O inconsciente do Serra

“É ou não é? Não se sabe. Nunca se saberá.”

“Mas o seu inconsciente fala.”

via “Cloaca News“, sempre ele, o nosso obstinado blogueiro revelação
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FSP – Editorial: O Papa e o Aborto Legal [03/10/1997]

Folha de S.Paulo – Editorial: O PAPA E O ABORTO LEGAL – 03/10/97

O PAPA E O ABORTO LEGAL

A visita do papa João Paulo 2º ao Brasil talvez venha a servir como pretexto ou instrumento de uma ofensiva contra o projeto, em tramitação no Congresso, que obriga os hospitais públicos a realizar o aborto nos casos previstos por lei.

A condenação do aborto, em qualquer circunstância, ocupa lugar de destaque na agenda da visita papal, dedicada em grande parte à “defesa da família”. Segundo consta, ele pedirá ao presidente Fernando Henrique Cardoso o veto à lei que autoriza a interrupção da gravidez decorrente de estupro ou que coloque em risco a vida da gestante.

É preciso desde já desfazer um equívoco. O papa tem todo o direito de se dirigir a seus fiéis para reforçar as crenças da Igreja Católica, da qual é o chefe supremo. Isso não significa, entretanto, que deva interferir na condução das leis e do Estado brasileiro, que é laico e deve se pautar por princípios republicanos.

A primeira-dama Ruth Cardoso, que vinha evitando se posicionar publicamente a respeito do aborto legal desde que a polêmica surgiu, há dois meses, manifestou-se, enfim, de modo hábil ao dizer que “esse é um problema da sociedade brasileira”. Problema da sociedade é mesmo a expressão correta na medida em que o direito ao aborto legal no Brasil é hoje um privilégio das mulheres que podem recorrer a hospitais privados.

Talvez exatamente por estar prevendo os efeitos da cruzada antiaborto liderada pelo papa sobre os parlamentares, a primeira-dama tenha dito, numa tirada de efeito, que “a relação entre o Congresso Nacional e o papa é zero”. É sabido que não é, mas a frase aponta para o imperativo de que o teor das leis não deve ser determinado, a priori, por crenças religiosas, que dizem respeito a questões de consciência -individuais, portanto. De outro modo, podem vir a ser feridos os princípios republicanos da universalidade e da igualdade de direitos.

Luis Nassif :: Não habemus papa, deo gratias [08/10/1997]


“Herege sim, mas esteve no Vaticano. O que nos redime, é que ela não é a primeira, nem a última vítima dos fundamentalistas religiosos.”

Folha de S.Paulo – Luís Nassif: Não habemus papa, deo gratias – 08/10/97

LUÍS NASSIF
Não habemus papa, deo gratias

Raras vezes a posição imperial da Igreja Católica se manifestou tão claramente como no momento em que, fortalecido pela presença do papa no país, dom Lucas Moreira Neves, cardeal primaz do Brasil, exigiu a retificação das declarações dadas pela cidadã Ruth Cardoso, em defesa do aborto.

Dom Lucas não tem divisões de exército. É improvável até que tenha cacife eleitoral. Mas permanece autêntico representante de tempos imemoriais, quando as famílias tradicionais distribuíam seus filhos entre a igreja, o Exército, a diplomacia e a política -e as decisões do país se resolviam nas casas de uma elite responsável por uma das sociedades mais injustas deste século.

É primo do ex-presidente Tancredo Neves e de uma penca de generais e diplomatas que marcaram a história do país. Não é dotado, como o cardeal Arns, de impulsos quase ingênuos de generosidade. Nem sequer usa a generosidade como instrumento de intervenção política.

Como nenhum outro religioso brasileiro, dom Lucas encarna à perfeição o papel de príncipe da igreja. Tem a alma dura, as feições duras, as atitudes duras dos grandes comandantes, dos especialistas em palácios. Ele só se compraz com o exercício pleno da diplomacia religiosa, de quem quer o que é Deus, e o que é de César.

No episódio do chute na santa, perpetrado por um bispo irresponsável da Igreja Universal, coube a ele alimentar o paroxismo inquisitorial que quase explode em guerra religiosa. Quem impediu foi a solidariedade intuitiva e generosa do cardeal Arns.

