Cobranças de quem não bebeu nessa festa

“Tem gente que continua bebendo, mesmo depois da festa já ter acabado.”

Sintam a vibe. Não sei vocês, mas eu não gosto do clima que vejo por ai. Uns ainda acham que estão em campanha (e não estou falando da parte boa, estou falando só da parte ruim). Outros acham que por uma determinação “divina” “a rentabilidade do passado é garantia de lucros no futuro” (não estou falando de economia, nem de finanças, estou falando de política). E o pior, esse cenário é do lado de quem venceu as eleições!

Sinceramente, vejo mais sobriedade no que restou da oposição do que no governo. Estilo queimada no cerrado: depois da terra arrasada, na primeira chuva começa a brotar um verde aqui e ali (Aécio, tô enchendo sua bola, vamos ver ein?). Pra não ser injusto, a única pessoa que parece estar com os pés no chão é a presidenta (daqui pra frente, presidenta sim, pra reforçar a questão do gênero). As entrevistas dela foram arrasadoras. Eu preciso dizer que eu avisei antes? Que eu disse que ela iria surpreender muita gente? Pois é, e é só o começo.

O maior exemplo: eu espero que estejam trabalhando arduamente no subterrâneos do Ministério da Fazenda pra se preparar para o pior, mas conhecendo a máquina pública e a sua incapacidade de manter segredo para a imprensa (tecnocratas que gostam de holofotes é meio um paradoxo, mas tem coisas que só o Brasil faz para você, chama-se “JabuticabaFX”) não vejo nada vazando sobre um plano, uma antecipação de um grande ajuste fiscal, um armistício entre a Fazenda e o Banco Central em torno de uma maior coordenação da política monetária, só para ficar em alguns exemplos.

Além disso, acabou a eleição. Agora é hora de cobrar o Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil (não sei por que escrevi isso, mas deu vontade) o uso dessa gordura acumulada (e que gordura) para tomar as tradicionais medidas impopulares de fim de mandato. Conhecendo o Lula como conheço, eu aposto que ele vai hesitar em muitas delas. Mas eu não tenho compromisso com ninguém, nem mesmo com ele, segue abaixo minha pequena lista de coisas que deveriam ser feitas (mas aposto que não serão):

