã, esperando alguém para adotá-la, mesmo que saiba que no futuro, irão maltratá-la e abandoná-la de novo. Um ciclo, como tudo na vida.

O engraçado de tudo isso é a bipolaridade e hipocrisia, tanto na mídia velha, quanto nos chamados blogs progressistas sobre o que significa, sobre quem perde e quem ganha. Bom eu gosto de fazer o negativo: quem mais está irritado com essa “jogada”? É só olhar os críticos pra ver que parece que ela fez a coisa certa. Então, é só ler a mídia/blogs e deduzir.

Não estou dizendo que ela seja vítima, ou que vá salvar o Brasil. Só estou dizendo que mal não f az. Tentar não doí. Sei que a mídia começará a endeusá-la em: “3, 2, 1…”. Eles vão apoiar qualquer um que tenha o mínimo de possibilidade de interromper o projeto de poder do PT. Qualquer um. Hitler ou Stálin se estivessem vivos – ou, em último caso se pudessem ser ressuscitados. Só que, há tantos – bilhões, digo – em jogo, que editores recomendam aos seus jornalistas-quase-escravos muita calma nessa hora. E é o que – salvo raras exceções – estão fazendo.

Mas ela, Marina, parece ter passado de sonho a pesadelo em poucos dias, não só para todos os seus principais adversários, mas principalmente para aqueles que a receberam sorridentes de braços abertos. Esses agora sentem o gostinho de terem sido picados por um escorpião que estava nas costas, do estrangulamento da planta oportunista sobre a outra quando decide romper com a harmonia do mutualismo, enfim, de se ter na barriga fecundada por um oitavo passageiro que após crescer no hospedeiro, inevitavelmente, tomará conta do corpo para completar sua missão. Quando o processo terminar, o que restar do corpo ficará pelo caminho, enquanto o oitavo passageiro, instintivamente, partirá para caçar suas presas.

E eu que achei que 2014 ia ser sem graça, e eu que achei que o Eduardo Campos estava sendo hábil. Lula de saias, como sempre disse.

“Janio de Freitas

 O não dito pelo dito

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As Peças se Movem

Checkmate2

Quando deixei Brasília, na sexta, tinha certeza que alguma coisa iria acontecer. Não sabia dizer o que, mas as aguas que levam à 2014 estavam muito calmas. Assim com tem algo acontecendo entre SP-MG mas não consigo entender/aceitar. Preconceito? Talvez precise “esvaziar a mente”. Mas fico feliz em saber que todos no meio político foi pego de surpresa com a decisão da Marina.

Acho que pesou muito para ela a decisão – a meu ver equivocada – no segundo turno de 2010. Vejamos: com um legado de 20 milhões de votos, um partido (PV) quase na mão e a possibilidade de conseguir no mínimo dois ou três Ministérios importantes no futuro governo Dilma – imaginem, por exemplo, MCT-FINEP e MMA-Ibama (mas…mas, não seria fisiologismo? Ah… tá! Se vocês ainda estão nessa, boa sorte.). Ela seria protagonista, não coadjuvante. Afinal a Presidenta é “low-profile” “by design”, por bem ou por mal. Mas a Dilma, passaria todo o primeiro mandato sob a sombra do “só venceu por que a Marina te apoiou”. E se o caldo entornasse, era sair pra disputar 2014, como – ups! – Eduardo Campos e o PSB.

Agora ela tem na mão uma vice na chapa de outro candidato, não conseguiu o PV (uma boa marca, com potencial, diga-se de passagem), não conseguiu tirar a sua Rede papel (não é um partido, mas, sem partidos há estabilidade democrática?), e só a (vaga) promessa do fim da reeleição já pra 2018 (kkk). Olha, eu não entendo muito disso não, é só hobby, mas eu ficaria com a primeira opção.

Ela apanhou do jogo político “hardcore” de Brasília. E pra se chegar à Presidência, é OBRIGATÓRIO passar por isso. Assim como campanhas eleitorais TEM que ser sangrentas. O que não mata, fortalece. A estabilidade só chega depois do tremor. Enfim, não existe atalho na Democracia (na Ditadura, só a ilusão de um). Eduardo está jogando bem, e o Serra, esse ai, nessa parte sabe tudo.