Na Bahia, sua primeira atitude foi agir contra o sincretismo religioso. Deve ser de sua inspiração a ofensiva da igreja para tentar impor novamente o ensino religioso nas escolas.
Moral e política

Em sua posição -dele e do papa- contra o aborto, não se pense em princípios morais, posturas de consciência e outras condicionantes individuais que norteiam as ações dos homens comuns. Assim como a guerra é extensão da diplomacia, para a igreja e seus príncipes as regras morais são parte integrante do exercício do poder. Não fosse assim, tratariam de condenar a indústria de armamentos -como bem lembrou frei Betto.

A igreja não possui divisões armadas, nem território, nem capacidade fiscal. Sua atividade política e diplomática foi se esboroando à medida que o mundo se tornava mais complexo e o habitat natural da igreja -as famílias- passou a ser bombardeado por influências muito mais orgânicas, da democracia e da moderna sociedade da comunicação.

A conquista da cidadania, em todos os níveis, amplia de maneira irreversível o conceito do livre arbítrio, das decisões individuais, acabando com todas as formas de autoritarismo -da ditadura política à ditadura dos “especialistas”.

As emanações de ordem hierárquicas perdem sentido; mais ainda, as dogmáticas. Qualquer organização precisa conquistar corações e mentes de pessoas livres, para poder exercitar seu poder.
Centralização

A igreja se comprometeu basicamente por sua posição centralizadora, da grande organização que perdeu a sensibilidade nas pontas que atuam diretamente perante o seu consumidor.

O resultado é o abuso das posições morais primárias, como instrumento de dominação sobre um rebanho cada vez mais disperso -desde a inacreditável posição contrária aos preservativos, até a condenação do aborto.

É processo que atinge indistintamente “conservadores”, como dom Lucas, e “revolucionários”, como os padres ativistas de periferia. Na recente “marcha dos oprimidos” em Aparecida, empenhado em preservar seu espaço político junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, um bispo auxiliar do cardeal Arns chegou a relacionar a repressão ao MST, o Proer, a morte do índio pataxó e o aborto na relação dos grandes crimes do neoliberalismo e da globalização. Deixou de fora apenas a torcida do Flamengo.

Consequência: em um momento em que a espiritualidade passa a ser uma das tendências dominantes da humanidade, a Igreja Católica perde cada vez mais espaço. Junto aos mais simples, é comida pela borda pelos evangélicos; junto aos mais sofisticados, por religiões que preservam a individualidade das pessoas. Na base, conserva espaço apenas junto a grupos toscamente politizados; no topo, junto a velhas famílias, muitas de extrato agrário, que compuseram o pacto conservador brasileiro deste século.

Ao ameaçar dona Ruth Cardoso, por sua posição pró-aborto, dom Lucas pensava estar enfrentando César. Não estava. Dona Ruth falava em nome de uma entidade muito mais permanente e poderosa que a Presidência: uma opinião pública esclarecida de quem se pode discordar, jamais impor posições. Nem com ameaças de excomunhão nem de fogueiras inquisitoriais.

E-mail: lnassif@uol.com.br

Serra desrespeita o legado de Ruth Cardoso


 

 

“Serra sapateia no legado de uma grande feminista.”

Se ninguém segurar o Serra, ele vai pulverizar o pouco de social-democracia que resta no PsdB (sd – minúsculo, pq se esvai a cada dia) É como eu tento explicar – inutilmente – para esses fundamentalistas, a posição da Dilma não difere em nada da posição do Lula, do FHC e, principalmente, da Dona Ruth Cardoso. A posição institucional do PT não difere da posição institucional do PSDB e do PV. 

Não é uma questão de ser a favor ou contra. É uma questão de decidir se deve-se prender mulheres, que num momento de desespero optam por essa prática. É uma questão de decidir se é uma questão policial ou uma questão de saúde pública.

Simples né? Não para os fundamentalistas religiosos. Por isso é tão importante preservar o Estado Laico. A separação Igreja-Estado.


Folha de S.Paulo – Bispos acusam Ruth Cardoso de demagogia e agressão ao papa – 03/10/97

São Paulo, sexta, 3 de outubro de 1997.

