Quando a primavera chegar

Uprising

Por toda mídia eles noticiam como se só houvessem revoltas e uprisings em países contrários ao “ocidente”. É a civilidade do ocidente chegando ao oriente médio, propagam em decadentes telejornais, revistas e jornais. Atrasados e obsoletos, são vítimas da inescapável revolução tecnológica. Mas não perderam a certeza. Décadence sans élégance.

Os velhos sabem exatamente o que se passa na cabeça dos jovens que clamam por um direito básico: liberdade. Sempre sabem. O velho jornalista, pseudo-intelectual, exibe um sorriso mórbido no telejornal noturno. Parece um vampiro a me assombrar no fim da noite. Quem colocou nesse canal? Não tenho medo de praticamente nada, nem da morte, mas temo profundamente aquele sorriso dissimulado. Ele exibe satisfação – ao seu modo, claro – ao noticiar a primavera árabe, sem contudo, se envergonhar com a diferença de tratamento das mobilizações contra banqueiros e financista nos EUA, ou a revolta crescente na Eurozona contra os pacotes que seguem a velha regra de mais austeridade pra pagar financistas gananciosos. É pela “estabilidade do sistema”, repetem por toda parte como se fizesse sentido.

Economistas do mundo todo procuram explicação. Não percebem o que eles consideram “ciência” ter se tornado um poço de areia movediça. Quanto mais se debate pra tentar fugir das teorias que afundam, mas se enrolam. Grandes gestores de hegde funds ligam apavorados para suas esposas-troféu pra pedir que saquem dinheiro e guardem no colchão. Tanto quanto puderem sacar. O sistema monetário já não é tão “estável” quanto a teoria “demonstrava”. “As linhas de crédito “travaram”, não sabemos aonde vamos parar”. O colapso talvez.

Esquerdistas nostálgicos – como viúvas de um canalha, mas bom de cama – permanecem parados no tempo, acreditam nos sinais da revolução. No “fim do capitalismo”, pela milésima vez. “A luta continua companheiro, a hora é agora”. Não percebem que o capitalismo se destrói e reconstrói diariamente. Estão cegos e ocupados demais. O twitter nos guiará rumo a um novo “sistema”. “No final do ano vou juntar todos os meus twits e fazer um tese, sonha o acadêmico decadente”.

Ditadores morrem ou são mortos em cada canto escuro do mundo. Em cada gruta fria, terroristas são mortos por bombas teleguiadas ou esquadrões delta, treinados como cães de briga. Uma forma especial de lobotomia. Pra quê um soldado robô?, se hoje com a química certa, com a tecnologia certa, podemos ter o cyborg perfeito. Geneticamente criado, psicologicamente treinado. “Um dia todo exército será assim, é só terminar essa fase de testes, promete”. “Não Sr. Presidente, não teremos mais Bradley Manning‘s a nos atormentar”. É só uma questão de tempo.

Políticos por todo o mundo são alçados ao poder, e antes mesmo de começar a fazer aquilo que almejavam, aquilo pelo qual foram eleitos, são sacados do trono por uma mão invisível. Se ainda no poder, são sustentados pelo lobby que antes prometiam combater. Só não se sabe por quanto tempo. Ou foram picados pelo veneno da mosca-azul, ou ficaram enebriados pela brancura dos mármores palacianos. Ou, em alguns casos, na ausência de uma estagiária voluptuosa, foram seduzidos pelo jovem ajudante d’ordens que habilmente abre e fecha as portas. “Nunca mais tocar numa maçaneta, sonhava o hoje o ex-presidente”.

Adultos, mas infantilizados depois de anos da combinação perfeita tv+internet, por todo o mundo repentinamente se indignam com os abusos dos políticos, refletem sobre o que se passa no seu país, e se articulam. E num súbito arroubo de fúria, proclamam:

– Amor, hoje vou fazer um post no <twitter/facebook/blog/etc.> sobre <política/meio-ambiente/economia/ geopolítica/etc.>. Cansei da velha alienação.

Tremei, a revolução está entre nós.

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