Istambul-Brasília

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Acompanhei, silenciosamente, a chegada dos ventos do oriente – mas que passaram antes pelo Ocidente também – na terra do carnaval, do futebol e da indignação seletiva. Desde o Occupy Wall Street eu já tinha a certeza que algo similar ocorreria por aqui. Nunca imaginei que seria nessa magnitude e nessa época. Afinal, no meu tempo (tempus fugit), a gente só queria saber de “pintar o gato”, tomar cerveja e comer um churrasco e depois do jogo ir pra praça, que naquela época era sinônimo de farra. Pois é, estou velho.

Por algum motivo, as pessoas acham isso ruim, ameaçador, ou como alguns, tentativa de golpe. Golpe contra o quê? Contra quem? Dilma? Isso a Velha Mídia vai tentar vender. Mas vocês vão comprar? Todos políticos com mandato sofreram. Sejam Governadores, sejam Prefeitos. Seja a Presidenta. É uma reação natural. O Legislativo é a vítima tradicional, pois não é capaz de i) se organizar e se livrar de velhos vícios e mordomias; ii) reagir contra a campanha incessante da mídia e dos grupos organizados em colocá-los na defensiva, permanentemente. Seria intelectualmente desonesto, não citar que esse processo de desgaste do Legislativo tem sido estimulado, desde o princípio, pelo Executivo, e mais recentemente, pelo Judiciário.

Não existe vazio de Poder, nem existe Poder fraco. No vácuo, outros poderes ocupam o seu lugar. Na fraqueza, seus adversário tem a obrigação de aproveitar a oportunidade. É assim que luta política funciona. É assim que a Democracia tem funcionado. Até o momento – a não ser que não tenham me avisado – não tem nada melhor pra se colocar no lugar. Como no Capitalismo. É isso aí. Você pode gostar ou não. Mas o seu “gostar” tem pouca importância.

Mas então quem perde e quem ganha? O melhor exercício é visualizar quem na frente daqueles garotos, receberia menos vaias. Dilma? Aécio? Marina? Eduardo? Esqueçam essas pesquisas oportunistas. Sem dúvida Marina. Mas tem os juízes celebridade. Um (Joaquim Barbosa) é citado como candidato a Presidente. Outro (Gilmar Mendes) é citado como candidato a Governador. Posso estar errado, mas esses caras não resistem a uma semana de campanha política. A disputa política é um ácido. Corroí todos o que ficarem sob a chuva fina. Vence quem resistir mais. Mas aprendi que a tal vontade do eleitor, é, principalmente no Brasil, muito volúvel.

Ou seja, está claramente aberto um caminho para uma alternativa. Ninguém no horizonte, ninguém no espelho retrovisor. Até agora ninguém contemplou as demandas dos jovens. Estatísticas (e as meias verdades e as mentiras) não correspondem mais aos anseios dessa nova geração. Eles não conhecem inflação, crescimento do PIB é um número sem significado, a política repressiva (by USA) antidrogas não funciona mais, a agenda da sustentabilidade e da cultura e economia digital tem que ser decifrada, e traduzida em termos políticos. Em formas palatáveis, de forma que permitam uma transição pacífica para uma sociedade melhor.

Como ser contra a essas demandas? Estou com todos, e em grande parte, essas foram as minhas críticas quando me manifestava publicamente contra alguns rumos do Governo (Ana de Hollanda foi o fim para mim. Mas isso é tema para outro post que vou finalizar: “Todos os Erros de Dilma”). Parte delas se exacerbaram internamente. Outras se atenuaram, como a incrível coragem em forçar os Bancões a baixar os juros. Mas para mim o erro fatal foi na Mobilidade Urbana.

Eu ando de ônibus e metrô (exceto quando preciso buscar as crianças na escola). Uma tragédia. Um desastre. Quando apoiei a vinda da Copa, independentemente da escrotidão da FIFA, acreditei que usaríamos esse momento para promover uma revolução no transporte público. Nesse período, estive viajando a serviço, e a única coisa em comum que vi nas cidades que visitei é que as obras de mobilidade urbana não ficariam prontas até a Copa. Belos estádios, que os vira-latas diziam que não conseguiríamos construir, ficaram prontos. Mas o principal legado para os mais humildes, não. Como não se indignar?

Reduzir as manifestações a só esse fato, seria desonesto, mas foi a fagulha que causou uma reação em cadeia. Aqui, como em todo os outros países – do Ocidente ou do Oriente – as redes sociais se tornaram as ferramentas para a coordenação e articulação dos protestos. Mas a pauta, está longe do que a mídia tenta vender com legendas e fotos escolhidas a dedo. A própria mídia está sob questionamento. Tudo o que acreditamos está.

Crise ou Oportunidade? Depende do que vamos fazer com a indignação das moscas que criaram asas e resolveram atravessar as janelas de nossas casas. Eu, sinceramente, acredito que o poder de uma multidão nas ruas é o de transformar a realidade.

Depende só da vontade, daqueles que, legitimamente, ocupam o poder.

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