O futuro do Congresso :: Ruralistas vs Ambientalistas


“Aqui eu ia colocar um adesivo que é muito comum na região: Você compra uma camionete ou SUV novo e cola um adesivo de “Crise no Campo””

Já havia citado, lateralmente, essa questão crucial para o futuro do Congresso. Muitos esquerdistas criticam repetidamente, o governo Lula (e o FHC também) por ceder a certos grupos de interesse mais “retrógrados” (um preconceito pois o agronegócio não tem nada de atrasado). A força da bancada ruralista impediu, claramente, inúmeros avanços institucionais. Existe milhares de exemplos, vou pegar só os que me incomodam mais: a PEC do Trabalho Escravo, a proibição de compra de terras por grupos estrangeiros e o novo Código Florestal.

Não estou dizendo que o que sai do Congresso em geral é necessariamente ruim, muito pelo contrário, assim como o Delfim, considero que o Congresso produz mudanças, na maioria das vezes positivas, que representam o atual estado da sociedade, o que nem sempre se coaduna com os interesses de quem ocupa o poder. Viva a democracia! Ainda bem que assim.

Mas essa nova configuração do Congresso (uma redução na bancada ruralista na Câmara e crescimento no Senado) começa a mostrar um cenário mais interessante e “moderno” (não achei outra palavra), até por que no Senado os acordos são de outro nível.  Tolos como eu espera que certos avanços como as questões que coloquei, sejam finalmente aprovados e possamos seguir em frente. Lutar as batalhas mais urgentes, e romper com a procrastinação intencional nessa agenda do século passado.

As questões ambientais continuam sendo graves, e os verdes tendem a crescer de maneira “orgânica” (rs) sua bancada daqui pra frente e é bom que os ocupantes do governo não se iludam achando que esses caras vão dar menos trabalho que os ruralistas. Marina não é uma Heloisa Helena, e a votação que ela recebeu deve ser respeitada e tratada com seriedade.

E por isso mesmo é que eu não compreendo políticos (que dizem ter lido Maquiavel, Sun Tzu e a história de Napoleão) não terem começado um processo de “dividir para conquistar”. Pequenos e médios agricultores (agricultura familiar e semi-empresarial) se sentem representados pela Kátia Abreu (CNA) porque é o que eles tem. Os ambientalistas menos radicais se sentem representados por essas ONGs internacionais por que é a única forma de serem ouvidos.

O governo dialogar com essa faixa mais “progressista” é fundamental, mas infelizmente não enxergo canais de comunicação tão efetivos (talvez só na agricultura familiar, mas existe um universo de pequenos e médios agricultores sub-representados).

Enfim depois, não adianta chorar, esse trabalho é de longo prazo e demora pra produzir frutos.

Bancada ruralista cai quase à metade na Câmara, mas domina 30% do Senado — Rede Brasil Atual

Bancada ruralista cai quase à metade na Câmara, mas domina 30% do Senado

Indicação do ministro da Agricultura, que ficou na mão do setor nos dois mandatos do governo Lula, será prova de força do agronegócio após a eleição

Por: Maurício Thuswohl, especial para a Rede Brasil Atual

Publicado em 12/11/2010, 17:05

Última atualização às 17:18
Bancada ruralista cai quase à metade na Câmara, mas domina 30% do Senado

Enquanto o número de deputados relacionados ao setor caiu quase à metade, as cadeiras conquistadas no Senado aumentaram(Foto: Ricardo Stuckert/ Agência Câmara)

Rio de Janeiro – Acostumados a atuar como um dos mais influentes grupos setoriais do Congresso Nacional, os ruralistas podem ter de lidar com uma realidade que menos favorável na próxima legislatura. Os parlamentares ligados ao agronegócio são apontados como donos de grande poder de articulações e capazes determinar o resultado de algumas votações. Enquanto o número de deputados relacionados ao setor caiu quase à metade, as cadeiras conquistadas no Senado aumentaram.

Na Câmara, a chamada “tropa-de-choque” da bancada ruralista foi reduzida de 117 deputados federais eleitos em 2006 para 66 deputados, em 2010, em uma redução de 45%. Por outro lado, a bancada ruralista no Senado ganhou peso e terá 24 cadeiras a partir de fevereiro 2011, o que representa cerca de 30% do total de senadores.


A força política dos ruralistas poderá ser medida nas próximas semanas, durante a composição do ministério da presidente eleita Dilma Rousseff. O setor controlou o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) durante todo o governo Lula – primeiro com Roberto Rodrigues, do PP, e depois com Reinhold Stephanes, do PMDB – e a expectativa da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) é que o ministro da pasta continue a ser de sua “cota” no futuro governo.

Essa continuidade, entretanto, já esbarra em uma primeira dificuldade, pois o vice-presidente eleito, Michel Temer, que também é presidente do PMDB, deseja manter no cargo o atual ministro, Wagner Rossi, a quem é ligado. O desejo de Temer provocou a reação de diversas lideranças ruralistas, que publicaram notas em diversos jornais do país defendendo a recondução de Stephanes ao Mapa.

A tendência é que o vice-presidente eleito ganhe a queda-de-braço, mas há na entourage de Dilma quem defenda que o Mapa não fique nem com Rossi nem com Stephanes, sob o argumento de que a maioria das lideranças ruralistas apoiou Serra na disputa presidencial.

“Os ruralistas, nas eleições presidenciais, tiveram um desempenho dúbio apesar de terem sido um dos setores mais favorecidos pelo governo Lula”, afirma Edélcio Vigna, assessor para Políticas de Reforma Agrária e Soberania Alimentar do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), em artigo publicado na agência Adital. “A candidata Dilma perdeu em estados considerados domínio dos grandes agropecuaristas, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. Por outro lado, a candidata ganhou em Tocantins, Goiás e Rio Grande do Sul”, avalia.

O resultado paradoxal, segundo o assessor do Inesc, “demonstra que os ruralistas só atuam de forma coordenada nas votações congressuais onde seus interesses imediatos estão em pauta”. Essa prática, no entanto, terá que ser modificada na próxima legislatura: “A bancada ruralista, assim como nos mandatos passados, deverá se recompor na legislatura 2011/2015. Mas, se não evoluir nas práticas e no discurso, incorporando a preocupação ambientalista e de sustentabilidade, poderá ser varrida para a lata de lixo da história”.

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