Se não aguenta, bebe leite. Se não sabe brincar, não vem parquinho. Se não dá conta, pra quê que nasce? Esse é o jogo. Não fomos nós que o criamos, vai reclamar com Maquiavel.

Nada disso está nos jornais, não sei porquê. Mas esqueçam a mídia, às vezes penso que é parte do jogo, mas acho que é incompetência mesmo. Desaprenderam a fazer jornalismo. Uma pena. É óbvio, é evidente, que quem mais perde com essa decisão é o PSDB (com o Aécio). E o Serra pra ser candidato de novo, precisa, primeiro tirá-lo do caminho. E é o que está fazendo. Tijolo, por tijolo.

Já o Eduardo Campos está fazendo o que é possível (e depois de sábado, ficou claro, o impossível). Voltemos ao começo: O Lula prometeu a ele, a chance – ressalte-se, a chance – de ser o candidato da “aliança hegemônica” em 2018. Ele até que deve confiar no Lula, ele não confia é no PT. Faz bem, pois partidos políticos são criados para isso. É só olhar para seu arquirrival pra ver o que ocorre quando se deixa de buscar o poder, e se perde na disputa interna. Mas a disputa interna no PT, dizem, é o pior dos mundos, quem pôs ordem na casa foi o @Barbudo83porcento.

É só olhar pra São Paulo e ver que o Haddad – quando o Governo Federal não ferra com tudo, como por exemplo, agendando data de aumento de preços – está fazendo tudo certo. Invertendo a lógica do desenvolvimento da cidade, criando corredores de ônibus, fazendo todas as maldades possíveis no primeiro ano, etc. Não cabe aqui essa analise, mas se tudo caminhar como programado, será ele o candidato em 2018. Já o Padilha – de quem gosto muito – tem primeiro que vencer. Não vou me alongar, só exemplificar: em 2002 o Genoino perdeu o Governo de SP para o Alckmin por uma pequena margem, e, virou Presidente do PT. O presidente que teve que assinar aqueles contratos e o resto é história. E ela, meus caros, não é uma guria muito sentimental.

Oras, o Eduardo viu esse cenário e entendeu que é agora ou nunca. E cruzou o Rubicão.

Político com coragem SEMPRE não sobrevive por muito tempo, MAS em algum momento é preciso tê-la (por exemplo: para democratizar a mídia, enfrentar as teles, para investir em segurança nacional e inteligência, e inúmeros outros temas). Querem condená-lo por ter a coragem, que muitos, após chegar ao poder deixaram de ter?

Traição? Política é a arte de trair (desde s-e-m-p-r-e: Et tu Brute?). Então, sair como candidatos é a única maneira que eles – ambos da base do governo Lula/PT – tem para fazer jus ao legado que foi deixado. Programas? Nenhum partido político no Brasil tem um programa estruturado. Não é o “nosso jeito” de fazer as coisas. Vivam com isso e parem de sofrer. Mas eles tem ideias: sustentabilidade, inovação, gestão, etc. Eu acho que são bases boas para se começar a “brincar”, para se entrar no jogo.

Por favor, parem de acreditar na política personalista, no salvador da pátria, na madre teresa de Calcutá, na falácia do voto transformador a cada dois anos. A política somos nós. Ela é fruto da nossa ação – ou, inação. A sociedade brasileira é reflexo do que somos e fazemos individualmente. Então se existe uma ideia que você gosta – pqp – participe, construa e defenda!

E, peloamordedeus, bando de velhos cansados, deixem eles jogarem. Mal não faz. E no final, é o Brasil quem agradece.

Quando Setembro Chegar

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Muitos ficaram preocupados com a fúria dos jovens e adolescentes. Black bloc, anarquistas, etc. Eu nunca me preocupei muito. Primeiro, por causa da minha “origem” punk até o osso. Segundo, por que, como o Draper falou, os adolescentes SEMPRE serão revoltados. Com todos e em todos lugares, não sobra ninguém. Se começa pelos Pais, imaginem com os partidos e com a política. Melhor aceitar e tomar uma. Bola pra frente.