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NO BRASIL

Alto clero condena apoio da primeira-dama ao projeto que regulamenta aborto legal
Bispos acusam Ruth Cardoso de demagogia e agressão ao papa

LUIS HENRIQUE AMARAL
enviado especial ao Rio

A declaração da primeira-dama Ruth Cardoso a favor da aprovação da lei que regulamenta o aborto legal foi classificada de “agressão ao papa”, “oportunista” e “demagógica” por bispos que participam do Congresso Teológico Pastoral, que acontece no Rio paralelamente à visita do papa.

Ao tomar conhecimento das declarações de Ruth, o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), d. Lucas Moreira Neves, foi seco: “Haverá uma resposta, mas não agora”.

Anteontem, Ruth afirmou, após cerimônia no Rio, que a proposta de regulamentação da lei do aborto é “um direito garantido que está sendo estendido às mulheres com menos recursos, porque elas não são atendidas no serviço público, quando deveriam ser“.

Ruth Cardoso disse ainda que a visita do papa ao Brasil não terá interferência na votação da lei.

A lei que tramita no Congresso regulamenta o aborto para mulheres que estejam em risco de vida em razão da gravidez ou que tenham sido estupradas.

Ombros

O presidente do Pontifício Conselho para a Família, o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, evitou comentários. Questionado sobre as declarações, deu de ombros, virou as costas e encerrou a entrevista. Seu cargo equivale ao de “ministro” do papa.

O fato de o Vaticano e a CNBB não terem se pronunciado oficialmente não evitou críticas de bispos reunidos no congresso teológico.

“Para mim, o pronunciamento dela também é zero”, disse d. Albano Cavallin, arcebispo de Londrina (PR). Ele se referia à afirmação de Ruth Cardoso de que a “relação entre o Congresso Nacional e o papa é zero”.

O arcebispo “convidou” a primeira-dama para discutir o assunto “com as forças que lutam pela vida…: juristas, médicos, educadores e mulheres normais”.

O bispo de Jundiaí (SP), d. Amaury Castanho, também foi duro: “No mínimo, foi uma indelicadeza da dona Ruth. Estranho que ela tenha feito isso depois que o Santo Padre aceitou conceder audiência a ela, o presidente, seus filhos e netos”, afirmou.

Para o bispo de São Miguel (zona leste de São Paulo), d. Fernando Legal, as declarações de Ruth Cardoso foram “oportunistas e demagógicas”. “Ela quis aproveitar a visita do papa para reforçar sua posição a favor do aborto”, disse.

O arcebispo de Palmas (TO), d. Alberto Tavera, disse que “lamenta profundamente” as palavras da primeira-dama. “Mesmo que esse projeto seja aprovado, continuará a ser imoral.”

Mais incisivo, o arcebispo de Diamantina (MG), d. Paulo Lopes de Faria, disse que a declaração da primeira-dama “fere a sensibilidade do povo brasileiro”.

O arcebispo considerou as palavras da primeira-dama uma “interferência indébita”. “Ela não tem referendo popular por ser esposa do presidente. Com que autoridade ela faz essa agressão?”, questionou.

D. Paulo Lopes acredita que a declaração de Ruth Cardoso pode prejudicar a relação da igreja com o governo. “Será que isso contribui para o trabalho do Comunidade Solidária? Pelo contrário, eu acho que prejudica. Agora, nós da igreja vamos olhar esse trabalho com outros olhos”, afirmou.

O arcebispo se referia ao programa do governo para a área social presidido pela primeira-dama.

Folha de S.Paulo – Divórcio e aborto constrangem encontro com família de FHC – 03/10/97
 

Divórcio e aborto constrangem encontro com família de FHC

 

