Robert Fisk :: "Caô, caô."


“Parental Advisory”

Eita? Não era esse o título original do artigo? Poderia ser. O Bezerra ai, conhecia bem as fontes da mídia. Como o Fisk, mas pelo menos sabemos que não é só aqui “abaixo da linha do equador”.


Carta Maior – Internacional – “Estão tentando vender a ponte do Brooklyn mais uma vez”

“Estão tentando vender a ponte do Brooklyn mais uma vez”

Por que nossos escribas publicam essas bobagens? Meu velho amigo Alexander Cockburn chama isso de vender a ponte do Brooklyn e afirma que Michael Gordon, chefe dos correspondentes militares do New York Times sempre está disposto a comprá-la. Certo. Em 2002, Mike soou o alarma afirmando que os tubos de alumínio no Iraque faziam parte do programa nuclear de Saddam Hussein. Depois disso, em 2007, funcionários estadunidenses – claro – informaram Mike de que o Irã estava abastecendo os insurgentes iraquianos de explosivos para utilizá-los contra as forças estadunidenses. O artigo é de Robert Fisk.

Robert Fisk – La Jornada

Como me nego a comprar o Wall Street Journal às vezes dou uma passada de olhos em algum exemplar esquecido por alguém. Assim ocorreu mês passado, quando um amável casal deixou seu jornal no assento em frente ao meu no trem. Era tão ruim como sempre: Funcionários da Defesa preveem lento avanço no Afeganistão. A fonte deste inesperado título? Altos oficiais militares estadunidenses, oficiais militares, um alto funcionário militar, funcionários do governo Obama, funcionários da Defesa, o alto funcionário militar, os oficiais, muitos nas forças armadas, e assim por diante.

Por que nossos escribas publicam essas bobagens? Meu velho amigo Alexander Cockburn chama isso de vender a ponte do Brooklyn e afirma que Michael Gordon, chefe dos correspondentes militares do New York Times sempre está disposto a comprá-la. Certo. Em 2002, Mike soou o alarma afirmando que os tubos de alumínio no Iraque faziam parte do programa nuclear de Saddam Hussein. Depois disso, em 2007, funcionários estadunidenses – claro – informaram Mike de que o Irã estava abastecendo os insurgentes iraquianos de explosivos para utilizá-los contra as forças estadunidenses; o fato de a maioria dos insurgentes que combatiam os estadunidenses serem sunitas e não manterem nenhuma relação com o Irã não foi julgado relevante por Mike. Ah, sim, e os iranianos também forneciam a mesma arma a seus aliados do Hezbollah no Líbano para ser usada contra os israelenses. Bem, pelo menos o Hezbollah, que é xiita, é armado sim pelo Irã, ainda que tenhamos esperar a próxima guerra no Líbano para ver se essas misteriosas armas fazem sua aparição.

O verdadeiro problema é que nos vendem a mesma ponte do Brooklyn várias vezes. Aqui vai uma boa citação a respeito: o Irã é o centro do terrorismo, do fundamentalismo e da subversão, e, do meu ponto de vista, é mais perigoso que o nazismo, porque Hitler não tinha uma bomba nuclear, enquanto os iranianos tentam aperfeiçoar uma opção nuclear. Esta avaliação não foi feita por Benjamin Netanyahu – e obrigado Deus por Robert Cohen, que descobriu essa ponte do Brooklyn em particular -, mas sim pelo então primeiro ministro e hoje presidente de Israel, Shimon Peres, em 1996. Quatro anos antes, esse mesmo Peres vaticinou que o Irã teria uma bomba nuclear em 1999.