Desde os eventos que incendiaram as ruas em Junho de 2013, muita coisa mudou, muitas não. A percepção é que o Governo acordou e tem tentado – ainda que lentamente – tomar atitudes antes postergadas. Existem mudanças em áreas do governo que não se movem, ainda a serem feitas. Mas presidente algum faz isso com a faca no pescoço. Capitular, jamais.

Contrapor Saúde e Educação vs Copa e Olimpíadas é uma puta de uma hipocrisia e ignorância. Mas não é assim que a coisa funciona, não é mesmo? Mas o governo federal falhou naquilo em que se propôs: mobilidade urbana. Dar dinheiro para Estados e Municípios tocarem as obras nunca dá certo, não é mesmo Aeroporto de Goiânia?

A cobertura da mídia foi a tradicional. Mas também foram pegos de surpresa. Às vezes relutante (pois tem muito a lucrar nos eventos, principalmente a monopolista) tentou, constrangedoramente disfarçada, manipular, inserir a “tradução do sentimento das ruas” em legendas e em horário nobre. Se funcionou ou não, não sabemos. Tudo está tão turvo ainda que as ondas no lago ainda podem retornar de volta aos pés. E como dizem, do lado do Marinho não fica gente burra, eles já perceberam isso.

Parte importante dos eventos foi que o Congresso acordou do torpor em que vivia mergulhado. Absorto entre benesses e privilégios, mudou pontos importantes. Mas já mostra que, como um burro carregado, só irá se mover na base do chicote. Afinal, já comeram todas as cenouras. Então só sobrou o porrete. Mas bater no Congresso é o esporte nacional preferido. E pior, o Executivo, e agora o Judiciário, se uniram irresponsavelmente nessa “onda”. Fica a dica: a Ditadura – do ponto de vista histórico – foi bem ali, ok?

O mais importante do saldo: a oposição continua perdida. A maior prova são as absurdas declarações que a estratégia para 2014 depende “da situação da Presidenta APÓS o 7 de Setembro”. Ou seja, já está carimbada como torcedores do quanto pior melhor. Propostas para os problemas e demandas (sejam elas quais forem) ninguém ouviu falar até agora.

A verdade é que até o momento não há alternativa ao que está ai. E como a tradicional sabedoria popular dificilmente troca o meia bomba pelo incerto, somado ao caráter plebiscitário das reeleições em todo o mundo, Dilma até agora, continua forte candidata à reeleição e o PT rumo a alcançar incríveis 16 anos de domínio do Executivo Federal.

Hegemonia, seu nome é a união PT+PMDB. Agradeçam ao José Dirceu (isso mesmo), e depois ao Lula. Até agora nem sinal da ladainha repetida ad nauseam de traição. Se ocorrer uma ruptura agora, será fruto da fadiga de material que naturalmente ocorre em qualquer aliança.

Ressalva importante: ninguém aqui está torcendo ou contando vitória antes da hora (sabem que detesto isso, aliás parte do que se viu nas ruas foi fruto do tradicional salto alto petista) só estou tentando mostrar como a falta de alternativa programática e a força de uma aliança bem amalgamada, com a pitada de um marketing político bem feito, facilita bastante.

E, ignorem a mídia, o governo fez muito. Terá o que mostrar. Mas não o bastante, não perceberam que a Agenda mudou. Mas apesar dos inúmeros erros nesse 1º mandato (e todo 1º mandato é difícil), a reeleição continua mais provável.

Talvez todo esse cenário poderia ser diferente, se bots e puppets nas redes sociais, tivessem sido ligados em junho de 2014. Talvez não houvesse espaço para recuperação. E principalmente, se a “alternativa” tivesse feito o “dever de casa” e nesse momento tivesse em mãos, um partido, um projeto.

Felizmente (ou infelizmente para alguns) não é o caso. A única coisa que ofereceram à infante democracia brasileira foi o eco irresponsável da “demonização da política”. Isso ficou bem claro, e está registrado.

Em 2014, “aniversário” de 50 anos da Ditadura, será um bom momento para se relembrar.

Dúvidas sobre a estratégia política do Governo Dilma

“O video ficou descontextualizado, melhor um bumerangue pra demonstrar meu temor.”

