Quer que eu desenhe? :: Câmbio Valorizado

Esse post do Alê Porto e a visão excessivamente “cor de rosa” do Gunter (rs) a respeito do futuro da economia brasileira me obrigou a fazer essa “edição especial”. Pois tem alguma coisa errada quando começamos a ver pessoas boas começarem a ignorar que temos um problema sério nas contas externas e que essa situação não é sustentável e de dificílima resolução.

Segue abaixo alguns dados importantes. E o que me assombra ainda mais, esses dados estão desatualizados, visto que houve uma valorização ainda maior da moeda desde o último boletim.

 

“Exportações Brasileiras :: Commodities vs Não-Commodities (1990 a 2010)”

“Financiamento de Transações Correntes :: O IED vai pagar a conta? Até quando?”

“Transações Correntes :: Deja Vu?”

“Exportações por Bloco Econômico :: Vermelho em extinção (para os países ricos)?”

“Balança Comercial :: Nisso eu até concordo, estamos em patamares diferentes. Mas é o “mesmo” (similares é palavra correta) problema.”

“Parceiros Comerciais :: Desses caras quem não está em crise, ou na iminência de uma recaida?”

E ai? Temos um problema grave ou não? O gradualismo vai resolver isso? Pra sair dessa enrascada é preciso coordenação. Sorte que a Dilma tem consciência disso (eu acho). 

Tem gente que vai se irritar porque não coloquei esses gráficos antes das eleições. Sorry periferia, eu li Maquiavel.

5 comentários sobre “Quer que eu desenhe? :: Câmbio Valorizado

  1. Hehe. Não é só cor-de-rosa, mas “Lippy cor-de-rosa” rsrs

    Meu caro “Hardy”, ainda não vejo razões para mudar de opinião, mas vou polindo aqui e ali. Minha mais recente colocação está às 14:29 deste post:
    http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-efeitos-do-cambio-apreciado

    Você tem razão em não fazer críticas demais antes da eleição. Eu também não fiz críticas quando percebia que Serra e/ou Marina seriam piores no ponto em questão (seria desonestidade intelectual se S/M tivessem alguma proposta boa e omitíssimos) Mas pareciam sempre piores, então não fiz críticas.

    Alexandre pelo visto desencanou de escrever no LNO, nunca mais o vi lá.

    Não tem problema, o que buscamos é duas coisas:
    – influenciar o futuro (nisto, quem acredita no desenvolvimentismo cambial tem todo o direito de se manifestar), apontando razões críticas, propondo melhores caminhos.
    – prever o que é mais provável. Neste ponto, independentemente das opções pessoais de cada um.

    Por acaso eu acho que desvalorizar sem criar imposto de exportação sobre matérias-primas e/ou taxar importações de manufaturas, seria furada. Eu prefiro a heterodoxia, mas a conversa está em geral interditada para esse lado. E acho que o mais provável são mudanças lentas.

    Preciso dar uma saída, depois volto…

  2. Bom, vamos ver no que dá para usar o óculos cor-de-rosa ao ler esse belo levantamento de gráficos.

    – Composição das exportações brasileiras. Aqui não parece grave. Ao longo do tempo temos que ver que o volume/valor dos manufaturados cresceu em termos absolutos quase todos os anos(caiu de 2008 pra cá), isto é o importante. Mas o país passou por um grande aumento de produtividade agrícola/extrativa e conseguiu excedentes exportáveis. E uma nova mudança de pauta ocorrerá com o pré-sal, afinal se incorporará o petróleo à pauta. (Alguém vai falar em desindustrialização se o petróleo agregar 100 bi/ano?) O país não se desindustrializou, mas agregou uma muito grande produção agrícola (acho que agora somos os 3ºs depois de EEUU e China) e isso é bom. Também houve o seguinte : temporariamente, com pouca capacidade ociosa no Brasil, parte da produção de manufaturados que era exportada, e que perdeu mercados fora, foi destinada ao mercado interno. Isso fica ruim no gráfico, mas não na vida real, afinal, pior seria se o Brasil não tivesse saído da crise e não consumisse.