  • Defesa – Finalizar a compra dos caças Rafale da França. Decidir o que será feito com o, reticente Exército. Se a Aeronáutica e, principalmente, a Marinha avançou no programa de modernização, o Exército, não sei por quais motivos (até suspeito, mas não vou especular) simplesmente não avança. Resolver definitivamente os problemas no VLS, e no convênio com a Ucrânia (até onde li, ainda tem vários problemas).
  • Políticas Sociais – Eu ouvi algo que parecia um murmurio sobre a institucionalização das Políticas Sociais. Talvez com uma Lei Geral, ou coisa parecida. Foi só um murmurio, por que nem nas campanhas esse assunto foi mencionado. É preciso institucionalizar, pois o projeto é de longo prazo. Melhor as necessidade são de longo prazo.
  • Reforma do Estado – Ok, sou pragmático também. Não considero inteligente trazer para o debate eleitoral o tema indigesto da necessária e urgente, reforma do Estado. É como a reforma Previdenciária, só serve para tirar votos, nunca para ganhar. Mas sinceramente, qualquer brasileiro sabe que precisamos reformar o Estado, dar agilidade, criar um plano de qualificação e captação (concursos) de longo prazo, flexibilizar a maneira como o Estado compra, criar planos de cargos e salários para todas carreiras de estado, desburocratizar e dar poder aos gestores, criar marcos rígidos de responsabilização dos agentes públicos, etc.
  • Reforma da Previdência – É mais ou menos o que disse acima. A melhoria na gestão (que os tucanos afirmavam, com a certeza divina que lhes é peculiar, teria efeito nulo no defícit) deu um folego surpreendente. No momento é superavitária (excetuando os gastos com a LOAS e aposentadoria rural). Palmas para essa galera. Mas é preciso pensar nesses gastos no futuro e aproveitar a janela demográfica é preciso. Sou bom para convencer as pessoas sobre isso: olhem para a França.
  • Transparência – Avanços foram feitos. O Governo Federal falhou vergonhosamente na comunicação (propaganda) disso para a sociedade. É preciso impor isso aos Estados e Municipios. É preciso impor aos demais poderes (Legislativo e Judiciario). A forcéps se necessário for. Não é preciso repetir que é mandatório abrir os arquivos “secretos”, liberar os arquivos militares da época da ditadura. Faça o certo, o bem vence o mal. Ponto. Está passando da hora do Brasil ter uma FOIA (legislação americana que obriga o Estado a fornecer dados ao cidadão quando é requisitado).
  • Ajuste Fiscal – Não é uma questão de opção. Um ajuste fiscal é necessário. Lula é quem deve fazê-lo. Deve ser feito ANTES de uma crise internacional. Antecipar é preciso. Não faça um ajuste à la Malan (linear), faça um ajuste escalonado, sem afetar programas e ações crititcas ou que estajam prestes a serem finalizadas. Não cortem investimentos e programas sociais. O resto, facão. O cenário externo não parece nada animador, mas pode ser só os meus olhos, quem sabe.
  • Regulação da Mídia – Não é criar conselhos sociais (mais uma idéia estúpida que o PT não consegue abandonar). É criar um marco regulatório que permita novos entrantes. Que permita o direito de resposta. Que permita investimentos e o nascimento de uma (nova) industria de comunicação forte (não existe País soberano sem uma perna de comunicação forte). Fortalecer e estabelecer limites e principios à necessária parte governamental de comunicação. Limitar os gastos em comunicação e publicidade para todos os entes federativos e poderes. Não pode ser discricionário. Aprender com os erros dos outros é a maior virtude de pessoas inteligentes.
  • Supremo – A última indicação para o STF do Lula (para mim, é a mais importante função de um Presidente) deveria ser um progressista. Chega de indicar conservadores (Lula é um conservador nesses assuntos, não duvidem disso). Precisamos de um progressista simplesmente por que o Legislativo (em todos os níveis) está inerte e por vezes paralisado (mas ainda aprova duas ECs (Emendas Constitucionais) por ano, só não aprova as ECs que precisamos). O STF é o único que pode colocar pressão no Legislativo. A sociedade deveria fazer uma enxurrada de ADINs por Omissão e comprar um ingresso para assistir a briga de foice no escuro que vai virar Legislativo vs Judiciário. Sangrento? Claro, mas não é só assim que esses caras se movem?
  • Reformas Microeconômicas – Podem chamar o Palocci de Malocci para os seus incautos leitores, mas foi só na mão dele que reformas microeconômicas se moveram. Construção Civil bombando? Ninguém mais se lembra das mudança no patrimônio de afetação, etc. Aonde foi para o Marcos Lisboa mesmo? É preciso avançar no que é possível sem a intervenção do Legislativo. Usar o poder das MPs para se sobrepor a inanição do Legislativo (até por que todo mundo aí está ciente que isso vai acabar né? Não? Putz, é pior do que eu pensava.). Estabelecer limites claros e impor transparência ao BNDES (estilo FriBoi), parar de usar o BB para fazer os ruralistas ajoelharem no milho (cadê o seguro agrícola?), etc. Existe um universo de possibilidades que eles sequer tentaram. Não dá pra prever as respostas da economia brasileira a pequenos estímulos, o que sabemos é que na maioria das vezes mudança pequenas causam impactos inacreditáveis e que essa é a maior virtude dessa nação. “Efeito Borboleta”, “Construa que eles virão”, é o que sempre digo.
  • Inovação, Inovação. Só mais uma vez, digam comigo: Inovação! – A solução do câmbio, das contas externas e de muitos outros problemas macro, pelo menos no longo-prazo, está na inovação. É inacreditável que esses estúpidos não entenderam isso até hoje. Acham que inovação é um acessório. Não é! É o “core” das políticas públicas. O MCT avançou muito na mão do PSB. Ótimo, mas se com poucos recursos os caras avançaram tanto, por que não despejam mais recursos? Deem a grana para quem faz bom uso dela. Essa é a regra de ouro. Eu sempre quis o Ciro (o único que fala de inovação desde o princípio) no Ministério da Inovação (que só existe na minha cabeça). Dizem que ele vai para o BNDES. Humm…, no começo achei uma ideia ruim, mas se ele criar condicionantes tecnológicas aos empréstimos…pode ser uma boa.