WILLIAM FRANÇA
enviado especial ao Rio

ELVIRA LOBATO
da Sucursal do Rio

A nora do presidente Fernando Henrique Cardoso, Ana Lúcia Magalhães Pinto, não estará hoje na audiência reservada à família do presidente com o papa, às 10h30, no Palácio das Laranjeiras.
Ana Lúcia está separada há cerca de um mês de Paulo Henrique Cardoso e era divorciada do psicanalista Eduardo Mascarenhas (que morreu neste ano).
Ela tem duas filhas do primeiro casamento e outras duas, gêmeas, com o filho do presidente. As gêmeas, Joana e Helena, 11, estarão acompanhando o pai no encontro.
Como a Igreja Católica não aceita o divórcio, Ana Lúcia pode frequentar a igreja, mas é impedida de receber os sacramentos.
Logo no primeiro momento do encontro, o papa terá como interlocutora a primeira-dama Ruth Cardoso, que defendeu a aprovação pelo Congresso do projeto que regulamenta o aborto legal.
O aborto é um dos temas de que tratará o papa em sua visita ao Rio. Ele vai condenar a sua prática, bem como a do divórcio.
Logo em seguida, FHC apresentará o papa a 34 convidados. Entre eles estarão dois divorciados ilustres: o ex-presidente Itamar Franco e o governador Marcello Alencar, casado pela segunda vez.
O encontro exclusivo com a família presidencial terá duração de 20 minutos. No segundo momento do encontro, também de 20 minutos, Fernando Henrique e João Paulo 2º ficarão a sós, numa conversa livre sobre temas sociais. Na terceira etapa, FHC e o papa receberão políticos e religiosos.

O futuro do Serra é virar um Collor

“2010 está sendo sangrento. 2011 vai mais.”

Jogo sujo é do jogo. Mas como acham que vão governar em 2011? Serra é um péssimo estrategista, mas quem fornece o dinheiro grosso não. Muitos tem muito a perder, mas uns poucos tem muito a ganhar. Mas a gente sabe que a maioria não aprende fácil. Tem que “comer o capim pela raiz” para aprender. Só assim acho que a classe média vai compreender o que está em jogo.

Eu não quero ver esse governo, como toda a habilidade de negociação que o Serra tem, no fim de 2011. Com a sua incapacidade de aceitar a autonomia informal do Banco Central e sem interlocução no Mercado, com o seu respeito à liberdade de expressão. Com seu posicionamento a favor de softwares da proprietário e jornais e revistas da mídia paulistas nas escolas. Eu quero ver como o PT vai agir na oposição, saindo das eleições achando que perdeu de forma desleal e injusta.

De qualquer forma, eu já tinha avisado que iriam para o vale-tudo. O jogo de 2010, valeria o Pré-Sal, a economia bombando, a inflação controlada, os investimentos da Copa 2014 e das Olimpíadas de 2016. Disse que seria sangrento. Disse, e implorei ao PT, que não usasse o salto-alto. Mas principalmente disse que vencer no 1º turno, era estratégia, não favoritismo. Ninguém (da campanha) me ouviu.

Agora, se perder, o PT vai sair das urnas com gosto de sangue na boca, o MST será acuado e criminalizado, afinal Kátia Abreu só não virou vice do Serra pq não quis. Eles estarão livres das amarras institucionais e com ódio no coração. O PT não precisará fazer o jogo da mídia, muito pelo contrário, poderá enfrentá-la. E pra piorar esse cenário, terá em São Bernardo um líder pronto para se recandidatar em 2014.

Logo após a posse do Serra, ele virará, mais rápido que imaginam, um Collor. Alguém acha que no poder, tendo que contrariar interesses diariamente, as suas sujeiras vão continuar debaixo do tapete? Vai ser sangrento, mais que essa eleições presidenciais.

Hoje acordei puto não com meus inimigos

“Já enxergo as tochas da inquisição daqui”

Hoje acordei puto não com meus inimigos, mas com muitos que estão do meu lado. Depois de meses passando o carro na frente dos bois, usando as janelas que a mídia sorrateiramente disponibilizava, subindo no salto-alto, esse bando de covardes, no primeiro estampido, entram em pânico, gritam pela mamãe e saem queimando bandeiras históricas. Não tem a calma daqueles que simplesmente sabem que devem fazer o que é correto.

Hoje acordei puto não com meus inimigos, mas com gente que publicamente afirmou que “a eleição já estava decidida” e agora volta aos jornais dizendo “a gente foi arrogante”. A gente quem? Nem tem o ombridade para assumir as besteiras que falou.

Hoje acordei puto não com meus inimigos, mas com um bando de gordos que ficam no centro da campanha, e recebendo uma fortuna, para pensar estrategicamente, mas a cada dia só demonstram que não passam de uns amadores com boas conexões. Profetas do passado, nunca se antecipam a nada. No fim só atrapalham.