Tenho tentado escrever sobre a estratégia política do Governo Dilma desde os seus 100 dias. Confesso que não está fácil. Tenho mais dúvidas que respostas. Diferentemente de outros momentos, simplesmente não sei o que dizer. Antes tudo era mais fácil. Qualquer bobagem servia, se encaixava. Afinal, políticos são eram previsíveis.

Hoje tudo está nublado, não enxergo uma linha definida. A verdade é que é muito difícil pra qualquer pessoa dizer “eu não sei”. Isso é assumir publicamente a falta de conhecimento. No mínimo aceitar uma incapacidade dedutiva inadmissível numa época em que nós afogamos sob um dilúvio incessante de informações.

Mas talvez eu esteja apenas constrangido, envergonhado. Vergonha alheia, melhor dizendo. Pois, por ai, só se lê  certezas absolutas, verdades inabaláveis. Tudo ou é um desastre completo, ou é de uma virtú impecável. Oito ou oitenta, o maniqueísmo eleitoral – às vezes necessário, aceitável – atingiu a completude, e tomou conta de toda a política.

Nos clippings-blogs e artigos da velha mídia é certeza que o Governo Dilma acabará. Que o desastre é inevitável. Que ela é arrogante, grosseira, tosca, e  tratando assim os (sensíveis) políticos irá inevitavelmente destruir a “governabilidade”. E que já “circula em Brasília”, que ela pode não concluir o mandato.

Nos blogs governistas/progressistas o que se lê é que é o estado-da-arte da política. Uma estratégia perfeita. Bem executada, uma limpeza, uma faxina ética. Decisões inequívocas na área econômica. Uma revolução na política. E que essa assepsia renderá incontáveis votos junto à classe média. Novos tempos. Uma recuperação dos valores éticos pela esquerda através de uma estratégia magistral para se defender do julgamento do Mensalão que virá pelas mãos vingadoras do Joaquim Barbosa.

Pode ser. No momento realmente não há nada ameaçando a governabilidade. Ou alguém aqui imagina o PR no purgatório, longe das benesses do poder por longos 3 anos e meio? Ou o PP? Ou o PMDB? Até aonde vi, os sinais mais claros é de novas adesões, seja com o PV (pós-Marina), seja com o PSD (do Kassab e cia).

Mas política é bumerangue. Quantas vezes já vimos políticos no Congresso colocando a fatura na mesa do presidente? Seja com Lula, seja com FHC. Sei que ela é diferente. Sei que foi surpresa pra muitos, inclusive pra mim. Não tem a ver com a corrupção em si. Tem a ver com o aprendizado que uma campanha eleitoral traz. Tem a ver com deixar de ser técnica e se tornar uma grande política. De certa forma me irrita essa adesão à ideia de satanização da política.

Eu estou com Lula nessa (ah vá…), se a presidenta não permitir que a Gleisi seja a Dilma da Dilma, não haverá politização das ações. E 2012 pode mostrar isso. Gestão não politiza, por mais que os tecnocratas insistam nesse ponto. Um governante não pode terceirizar a política sob o risco de uma alienação perigosa. Ela deveria transpor os conceitos que está usando na economia. Nenhum presidente é uma ilha. Ignorar o Congresso eleito, voltar a fazer o jogo da mídia de escandalizar seletivamente o “nada”, confiar numa oposição acuada e decadente, são decisões perigosas.

Enfim, não sei se vai dar certo. Torço que dê. Mas sou cético por natureza. A principal lição que aprendi nos últimos anos é que os políticos são traiçoeiros, a velha mídia  brasileira tende ao golpismo por natureza e a classe média, continua extremamente volúvel.

“Só sei que nada sei”, mas tenho certeza que não gosto dessa combinação.

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Artigo :: “Para entender o silêncio de Dilma”

“O silêncio vale ouro. Para todos os outros casos, existe silver tape

Uma das novas determinações deste blog é reduzir drasticamente a citação seja integral, seja parcial de artigos de terceiros. É o efeito “clippinização dos blogs“, que tanto critico. Pra isso tem o Noblat e o Nassif (desculpem, não resisti, mas prometo que vou parar por aqui).

O artigo faz um bom apanhado e tem links, então serve de referência. Mas tem uma conclusão simplista de algo que acredito ser mais complexo do que o mero combate a inflação.

