Crônicas da vida e da morte

“Simple Minds, Alive and Kicking”

Recorrentemente me surge a visão de um cemitério de elefantes, lotado de carcaças mortas, esqueletos de velhos mamutes que lentamente caminham para o seu inevitável destino. Morrer em paz, seguindo passivamente os desígnios ancestrais. Uma herança primitiva que nós obriga, silenciosamente, seguir nosso curso.

Essa visão em si, pode parecer mórbida ou triste, mas efetivamente não é. Ela serve para nos relembrar que passaremos. Como outros milhares passaram antes de nós. Um cemitério não é um local para celebrar os mortos, mas sim uma forma quase permanente dos mortos nos lembrar da nossa efemeridade.

E é um sinal do nosso estilo de vida atual, gradativamente ignorar (mais) esse ritual. Por razões que não consigo vislumbrar, atualmente achamos que somos imortais. Vivemos a era da futilidade. Não existe foco, não existe reflexão. Só existe distração por todos os lados, para todos os sentidos. Tolos que somos, nos regojizamos disso, idolatramos isso.

Você pode fugir o quanto quiser, mas você não pode se esconder. E fugir aqui tem um sentido amplo. Beber, comprar, viajar, comer, etc. Tudo isso é fútil. Tudo isso é fuga. Quer você queira, quer não. A vida segue independentemente da sua vontade. Quem já tentou nadar contra a corrente num rio bravio sabe do que estou falando. Ele segue o seu curso, por mais que você lute até a exaustão.

E as patas de elefante, tão lentas, quanto pesadas, continuam tocando o solo. Passo a passo. Suas últimas marcas na Terra. Uns satisfeitos por terem cumprido o seu destino. Nascer, crescer, procriar e morrer. Outros frustados por ter falhado na missão de carregar o bastão que a evolução entregou pra você lá na largada.

E não estou falando só de descendência, mas sim de legado. Ele não se resume em criar filhos, deixar seus 23 cromossomos de herança. Estou falando de se sentir produtivo. Cada dia a sensação de ter feito o mundo um pouco melhor. Não pra você, mas para os outros. Principalmente para os que virão.

O chute não foi a primeira demonstração física de vida que mandamos pro resto do mundo de dentro da barriga das nossas mães? Por que diabos então deixamos, gradativamente, de mostrar ao mundo que continuamos por aqui, vivos e chutando?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s