    – Fontes de financiamento. Aqui há um sinal de alerta, afinal os investimentos diretos não cobrem mais o déficit e cobrir a diferença com investimento especulativo não é bom, porque obriga a manter os juros altos. Ambas as curvas vão aumentar no ano que vem, mas a conta ainda não vai fechar. A questão é que não será a desvalorização que mudará isso rápido : as quantidades exportadas/importadas mais ou menos continuam no mesmo prazo, porque o Brasil ainda irá crescer mais que outros mercados. Desvalorização afeta mais a transferência interna de renda do que os saldos. Será que o governo paga para ver em 2011 a ver se as contas fecham em 2012?

    – Transações correntes/PIB. Para analisar bem teríamos que ter a pauta dividida de importações/exportações, estimar os preços e quantidades para o futuro. Se as matérias-primas aumentaram de preço de 2007 para cá, apesar da crise de 2008/09, e creio que aumentaram, isso significaria que na pior das hipóteses voltar ao câmbio de 2007 permitiria zerar o déficit e sem precisar de IED (que está cobrindo estes 3 anos e também 2011). Em 2007 o dólar médio foi R$ 1,95, o que corrigido pela diferença de inflações seria 2,18. Temos que contar que quase todas as outras economias (nossas competidoras) também valorizaram em relação ao dólar, então não precisa tanto. Eu advogo há um certo tempo desvalorização gradual, do tamanho da Selic líquida de IR até reequilibrar as transações correntes. Partindo do ponto atual (R$ 1,75/US$), supondo juros líquidos de uns 8%, fazendo esse exercício em 3 anos retomaríamos a competitividade de 2007, com efeito bem diluído na inflação.

    8% ao ano de desvalorização nominal, portanto, é minha aposta. Desestimula capitais especulativos, não inviabiliza a captação de empréstimos (endividar em dólar a juro zero seria mais ou menos o mesmo que endividar em R$/Selic/TJLP), cria um horizonte de expectativas para o produtor industrial comprar máquinas agora para exportar na frente. As reservas são suficientes para esse jogo.

    – Exportações por bloco. Não é que o vermelho esteja em extinção. Houve a queda para os EEUU em 2010 (os dados são de metade do ano, certo?) Mas todos os exportadores pra lá devem ter sentido isso. O que acontece é que nesse meio tempo justamente surgiu a China (e Índia) para comprarem os novos excedentes agrícolas/minerais que falamos antes. Foi bom para ambos. Se tirarmos a China e Índia das séries, teremos que o resto mudou pouco e acho que teremos material para um post desmistificando a desindustrialização!

    O que houve de concreto : um novo mercado surgiu em MG/C-Oeste para atender um novo cliente, a Ásia. Por que isso seria ruim? Olhar % de pauta é que tá confundindo, teríamos que obter as séries decompostas por destino comprador (você ajuda nisso?)

    – Balança comercial. Não está tão boa como 2004-2007. Mas está positiva, mesmo com a corrente de comércio em queda! Para um país aquecido com mundo menos, está ótimo. Como sabemos que do mundo só China/Índia estão melhor, isto explica a mudança da pauta também. Ou seja, recuperando a economia intl, volta-se aos bons tempos. Não recuperando-se os países ricos, fica nesse meio termo. Pior seria se as importações em 2010 fossem maiores que em 2008, significaria importação de bens de consumo para atender demanda interna. Como não foi assim, sinal de que se trata de insumos para produção/reexportação e/ou máquinas. Não dá para falar sem os decompostos, mas aqui não há crise ainda.

    x-x-x-x-x-x-x

    O que eu queria saber é porque o discurso governamental não fala dessas coisas…

    Bom, agora é sua réplica… Abs.