Não sei se é estratégia, ou se é estilo. Sei que esse excesso de discrição (pode isso, Arnaldo?) não combina com política. Bem, não combinava. Vamos ver daqui pra frente. E pra radicalizar de vez, o resto do Governo simplesmente emula o comportamento de sua líder.

Eu continuo a acompanhar – curioso que sou – o desenrolar dessa maneira inovadora de se fazer política. Torcendo – cético que sou – pra dar tudo certo no final.

Dilma Rousseff completa 200 dias no Planalto envolta no mesmo silêncio que caracterizou seu governo até agora.  Nenhum pronunciamento contundente, nenhuma entrevista franca, nenhuma frase de efeito para marcar a data. Tal qual aconteceu nos 100 dias, ou mesmo nas viagens e crises deste início de mandato, a presidenta faz das suas poucas palavras, em solenidades e aparições públicas, um não-evento.

Como não está afônica, o silêncio de Dilma poderia ser timidez, mas isso a campanha eleitoral do ano passado já desmentiu. Também poderia ser simplesmente por ela não gostar de falar, mas quem já foi recebido em audiência sabe que Dilma valoriza a dialética e adora um bom debate. Também não existe a possibilidade, dada à natureza do cargo, de que tamanho resguardo seria por não ter o que dizer.

Fica evidente, portanto, que a presidenta não deseja tornar públicos seus pensamentos. Dilma pouco fala porque a sinceridade, agora, não ajudaria no bom andamento dos trabalhos. Ao contrário de seus dois antecessores imediatos, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da
Silva, cuja eloqüência pública ajudava-os a minimizar crises, Dilma resta em silêncio para não alimentá-las.

Seu maior foco de problemas é a relação com o Congresso. Premida pela necessidade de um esforço fiscal para evitar a disparada da inflação, a presidenta cortou o orçamento onde dava para cortar. Por crença e por coerência política, ela não iria, nem irá, reduzir o tamanho do Estado, privatizando e promovendo uma reforma administrativa. Por imposição do calendário, ela não tem como cortar recursos para as obras da Copa do Mundo de 2014 e nem é razoável sucatear ainda mais a infra-estrutura de um país ainda carente de obras que mal saíram do papel. Politicamente, o governo já aumentou os impostos possíveis, como o IOF sobre gastos em dólar no cartão de crédito.

Restou a Dilma abrandar o aumento real do salário mínimo, o que contrariou o populismo da base governista. E também segurar a bilionária verba das emendas parlamentares, abrindo o flanco para as mais explícitas chantagens políticas desde as concessões do governo José Sarney para obter o quinto ano de mandato na Constituinte de 1988.

Logo após a vitória na eleição, ela anunciou em conversas com os políticos que preservaria a coalizão e aceitaria indicações dos partidos aos cargos do novo governo, desde que os indicados tivessem qualificação técnica e boa reputação. Os partidos foram avisados que quem não seguisse a cartilha não obteria a nomeação. E que em casos de desvio posterior, políticos e apadrinhados teriam de se explicar à Polícia Federal e à Justiça. Foram os partidos, portanto, que decidiram testar Dilma e não a presidenta que quis se impor a eles.

Em duas ocasiões fundamentais, o PT reacendeu a chama das disputas internas e reivindicou independência do Planalto (coisa que nunca fez contra Lula porque trabalhou sob Lula): a escolha do presidente da Câmara dos Deputados e a eleição do novo presidente do partido. Os líderes tradicionais do PMDB excluíram das negociações com o governo alguns colegas recém-eleitos e que Dilma gostaria de ter como interlocutores seus dentro do partido aliado.

Essa política de muito apetite e pouca renovação foi uma aposta de todos os aliados do governo, quando a presidenta tinha sinalizado para que fizessem justamente o contrário. Se Dilma não os atendeu é porque eles não souberam ouvi-la ou não quiseram acreditar na presidenta. Se ela manifestar isso publicamente, criará ainda mais problemas.

O silêncio de Dilma é forçoso também na mudança de viés econômico. Se Lula teve condições de adotar medidas clássicas de elevação dos juros e corte de despesas públicas e responsabilizar a “herança maldita”, Dilma não pode creditar o ajuste de agora a eventuais excessos da política anticíclica do governo anterior. Os fatores inflacionários não estão ligados apenas ao aquecimento da economia no ano eleitoral de 2010 e o que resta à presidenta nesse primeiro momento é usar um mal menor, como a sobrevalorização do real, para combater um mal maior, a
escalada inflacionária.

