Copa 2014, digo Dilma 2014.

Acho que a presidenta Dilma terá muitos caminhos para boa popularidade nos próximos anos e discussões ideológicas são de muito menor relevância que práticas de gestão. Tanto o Brasil escolheu o caminho centrista do desenvolvimentismo capitalista induzido pelo Estado, como isto é amplamente aceito pela sociedade, inclusive de seu Centro-sul, assim como a situação internacional leva a isso. Eventuais discursos eleitorais ou preferências individuais não alteram a realidade que levou a uma eleição recente parecidíssima com a de quatro anos antes.

O que parece, agora, possível na economia :

O Brasil paga juros reais de 4.5%, muito acima dos 2% que outros emergentes pagam e que seria o suficiente para rolar a dívida pública, pois o capital financeiro simplesmente não tem para onde fugir, mormente agora que o Japão e os EEUU zeraram os juros. Assim, a redução dos juros, digamos para 8.0, por si só já seria um ajuste fiscal de 1% do PIB. Mas continua a preocupação com aquecimento da economia, já que não há muita capacidade ociosa no momento (pelo menos não na maioria dos segmentos), a poupança interna ainda é baixa e teme-se o eventual surgimento de bolhas de valorização imobiliária. (Para este risco a solução passaria pela heterodoxia : manter os juros brutos mas ampliar a cunha fiscal, passando o IRRF sobre aplicações de 15% para algo como 35%, incluindo capital estrangeiro.)

(Ser pressionado para baixar juros é sempre mais agradável que o contrário.)

– O modo de desvalorizar o Real sem abandonar o câmbio flutuante seria também heterodoxo : o governo se portar como agente demandante e acumular reservas. Mas fica o problema residual do custo de seu financiamento, a diferença entre juros externos e internos. Então a desvalorização nominal pode ser induzida para um ritmo equivalente ao da taxa nominal de juros, tornando fiscalmente neutro o financiamento de reservas (mas havendo o benefício nas contas públicas, em uma só vez, da valorização em reais das reservas atuais.) Os preços de matérias-primas não estão caindo internacionalmente (apenas não se sabe se a demanda virá da Ásia ou dos países da OCDE) e há grande produtividade interna para estas, fica ainda, então, a possibilidade de se tributar exportações.

(Desvalorizar sempre é possível, valorizar não. Também é um recurso como eventual política anticíclica, com a criação de demanda externa, e, como o governo agora é credor em divisas, com potencial para redução de dívida/PIB. Bem cômodo isto.)

– E ainda há a possibilidade de se aproveitar o clamor geral pela saúde para (re)inventar a CSS (Contribuição Social para Saúde.)

(Os governos estaduais da oposição, com dificuldade de cumprir aportes para o SUS são, paradoxalmente, grandes interessados. De ortodoxos estes governos pouco têm, pois aumentam a carga tributária ao longo dos anos proporcionalmente mais que o governo federal.)

Recapitulando. A taxa real de juros, líquida de inflação e IR, deve cair, portanto. Se a economia mundial desaquecer, isto serve de instrumento para política anticíclica no Brasil. Em caso contrário, serve para redução da dívida pública real.

O câmbio deve desvalorizar, pelo menos algo que assegure o equilíbrio de longo prazo. Com 8-10% de desvalorização ao ano se retornaria, em dois anos, à posição internacionalmente competitiva de 2007. O efeito imediato será reduzir as apreensões quanto ao déficit comercial. Mas com o seguinte subproduto : um grande aumento da popularidade do governo justamente nas regiões agroexportadoras, onde perdeu por pouco as eleições em 2006 e 2010.

Os principais gastos públicos, como investimentos em infraestrutura & funcionalismo já estão orçados e não devem crescer mais como proporção do PIB. Pensões rurais ou por idade, responsáveis pelo déficit da previdência, tendem ao declínio com a maior formalização. Não se deve descuidar da questão previdenciária como um todo, pois a população está envelhecendo, mas o bônus demográfico (período em que a população ativa cresce mais rápido que a total) existirá até +/- 2030. E o Brasil pode planejar imigração organizada no longo prazo.

(Não se deve esperar redução da carga tributária em geral, mas maior eficiência no uso dos recursos pelo Estado.)

A sociedade brasileira permanece injusta, o mais recente IDH o prova no que se refere a desigualdade. Mas os caminhos para a superação são conhecidos. Ainda mais agora que a oposição (a que se dizia neoliberal ??) reinvindica para si a paternalidade dos programas sociais. Como a estrutura tributária no Brasil é calcada no consumo, a inserção de mais 20 milhões de pessoas no capitalismo terá efeito multiplicador de renda e diminuição do impacto fiscal.

(Há o pré-sal, claro. Não pode ser esquecido, mas impactará favoravelmente em tudo : câmbio, reservas, demanda interna, ajuste fiscal, capacidade de inovação. E os eventos midiáticos, que se não reais alavancadores da economia o são para a autoestima : trem-bala, Copa, Olimpíadas, ascender a 5ª. maior economia do mundo.)

Há muitas cartas na manga, portanto. É improvável se imaginar que o vale-tudo eleitoral se referia a ideologia. Não há, pelo menos por ora, uma evocação sincera de conservadorismo econômico por segmentos expressivos da sociedade (e nem de socialismo, diga-se.)