Em outras palavras, o Irã – se a ridícula afirmação de Peres estivesse certa – teria adquirido uma bomba nuclear há 11 anos. Em 2007, funcionários estadunidenses disseram que o Irã demoraria seis anos ainda para ter a bomba. No ano passado, Israel disse que poderia levar menos de dois. Lembremo-nos, pois: 2013. Ou 2011. Ou 1999, se for preciso. De fato, foi o mesmo Peres que revelou este ano que o Hezbollah havia adquirido mísseis Scud da Síria – supostamente equipados com alguns desses explosivos de Mike, capazes de penetrar em pesadas estruturas – para utilizá-los contra Israel. Agora, creio que o Hezbollah conta com armas muito mais avançadas que esses antigos foguetes russos que Saddam Hussein usou contra Israel na Guerra do Golfo de 1991. Ultimamente tem usado aviões sem piloto e inclusive enviou um em vôo de teste sobre Israel, que regressou intacto ao Líbano. Mas, Scuds?

Mas a afirmação cumpriu seu papel. Os estadunidenses lançaram uma ameaça oblíqua a Síria, ainda que não houvesse nenhum grão de evidência de que os velhos Scuds tivesse sido levados ao Líbano. A ponte do Brooklyn foi comprada de novo. Mais recentemente, foi a vez de Netanyahu. “O problema de segurança – afirmou – não só os novos (sic) foguetes que entraram (sic) na zona e que ameaçarão centros urbanos, Não se vocês sabem disso, mas hoje batalhamos para voar perto de Gaza porque há mísseis antiaéreos lá”.

Convenhamos, o Hamas é tão ineficiente e corrupto que duvido que tenha conseguido fazer passar uma arma dessas pelos túneis desde o Egito, a menos que se trate de alguns desses foguetes que podem ser disparados em cima do ombro e que deram resultados militares lamentáveis quando os palestinos os usaram em 1982, em Beirute.

Mas a ponte do Brooklyn foi comprada de imediato. O correspondente da agência Associated Press em Beirute relatou que a afirmação de Netanyahu era um acontecimento com o potencial de mudar o jogo e poderia ameaçar a capacidade da força aérea israelense de atacar o grupo militante islâmico. Que engraçado: então por que o Hamas não usou essas armas maravilhosas em janeiro do ano passado, quando os israelenses criaram um inferno na Faixa de Gaza? Ou por que os israelenses não as encontraram quando ocuparam a área? E mais uma vez: por que não encontraram seu soldado perdido, Gilad Shalit, capturado pelo Hamas há mais quatro a nos, quando entraram em Gaza a sangue e fogo?

Certamente, não só os estadunidenses e os israelenses que nos vendem a ponte do Brooklyn. Quando o indignado presidente iraniano, em visita ao sul do Líbano há alguns dias, advertiu os israelenses que seu país está condenado – Yasser Arafat costumava vender essa mesma ponte quase no mesmo lugar do sul do Líbano, há 33 anos – as manchetes do mundo proclamaram esta ameaça como se Ahmadinejad tivesse chegado a Beirute levando em sua bagagem uma de suas famosas ogivas nucleares. E, claro, Israel denunciou que o Líbano é um novo centro de terror regional. Essa afirmação também deu a volta ao mundo.

Vivendo no Líbano há 34 anos, lembro que os israelenses utilizaram exatamente a mesma frase em 1978, 1982, 1993, 1996 e 2006. Suponho que esses condenados libaneses ficam construindo novos centros de terror regional a cada vez que o extremamente exitoso exército de Israel devasta sua terra.

Há mais pontes do Brooklyn no caminho? Sem dúvida. Depois de tudo, passaram-se apenas alguns meses desde que esse grande vendedor de pontes que é Daniel Pipes deu um conselho ao governo estadunidense no Jerusalem Post sob o título “Como salvar a presidência de Obama: bombardeie o Irã”. Suponho, dada a ampla oposição interna no Irã, que alguém próximo do homem forte poderia devolver a frase: “Como salvar a presidência de Ahmadinejad: bombardeie Israel. E nossos escribas comprariam essa frase também.

[i}Tradução: Katarina Peixoto

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