Depois de uma campanha presidencial que demonizou a privatização, o silêncio é bom conselheiro para um governo que vai realizar concessões privadas para expansão dos aeroportos e que aguarda capital privado para tocar o projeto de trem-bala, além de várias parcerias público-privadas para as obras que vão preparar o Brasil para receber a Copa do Mundo em 2014.

O país precisa de todos os capitais possíveis, estatal e privado, nacional e estrangeiro, para desafogar o gargalo da infra-estrutura e melhorar a competitividade da sua economia. Diante da queda de braço que os políticos decidiram travar com o governo, mesmo algo facilmente consensual, como esse esforço coletivo para melhorar estradas, portos e aeroportos, parece se tornar objeto de chantagem política. Nessas condições, enfrentar publicamente a classe política corresponde a retardar a agenda de modernização que Dilma deseja fazer no seu governo.

Ceder aos políticos, no entanto, é comprometer a força da política de combate à inflação. Esse é o impasse que silencia a presidenta.

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Das coisas que odeio na Dilma. E uma que adoro.

Direto ao ponto, aquilo que odeio no Governo Dilma até o momento:

  • Cultura – Odeio muito como ela entregou o Ministério da Cultura a um grupo de insonsos, que não entendem nem de cultura digital, nem de política. Pra mim um desastre. Romperam com o legado de Gil e do Juca – que na verdade, pra mim, foi um avanço milimétrico – pra satisfazer um bando de lobistas anacrônicos que defendem os interesses de velhos compositores (jovens podem ser decrépitos também, não se esqueçam disso) e gravadoras de “discos”. E o pior, sem receber nada, nada em troca. Bem, talvez sair de um lista “negra” dos EUA, que hoje não vale nada.
  • Comunicação – Não é uma critica personalista, mas a SECOM mimetiza em excesso as ações da presidenta. Discrição? Não cabe mais, desde o momento em que a oposição e a mídia partiram para o ataque coordenado à Petrobras. Naquele momento, descobrimos como lidar com a indústria dos factoides: com agilidade, com respostas públicas, com integras de áudio e texto das entrevistas. O Franklin sabia que não poderia agir como Lula. A Helena Chagas deveria aprender, que não pode agir como Dilma. A função da SECOM é preparar uma estrutura, não para momento de “noivado” com a Velha Mídia, e sim para quando, o inevitável divorcio acontecer.
  • PNBL – Não é que eu discorde da visão que é o Mercado quem irá prover a expansão e massificação do acesso à internet de alta velocidade. Acho que isso é inquestionável. O que eu acho é que da forma como foi feita, o governo vai enterrar um grande projeto que o Rogério Santanna passou meio governo construindo. Apesar dos custos de se fazer algo dessa magnitude, deveríamos ter tentado de uma maneira mais obstinada criar uma grande estrutura nacional independente das operadoras. Se o Orçamento no momento, não permitia, pelo menos manter o projeto em paralelo, como opção, como ferramenta de barganha. O que eu vi foi um grande acordo com uma operadora (outras, inevitavelmente virão). Algo que poderia ser feito de qualquer forma, fora do PNBL.

Agora das coisas que estou adorando:

  • A mídia descobrindo que a Dilma não é Lula – O modus no Código Florestal, no caso Palocci, e agora de maneira mais radical, no caso do DNIT, é de partir para o confronto com esse sistema político viciado. Vai sobrar pra muita gente, não só pro PR, mas pro PT também. A Velha Mídia decadente vai adorar, pois vai vender meia dúzia de jornais e revistas a mais, enquanto a oposição, com programas à la PPS vem com a ladainha hipócrita sobre ética, que comprovadamente, não funciona mais.

Lutar contra esse sistema, é só pra quem tem coragem. Ninguém nunca tentou, então, eu tenho minhas dúvidas que vai dar certo. Mas pelo menos fico feliz que algo que tentamos explicar nas eleições, finalmente esteja chegando às colunas dos jornais e revistas.

Afinal, a dama lá não tem nada de poste, muito pelo contrário.