Nostalgia

“10.15 Saturday night Waiting…For the telephone to ring”

Acho que todos sabemos que a nostalgia é a saudade de um tempo passado, normalmente,  idealizado. Eu, desde cedo, percebendo que isso era uma reação contra o novo, a inovação, lutei o quanto pude pra evitar me prender aos fatos do passado, que serão inevitavelmente distorcidos pela minha mente, criando uma versão irreal do que realmente sentia naquele momento. Fatos esses, que agiriam como uma bola de ferro no tornozelo, enquanto a minha vida – única vida, é preciso ressaltar – passa inevitavelmente por mim.

“Vows are spoken To be broken”

A despeito disso, a experiência que tive ao ouvir no carro um velho CD (CD?) que minha esposa encontrou, foi transcendental. Subitamente, meu cérebro foi bombardeado por visões e memórias antes enterradas nas profundezas escuras daquilo que chamamos de passado. Um baú velho e empoeirado guardado num canto do sótão. Visões e lembranças desencadeadas por efeitos químicos, provavelmente distorcidas pelo sistema de defesa e proteção do organismo. Seria muito cruel, reviver as coisas ruins, por isso nosso cérebro só traz de volta um quadro impressionista de cores vivas e alegres, mas nem sinal dos cadáveres enterrados no quintal.

“I told you that we could fly”

De qualquer forma, acho que finalmente passei a entender aqueles que se mantem presos a esse passado irreal. É uma sensação de alívio e conforto. Podemos reconstruir nosso passado de acordo com valores e sentimentos atuais. Finalmente conseguimos fazer aquilo que sempre desejamos, mas nunca conseguimos: voltar ao passado e fazer tudo diferente. Remover as dúvidas, as crises, as oportunidades perdidas, etc. Uma ilusão viciante.

“But it’s my destiny to be the king of pain”

Ignoramos que isso é uma grande mentira, mas cegos por essa química traiçoeira, construída por milhares de anos de evolução (provavelmente para conseguirmos lidar com perdas, que eram muito mais frequentes e traumáticas naquela época). É, enfim, uma droga que nós liberta da dura realidade da vida cotidiana.

Viver é punk, viver é foda.  E pelo menos enquanto não aprendermos a saborear o gosto amargo que é enfrentar os desafios de viver cada dia como se fosse o último, a nostalgia estará a nossa volta, como uma droga ruim na mão do traficante na esquina. Uma fuga rápida para um mundo ilusório de prazer e satisfação

Eu passo. Aprendi desde cedo que a felicidade só vem depois da dor. Que é preciso desfrutar tais sentimentos mutuamente para se sentir pleno. A vida é curta demais pra se perder em ilusões, pra perder tempo com o passado, por mais que seja prazeroso que pareça ao relembra-lo.

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