    1. Desculpe a demora, vamos lá (man, como eu queria saber permitir comentários por parágrafos como vi num site lá fora):

      1 – Não entendi, mais US$ 100 bi de petróleo é pra ser comemorado? Petróleo é commodity lembra? Ele só vai agravar a situação e nos condenar a meros produtores de insumos básicos. Eu escrevi que é preciso induzir o ciclo produtivo a produzir tecnologia, inovar. Mas isso é metade teoria, metade torcida. Não há garantias de que nada disso ocorra. Votamos na Dilma por isso, mas não tem nada ganho. Esse gráfico é assustador. O mal do petróleo é que ele provoca soluções fáceis. Se a parte industrial está sendo consumida internamente, precisamos de comprovação cientifica disso para dormirmos tranquilos. Eu tenho minhas dúvidas. Que poderia ser pior, ai eu não discordo🙂.

      2 – Vc pega muito leve. O Alê tb errou sobre isso. O fato do IED estar elevado em termos absolutos mascara a realidade que ele está em queda livre no relativo. É um desastre total voltar a ser financiado por capital de curto prazo. Se o caldo entornar lá fora, não tem US$ 300 bi de reserva que aguente. E confiar no imponderável é colocar, novamente, nosso destino nas mãos de “agentes externos”. Já sofremos demais com isso na era FHC, deveríamos ter aprendido a lição. Além do mais, se a coisa explodir lá fora, vc acredita que o governo vai criar controles rígidos para a saída de capital? Nunca. Não tem coragem de endurecer as regras para entrada, qto mais para a saída.

      3 – Na verdade esse item é o que vc propõe. Eu particularmente acho que será preciso uma microruptura pro BC conseguir vencer o mercado (sem criar muita divida). Estou falando de controle de capitais, etc. Mas ninguém advoga uma macro-desvalorização, não é disso que estamos falando, estamos lutando contra a ideia que está tudo bem e que “as coisas se ajeitam”. Queira ou não esse é o discurso até aqui.

      4 – Ajudo sim. Quando coloquei o gráfico vi que não seria possível fazer uma analise apurada das exportações por bloco econômico. Tb vou procurar dados sobre o desempenho, em especifico da China agora. Eu acho que eles passaram incólumes, mesmo com os EUA no fundo do poço. No gráfico não dá pra visualizar o real tamanho de cada bloco.

      5 – Cara somos emergentes. Não somos países desenvolvidos. Temos empregos pra criar (por anos) e escolas pra construir. Ter um superávit na balança é premissa, mas isso não pode ser feito só com exportando insumos básico com preços dolarizados, é preciso fortalecer a industria de base, a industria de maquinas e equipamentos, pra daqui a 10, 30 anos começarmos a brigar nas áreas de alta-tecnologia. Deveríamos aprender com a China que está construindo isso tem meio século.

      Na verdade a complexidade do tema, e a pobreza dos gráficos criou um fosso nas questões principais. Vou dar uma pesquisada nisso e a gente volta a conversar.

      O que é importante é encararmos o problema. E não empurrar com a barriga. Essa oportunidade que vivemos é rara na história das nações. Temos que aproveita-la.

  3. Pois é, comentários por parágrafo seria ótimo, nunca vi.
    Também desculpe a demora, ando atrapalhado.

    1 – o que eu quis dizer é sobre o efeito estatístico na composição da pauta. Se houver exportação de US$ bi de petróleo, as commodities serão então 80% do total, mas não haveria desindustrialização só por esse número, não baixaria a produção industrial assim, apenas se agregaria algo às importações.
    Não vamos dizer que riqueza produzida com vantagens comparativas é perversa. É o uso que se faz que pode ser inadequado. Se usar a receita para valorizar o câmbio ou para importar supérfluos, é uma coisa, mas se for usado um fundo soberano para esterilizar uma possível doença holandesa e se os recursos forem usados para investimento em inovação, é outra coisa. (Não é por que a Espanha gastou todo o ouro sem se industrializar, que todo país precisa suar como a Coreia. É questão de saber usar!)

