O blocão do jogo graúdo

“alguém arrisca o que realmente estava passando na cabeça de cada um desses personagens nesse momento histórico?”

É a economia – como sempre -, estúpido! Enquanto os colunistas da velha mídia se digladiam com o blocão-dos-que-foram-sem-nunca-terem-ido, o bloco-da-gente-graúda pôs a bola no chão e começou a jogar. E olhem que a Dilma sequer tomou posse. Não adianta espernear, é do jogo, é assim que o jogo é jogado. Mas nada é por acaso, essas coisas se decidem agora, porque que quando o trem passa, já passou (ein?).

Pra quem não entendeu eu estou falando das definições sobre o Ministro da Fazenda e do (Ministro) Presidente do BCB. No primeiro caso a Presidenta nem deu tempo pros adversários se tocarem na bola. Foi um gol relâmpago. Que Palocci que nada. Anotem ai, essa fórmula agora vai virar regra: sempre um Ministro da Fazenda que não goste de holofotes, que não tenha pretensões políticas, que seja silencioso e eficaz (ou seria efetivo?). Estilo matador de aluguel, esse é Guido Mantega. Talvez por isso seja tão odiado. O cara que lentamente dobrou a Fazenda para um desenvolvimentismo de resultados. Mudou todos os cargos e posições, sem cometer erros (ups, esqueceram de mim). Mas não importa, quem nunca errou numa indicação para a Receita Federal do Brasil que atire o primeiro dossiê. E mais, se é pra cometer maldades, temos no governo um keynesiano um pouco ortodoxo que tem plena consciência do que deve ser feito e, – bônus time – com “muito menos ruído”.

Resolvida a questão da Fazenda, sobrou a carne de pescoço, o foco é o BCB (Banco Central do Brasil, por favor, chamem a criança pelo nome de registro). Sinceramente não sei se o Lula realmente disse para a Dilma manter o Meirelles. Não confio na mídia, mas tudo indica que o vazamento é verdadeiro. Se ele disse isso, foi um erro terrível, do tipo que só o Lula comete. Ele criou o espaço para a situação que temos no momento, recapitulemos: 1) Lula diz para Dilma manter Meirelles e Mantega, mesmo que só no começo; 2) Mantega aceita de pronto, mas o Meirelles, diz que só aceita com “autonomia” e sem “prazo pra sair”. Resultado: sinuca de bico.

Mas é ai que as coisas mudam de figura. Oras, a Dilma já disse que, em última instância, não serão pessoas que comandarão (a política econômica), será ela a responsável. Quando ela disse isso ela tinha plena consciência que estava assumindo integralmente a responsabilidade seja do bônus, seja do ônus. Mas não é assim que as coisas funcionam no presidencialismo? Não! O Lula por exemplo, sempre manteve o BCB como um ente que “orbita” o político. As maldades e os juros altos eram culpa do Meirelles. A consolidação da estabilização? Responsabilidade do Lula. A Dilma, aparentemente, não quer jogar esse jogo. Até porque tem uma visão de longo prazo que o Lula não tem. Sabe que precisa estabelecer uma coordenação entre o BCB e a Fazenda. E não amanhã, precisa disso agora.

Assim, o cenário ficou complicado. Mas se não dá conta, não desce pro play. É o jogo graúdo que estava falando. Agora o todo-poderoso – mercado – quer saber o que ela vai fazer. Eu acredito que ela sabe que não pode ceder agora, porque seria o começo do fim. Quando se dá a mão pra esse ser invisível, ele quer o resto, do pé à cabeça. Ela sabe que precisa impor um técnico discreto e trazer a responsabilidade final da condução econômica pra si. Coragem ela tem. Mas é preciso ter habilidade política também.

Eu por exemplo sou um dos que deixaria o Meirelles lá por um tempo – mas teria decidido isso antes dessa arapuca ser montada – #safety1st tenho dito. Mas eu sou um covarde, né? Então não conto. E o Lula governou por 8 anos com esse jogo no zero-a-zero, e se deu bem. As vezes não fazer nada é a melhor estratégia.

Enfim, acho que qualquer que seja a decisão, vai empatar o jogo. Mas nunca se esqueçam dos detalhes – o diabo está neles – essa decisão mostrará, na minha visão, uma das grandes diferenças entre a Dilma e o Lula: pra mim ela não entrou nesse jogo pra ficar no zero-a-zero. Ela entrou pra ganhar, e jogando no ataque. Sempre.

Façam suas apostas!

6 comentários sobre “O blocão do jogo graúdo

  1. Cara, parabéns pelo post. Realmente a escolha dos nomes da área econômica é muito importante (e polêmica) para o novo governo. Arriscando um palpite (é o máximo que um cara do direito pode fazer ) eu particularmente tiraria o Meirelles. Assim como diziam que o PIB potencial (sem inflação) era 3% (o que se provou um dogma falso), creio que pode ser outro dogma falso a atual política do Meirelles no Banco Central para combater a inflação. São muitas variáveis internas e externas em jogo, tanto políticas como econômicas e sociais, tanto subjetivas como objetivas. O primeiro ano de governo da Dilma, após o bem sucedido governo Lula, é a melhor hora (talvez a única) para arriscar. Em 1 ano e meio creio que dá para saber se dará ou não certo a substituição do Meirelles (e queda do juros sem aumento significativo da inflação). Caso não dê certo (o que acho menos provável) um bom monetarista consegue reverter a situação com uns 3 ou quatro petardos de 0,75 na Selic. O resultado pode demorar 1 ano, mas ainda haverá tempo hábil para 2014.

  2. O Fernando está inspirado, o lado cronista à toda.

    Ué, e meio que vice-versa. Hoje em dia qual a grande diferença entre o discurso de Delfim e de Conceição? E ambos são um tanto mordazes…

  3. Bom, eu acho que o Meirelles é sensato. Afinal no período dele foi-se de 16 para 4 pp reais ao ano nos juros. O Brasil tem uma condição diferente de China e Índia, é exportador de matérias-primas. E a equipe econômica está consciente dos gargalos da economia, o erro não é só demorar em baixar os juros, mas atrasar em ampliar a capacitação de mão-de-obra.

    Acho que o Meirelles não se oporia a baixar juros não, é que isso seria difícil de explicar pra torcida.

    Sim, o dogma dos 3% é falso. Empiricamente se diz que o PIB potencial é 1/3 ou 1/4 da taxa de investimentos, isso no Brasil de hoje leva a 4-5%. Cresceu-se 7,5% este ano por causa, acho, da base menor no ano passado.

    Tem uma matéria ótima na Carta Capital de hoje, pág. 30, a melhor que li em tempos sobre tudo isso. O mais provável é que aceite uma pequena elevação da inflação.

    Creio que tudo será gradual e lento, na direção certa. Isso pra mim parece ter cara de Dilma. Não que ela não queira arriscar, é que parece que não precisa.

  4. Aonde isso? Mas não resolve. A chave do jogo é trazer a responsabilidade pra dentro do Planalto, só assim o Mercado baixa a bola.

    Pq mexeu com Ela, mexeu comigo, com vc, e principalmente, com o seu, o nosso, o deles, bolso. Sacou?

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