Hoje acordei puto não com meus inimigos, mas com marqueteiros que, contratados a peso de ouro, incapazes de ao menos copiar boas práticas já aplicadas lá fora, de ouvir a gente gritando do lado de fora, de perceber os sinais das pesquisas.

Hoje acordei puto não com meus inimigos, mas com a real possibilidade de perder a eleição da primeira mulher presidente do Brasil, com uma visão desenvolvimentista, progressista e soberana de país.

Hoje acordei puto comigo mesmo por ter consciência da minha impotência diante de uma situação que já havia previsto.

Hélio Schwarstman – Fé na eleição


“Guerra Santa?”

O erro que os incautos incorrem em misturar fé e política, é amanhã, transformar o país aonde meus dois filhos viverão, em um estado fundamentalista, como aqueles do oriente médio.

Mas quem disse que eles se importam com o futuro?

Folha.com – Hélio Schwartsman – Fé na eleição – 05/10/2010

hélio schwartsman

05/10/2010 – 14h20
Fé na eleição

Deu segundo turno. Isso anima os tucanos, mas não creio que a festa ranfastídea irá durar muito. Se tudo o que já li sobre ciência política e neurociência aplicada a eleições vale alguma coisa, o advento do segundo escrutínio significa apenas que Dilma Rousseff terá de esperar até o fim do mês para comemorar sua assunção à Presidência da República. Para sair derrotada, a candidatura petista precisaria perder eleitores que já conquistara, um fenômeno que até pode ocorrer, mas que é relativamente raro.

Dilma terminou com 47% dos votos válidos. Para atingir a marca dos 50% que a entroniza no Planalto, precisa apenas herdar 1,5 de cada dez simpatizantes de Marina Silva. Colocando de outra forma, Serra precisaria arregimentar algo como 90% dos eleitores do PV para reverter o quadro. Pelas pesquisas das vésperas do primeiro turno, ele de fato incorpora a maioria dos verdes, mas numa proporção inferior à necessária: 50%. Cerca de 30% tendem a migrar para o PT.

Não são, contudo, essas platitudes aritmético-eleitorais que me motivam a escrever a coluna de hoje. A crer no que dizem marqueteiros, pesquisistas e jornalistas, foi a polêmica em torno do aborto que custou a Dilma a vitória no primeiro turno. Insuflados por clérigos que denunciaram o passado pró-abortista da candidata, eleitores religiosos (principalmente evangélicos, mas também católicos) teriam trocado a petista por Marina, genuinamente evangélica e contrária ao aborto desde criancinha. Para não perder a piada, eu diria que votaram na pessoa certa pelas razões erradas. (Recado aos adivinhadores de sufrágio: não, não votei em Marina).

A tese do efeito aborto é verossímil. Infelizmente, é difícil comprová-la porque os dois principais institutos de pesquisa, o Datafolha e o Ibope, na reta final, para reduzir o tempo das entrevistas, deixaram de perguntar aos eleitores a sua fé. O Datafolha excomungou a questão religiosa no final de junho, e o Ibope, em 23 de setembro. Os dados deste último, contudo, chegaram a registrar um esvaziamento de Dilma entre os evangélicos no mês passado.

O fato de o comando petista ter reagido firmemente procurando lideranças religiosas nos últimos dias da campanha e esconjurando a descriminação do aborto de seu programa também é sugestivo de que as sondagens do partido captaram a tendência, deflagrando uma operação de redução de danos.

Se confirmado como um fenômeno de grandes dimensões, seria a primeira vez que a religião se torna uma variável relevante em eleições majoritárias no Brasil. É justamente aí que mora o problema.

Longe de mim sugerir que pastores e padres não têm o direito de convencer seus rebanhos a votar segundo a palavra de Deus, ainda que esta esteja aberta às mais diferentes interpretações, muitas vezes inconciliáveis entre si. A democracia só existe quando as pessoas são livres para dizer o que pensam, mesmo que sejam besteiras ou fantasias delirantes, e o eleitor vota prestando contas apenas à sua consciência. Mas ninguém jamais afirmou que a democracia era a autoestrada para o paraíso. Como celebremente observou o estadista britânico Winston Churchill: ‘Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos’.