    2 – Não sou contra uma desvalorização racional e controlada para reequilibrar as contas externas sem precisar de investimentos especulativos. Mas o IED é válido na conta, trata-se da venda de ativos, não é diferente da venda de bens. E o resultado econômico aqui provavelmente será reinvestido aqui, aumentando a capacidade produtiva. Não preocupa que o IED caia se o superávit comercial aumentar, aqui o importante é o total.
    Bom, mas fica o problema que Transações Correntes + IED está negativo. Aqui é para preocupar, sim, é o ponto fraco de tudo. Se a demanda externa não aumentar em dois anos será ruim usar reservas.
    Minha preocupação é a seguinte : deve-se desvalorizar para reequilibrar, mas há agentes especulando no uso da desvalorização para industrializar/desenvolver. Aqui acho que há o risco grande de reconcentrar renda com uma desvalorização excessiva que não gerará empregos como se fala. Trata-se muito de lobby, na minha opinião.

    3 – Sim, eu proponho formar mais reservas para induzir uma desvalorização limitada por alguns anos. A existência das reservas e as expectativas formadas seriam o controle, o seguro de que não seria desordenado.
    Ok que “as coisas se ajeitam” é um discurso equivocado. Mas falar em desindustrialização como desculpa também me parece equivocado, o bom motivo seria o reequilíbrio das contas. E há sim quem advogue macrodesvalorização, mais de uma vez li números da ordem de R$ 2,60/US$, esse número é para favorecer alguns setores, não o país.
    Anda faltando a área econômica do governo também falar, é um erro isso, deixatodo mundo especulando.

    4 – se possível for, gostaria de obter uma planilha com as exportações em valores (não %) por grupo de bens e por país. Mas sem pressa, agora não posso nem pesquisar nem redigir.

    5 – Há modelos e modelos de desenvolvimento. Teríamos que elaborar melhor a questão. Mas de saída estamos sem as escolas para formar os desempregados que precisarão dos bons empregos. Enquanto a economia está em pleno emprego (com maus empregos) é melhor preservar o poder de compra, não transferir renda para setores que não precisam de proteção cambial. Então tem que ser coordenado e aos poucos, formando indústrias mas formando os trabalhadores e importando a tecnologia.
    Se simplesmente desvalorizar sem cuidar da educação, teremos gargalo de mão-de-obra, inflação e reconcentração de renda. E a mesma indústria ineficiente e protegida do passado. A quantidade de empregos será a mesma, mas com salários mais baixos em dólares.
    E também não adiantará desvalorizar sem uma estrutura de taxar o que for muito competitivo (minérios, petróleo, soja, carne)
    Eu acho que o governo atual está mais certo que errado, desvalorização para desenvolvimento é pra quando há capacidade ociosa (no mínimo esse pré-requisito)

    As pessoas parecem presas ao discurso Cepalino dos anos 60, que era correto, mas se esquecem que ele funcionava com taxas duplas ou triplas de câmbio. As pessoas lembram que a Coreia e Taiwan e China se desenvolvem com câmbio barato, mas esses países não tem matérias-primas para valorizar o câmbio, então não precisam de estrutura heterodoxa de tributos. Também não vale lembrar de EEUU, Austrália (esta mais ou menos tem indústria) ou Canadá, porque esses países já completaram o ciclo de desenvolvimento dos serviços, então produzem primários + serviços, sem indústria.

    O caso brasileiro é distinto, precisa de estratégia distinta. Meu receio é a forma como o discurso cambial-desenvolvimentista vem seduzindo pessoas sem trazer consigo uma mudança tributária e um planejamento estratégico.

    Mas vamos mantendo a discussão acesa!

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