Tratava-se muito mais de saber quem controlará o orçamento anual federal brasileiro de US$ 400 bi e colherá os dividendos políticos de administrar uma economia em crescimento simultaneamente à mitigação de problemas sociais.

6 comentários sobre “Copa 2014, digo Dilma 2014.

  1. Cara, muito bom ein? É mais ou menos o que penso tb. Mas sou macaco velho, sei que esse povo entra na empolgação, dai gosto de falar antes. Lembra do Ministerio do Vai dar Merda? Então.

    Agora faltou vc ser mais pessimista no cenario externo, não tem nada garantido que a China e os EUA vão sair dessa enrascada de maneira coordenada. Alias, muito pelo contrário.
    🙂

    1. Mas então, Fernando, não disse que China e EEUU sairão juntos e de maneira coordenada da enrascada. Mas que UM deles deve sair, aí não faz diferença quem será o demandante de matérias-primas e petróleo e alimentos, a Europa + EEUU + Japão ou a China + Índia.

      Há maior abundância de produtores industriais que de matérias-primas atualmente, então a demanda se mantém. Não é um cenário de reindustrialização, portanto, que só virá com aumento de capital instalado e de força capacitada de trabalho.

      1. Ainda acho que vc está subestimando os efeitos de um “guerra cambial” generalizada, ou de uma desvalorização unilateral dos EUA, e principalmente, a inteligência dos chineses.

        A questão não é bem quem vai sobreviver, e sim qtos anos o comercio mundial vai regredir, e se nos vamos tomar as decisões certas nos momentos criticos.

        Eu vejo caos no horizonte. Mas vamos esperar a reunião do G20.

  2. Muito obrigado por esse texto na base do “otimismo em baldes”. E o melhor é que os seus pontos de vista são extremamente realistas. Mesmo que eu não possa acompanhar todo o seu economês, é uma pena. É isso mesmo que você disse: não era a ideologia, estúpido. Toda a refrega que acabamos de assistir era sobre o privilégio de administrar as sensacionais perspectivas do Brasil. Eles perderam e ficaram muito amuados. Acreditaram na falácia de que tudo o que Lula fez de bom foi “surfar” nas “conquistas” de FHC e,com isso, acreditaram piamente que teriam a primazia de “surfar” no Brasil concertado por Lula.

    1. Ow, desculpe pelo economês. De fato é um erro para por em blog. É que tanto eu como o Fernando somos economistas e há muitas palavras que condensam expressões inteiras, mas sem glossário concordo que é ruim para quem é de outra atividade. Tentarei não esquecer de levar isso em conta em uma próxima vez.

      Sim, nessa espécie de “diálogo” que faço no blog com o Fernando eu sou mais o “Lippy” e ele o “Hardy” (desenho dos anos 70…) Eu sou estruturalmente otimista (acredito que a humanidade caminha para a evolução então é razoável esperar que na média as pessoas hoje busquem fazer melhor que antes etc), mas evito (quando percebo) torcer. No caso julgo que os pressupostos são realistas, sim, as condições para o Brasil são boas por uns 10 a 20 anos, como foram nos anos 50/60/70, como foram para Coreia/Espanha nos anos 80/90/00

      Não quer dizer que o ciclo de facilidades não se esgotará. Irá se esgotar depois que o Pré-sal já estiver assimilado e que a população começar a declinar, mas aí é por volta de 2030. Bom, são minhas opiniões a partir de leituras, não sou pesquisador a fundo de história econômica e seus ciclos.

      No que concordo TOTALMENTE com você : a intenção de Serra / PSDB não me pareceu nunca (e escrevo isso há meses) fazer melhorias para o brasil ou mudar algo. Há pouco a mudar no momento (além da reforma tributária) e nem seriam eles os melhores… Também nem me parece uma ideologia sincera.

      Eu acho, sim, que esse grupo está muito chateado em perder a facilidade de administração agora e de colher os louros. Só fazem o discurso que for necessário para conquistar votos, por isso o discurso de Serra às vezes é direita, às vezes acusa o Lula de ser de direita. Mas Lula deixou tudo mais ou menos protegido por vários lados (ele é muito competente em estratégia)

      Veja-se o que deixou pra Dilma inaugurar/usufruir:

      Pré-sal
      Transnordestina / Ferrovia Norte-sul
      Trem bala
      Transposição do S. Francisco
      3 milhões de casas
      Aeroportos e estádios para a Copa
      PIB de 7% este ano (que reajusta o salário mínimo em jan.2012)
      Juros altos (é popular baixar)
      Câmbio valorizado. Não será popular no litoral, mas será muito popular desvalorizar para o interior. Estimo que 80% irão pagar 3% mais pelos produtos – nem vão sentir e 20% (produtores agrários)irão ganhar 12% em sua renda. Viável para aumentar a popularidade justamente onde perdeu agora
      O pacote do PNDH-3 assinado por Lula, livra Dilma do pepino da autoria. Discussão já encaminhada sobre telecomunicações.
      Sem contar o sacrifício dos governos estaduais para obter um Senado mais ajustado.

      E não sobrou nada de “maldade” para Dilma fazer?

      É coisa demais e ficou parecendo um pouco maquiavelicamente arquitetado…

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