O perigo de utilizar uma lógica espiritual para pautar a política é que ela introduz absolutos morais em questões que precisam ser resolvidas de uma perspectiva essencialmente prática, normalmente com recurso a negociações. Em suma, tudo o que não precisamos é trazer para as leis e políticas públicas é a noção de pecado. É claro que existe um equivalente laico do conceito de pecado, que é o crime. A diferença é que, enquanto este último tem uma justificação exclusivamente racional em bases mais ou menos utilitárias e comporta gradações, o primeiro, por ter sido ditado por uma autoridade superior e supostamente incontestável, nos chega na forma de pacotes inegociáveis. De certo modo, pensar religiosamente é negar a política.

A condenação da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani à morte por apedrejamento é um exemplo eloquente do tipo de problema com que estamos lidando. Ao contrário do que muitos possam pensar, atirar pedras em pecadores não é uma crueldade exclusiva do islamismo.

‘Se se encontrar um homem dormindo com uma mulher casada, todos os dois deverão morrer: o homem que dormiu com a mulher, e esta da mesma forma. Assim, tirarás o mal do meio de ti; Se uma virgem se tiver casado, e um homem, encontrando-a na cidade, dormir com ela, conduzireis um e outro à porta da cidade e os apedrejareis até que morram: a donzela, porque, estando na cidade, não gritou, e o homem por ter violado a mulher do próximo. Assim, tirarás o mal do meio de ti’. Essas passagens não foram tiradas do nobre Alcorão, mas da sagrada Bíblia judaico-cristã, mais especificamente do Deuteronômio 22:22-24.

Os muçulmanos não inventaram, portanto, o apedrejamento de adúlteros. Na verdade, o Alcorão determina para quem for apanhado cometendo esse delito uma pena bem mais leve, de apenas cem chicotadas. É o “Hadith” –a narrativa dos atos do profeta que, junto com o Alcorão, constitui a base da “sharia”, a lei islâmica– que autoriza, depois das chibatadas, a lapidação.

Detalhes legais à parte, a diferença entre o islã e o Ocidente hoje é que, enquanto este último assistiu ao longo dos últimos três ou quatro séculos a uma progressiva laicização das instituições e mesmo da vida, o primeiro permanece fiel a suas origens e textos religiosos.

Talvez seja excessivo afirmar que o Ocidente se tornou irreligioso, mas é certo que acabou ficando pouco zeloso nessa matéria. Foi essa oportuna avacalhação que fez com que as fogueiras inquisitoriais não voltassem a acender-se e permitiu que a ciência avançasse por terrenos que antes lhe eram vedados. Vale lembrar que, a depender da Igreja Católica, não teríamos nem ao menos desenvolvido a anatomia, a mais básica das disciplinas médicas.

A grande maioria dos ocidentais não chegou ao ponto de negar a existência de Deus –e dificilmente chegará–, mas relegou o sagrado a uma espécie de limbo. Um europeu típico –nas Américas a coisa é um pouco mais complicada– diz que acredita em Deus e até vai a um culto cristão de vez em quando, mais por hábito do que por convicção profunda. Lê muito pouco a Bíblia e, felizmente, nem mesmo cogita de implementar as passagens que mandam apedrejar adúlteros –ou assassinar ateus, acrescento de olho em meus próprios interesses.

Não é só. Como procurei mostrar numa matéria que escrevi há pouco para a edição impressa da Folha, existe uma correlação negativa forte entre o grau de religiosidade de um país e seu sucesso econômico. Deus e pobreza andam de braços dados. Quem causa o que é uma questão aberta a interpretações.

É dessa pequena revolução iluminista que teve lugar no Ocidente que o islã se ressente. Lá muito mais do que cá, Estado e religião se confundem e tomam-se ao pé da letra as passagens do livro sagrado que descrevem o sofrimento futuro dos infiéis e as determinações do “Hadith” para que os apóstatas sejam assassinados.

Não estou evidentemente nem chegando perto de sugerir que essa novela em torno do aborto –e a vergonhosa capitulação de partidos que sempre defenderam um Estado laico– nos coloca mais perto de uma teocracia. O próprio desenho institucional do país já veta essa possibilidade. Mas não é sem tristeza que assisto à negação da lógica laicista, que é a melhor coisa que aconteceu ao Ocidente nos últimos 300 anos.

Hélio Schwartsman

Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve para a Folha.com