Mauro Santayana – “A Batalha do Rio”


via “O Esquerdopata


Coisas da Política – JBlog – Jornal do Brasil – Mauro Santayana, Villas-Bôas Corrêa e Wilson Figueiredo

A batalha do Rio

25/11/2010 – 12:07 | Enviado por: coisasdapolitica
Por Mauro Santayana

É um engano identificar a batalha do Rio – e de outras grandes cidades – como mero confronto entre a polícia e delinquentes, traficantes, ou não. Embora a conclusão possa chocar os bons sentimentos burgueses, e excitar a ira conservadora, é melhor entender os arrastões, a queima de veículos, os ataques a tiros contra alvos policiais, como atos de insurreição social. Durante a rebelião de São Paulo, o governador em exercício, Cláudio Lembo, considerado um político conservador, mais do que tocar na ferida, cravou-lhe o dedo, ao recomendar à elite branca que abrisse a bolsa e se desfizesse dos anéis.

O Brasil é dos países mais desiguais do mundo. Estamos cansados do diagnóstico estatístico, das análises acadêmicas e dos discursos demagógicos. Grande parcela das camadas dirigentes da sociedade não parece interessada em resolver o problema, ou seja, em trocar o egoísmo e o preconceito contra os pobres, pela prosperidade nacional, pela paz, em casa e nas ruas. Não conseguimos, até hoje (embora, do ponto de vista da lei, tenhamos avançado um pouco, nos últimos decênios) reconhecer a dignidade de todos os brasileiros, e promover a integração social dos marginalizados.

Os atuais estudiosos da Escola de Frankfurt propõem outra motivação para a revolução: o reconhecimento social. Enfim, trata-se da aceitação do direito de todos participarem da sociedade econômica e cultural de nosso tempo. O livro de Axel Honneth, atual dirigente daquele grupo (A luta pelo reconhecimento. Para uma gramática moral do conflito social) tem o mérito de se concentrar sobre o maior problema ético da sociedade contemporânea, o do reconhecimento de qualquer ser humano como cidadão.

A tese não é nova, mas atualíssima. Santo Tomás de Aquino foi radical, ao afirmar que, sem o mínimo de bens materiais, os homens estão dispensados do exercício da virtude. Quem já passou fome sabe que o mais terrível dessa situação é o sentimento de raiva, de impotência, da indignidade de não conseguir prover com seus braços o alimento do próprio corpo. Quem não come, não faz parte da comunidade da vida. E ainda “há outras fomes, e outros alimentos”, como dizia Drummond.

É o que ocorre com grande parte da população brasileira, sobretudo no Rio, em São Paulo, no Recife, em Salvador – enfim em todas as grandes metrópoles. Mesmo que comam, não se sentem integrados na sociedade nacional, falta-lhes “outro alimento”. Os ricos e os integrantes da alta classe média, que os humilham, a bordo de seus automóveis e mansões, são vistos como estrangeiros, senhores de um território ocupado. Quando bandos cometem os crimes que conhecemos (e são realmente crimes contra todos), dizem com as labaredas que tremulam como flâmulas: “Ouçam e vejam, nós existimos”.

As autoridades policiais atuam como forças de repressão, e não sabem atuar de outra forma, apesar do emplastro das UPPs.

Na Europa, conforme os analistas, cresce a sensação de que quem controla o Estado e a sociedade não são os políticos nem os partidos, escolhidos pelo voto, mas, sim, o mercado. Em nosso tempo, quem diz “mercado”, diz bancos, diz banqueiros, que dominam tudo, das universidades à grande parte da mídia, das indústrias aos bailes funk. E quando fraudam seus balanços e “quebram”, o povo paga: na Irlanda, além das demissões em massa, haverá a redução de 10% nas pensões e no salário mínimo – entre outras medidas – para salvar o sistema.

A diferença entre o que ocorre no Rio e em Paris e Londres é que, lá, o comando das manifestações é compartido entre os trabalhadores e setores da classe média, bem informados e instruídos. Aqui, os incêndios de automóveis e os ataques à polícia são realizados pelos marginalizados de tudo, até mesmo do respeito à vida. À própria vida e à vida dos outros.

5 comentários sobre “Mauro Santayana – “A Batalha do Rio”

  1. Bobagem, o que está acontecendo é uma reação a perda de poder do tráfico, seja por causa das UPPs, seja por causa da perda dos privilégios dos líderes nas prisões graças aos predídios federais, seja por causa da epidemia de crack, seja por causa da chegada das drogas sintéticas ou do surgimento de traficantes de classe média, hoje, o tráfico não tem mais tanto lucro, não tem mais tanto poder, mas ainda tem as armas, e vai usa-las até o fim.

    Tem a ver também com exlusão, pobreza, desigualdade, claro, mas a “Batalha do Rio” é motivada por uma situação bem mais pontual.

  2. Pepino, seu comentário é tão breve quanto seu epíteto. E parece que sua visão, se não é breve, pelo menos é curta.

  3. O governo não vai conseguir ocupar todas as favelas e talvez nada mude. Falta dinheiro para mais policiamento.A verba para policia teria que ser 5 vezes maior. Mas tirariam o dinheiro de quem?De nós?

  4. Sou obrigada a concordar com o Santayana. É preciso incluir reapidamente a população marginalizada das grandes cidades antes que fiquemos com um outro Brasil dentro do Brasil. Isso só pode ser feito com dignidade. Acho que em vez de investir em armas para combater o trafico – que não poderá ser derrotado pelas armas, mas sim pela descriminalização – o governo deveria começar fazendo um acordo com a Coral ou outra grande fabrica, para investir em cimento e tinta, e ajudar a rebocar os baracões do Rio de Jameiro para torná-los mais parecidos com uma cidade normal.

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