Enfim existe um universo de possibilidades, uma lista infinita de “toDo” no meu Google Tarefas, uma parede cheia de “post-it”, então pau na máquina. Parem de comemorar o passado, convençam o T-Rex a usar a gordura dessa pança pra mandar a parte difícil já para o Congresso. Começar a fazer as maldades, assim os 100 primeiros dias de governo virarão 160 sem a (patética) mídia saber.

Hit the ground running (via Hermê…). Enfim, olhem pro Obama, aprovou tudo que tinha na listinha dele, reforma da saúde, reforma do sistema financeiro, está saindo fora do Iraque, e apesar de ainda estar atolado no Afeganistão e a timidez do pacote para recuperar a economia ter sido um erro fatal, o cara tá apanhando como criança birrenta dos conservadores. É a economia, estúpido (reloaded)?  Os caras não perdoam. Existe deja-vu pro futuro? Dilma, 2014.

Governar como se todo dia de manhã tivesse ocorrido uma hecatombe econômica-financeira. Só assim a máquina anda. Dilma sabe bem disso, mas e o resto?

6 comentários sobre “Cobranças de quem não bebeu nessa festa

  1. Oi Fernando, daqui a pouco posto algo sobre porque penso que por duas décadas mais ou menos prevalescerá o discurso estatista no mundo. Mas nada que choque com o que vc, muito bem diga-se, escreveu. Gestão é um problema.

    Você se refere à CSL (Consolidação das Leis Sociais), aventada em setembro de 2009 que, de repente, sumiu do mapa.

  2. Queria também uma transparência para com os sonegadores! Quem são os maiores devedores da Previdência e do FGTS? Quem mais deve ao Imposto de Renda?
    A mídia só desce o pau nos corruptos! Sonegar é um mal tão deletério quanto!
    Por uma lista de devedores transparente!

  3. Se o governo Dilma não for muito bom adeus 2014 e 2018.
    Eu espero muito mais do que foi falado.
    Acho que se temos que antecipar alguma coisa é a revisão da dívida e muito crédito privado. Façamos bom uso então desses dólares, compremos mais e ajudemos a acabar com essa crise e por isso concordo quando se trata de inovação; o potencial industrial do Brasil é gigantesco devido a nossas riquezas que só podem ser manufaturadas lá fora e não tem nada que agrega mais valor do que tecnologia.
    Deixem eles ficarem brigando lá fora e quando perceberem que já estão crescendo o Brasil vai ter crescido 20 anos em 4 anos.
    Para isso é preciso investimento pungente na educação de base, técnica e universitária.
    O STF que tem que sofrer pressão das instâncias menores e não o contrário. Fico pasmo com a falta de atuação dos juizes e os chupetões do MP; os caras com esse baita poder na mão se acham tanto que pra eles tá bom fazer só isso da vida e participar da associação de bairro.
    O STF tinha que ser jurídico e não político, ele haje discricionariamente e descaradamente distorcendo todos os mais nobres preceitos sociais (latu-sensu é claro, o que é mais grave) em suas justificações absurdas prolatadas em documentos históricos chamados sentenças, provas irrefutáveis da submissão do colegiado, quaisquer que sejam seus indicados à meia duzia de outros quaisquer; em detrimentos é claro, como não poderia deixar de ser mencionado, a 200 milhões de brasileiros.
    Se olharmos isso atentamente sob uma perspectiva histórica, como se isso tivesse ocorrido em 1960, perceberemos o quão submissos estamos.
    Vamos ver nesse governo quem é quem, posto que é óbvio o alinhamento compulsório dos 3(três) poderes aos grupos e setores econômicos mais relevantes e/ou de maior vulto, mais claro que isso só se virar tema de redação do ENEM! Isso desde a última constituinte que não tinha, como hoje, representação de setores menos favorecidos socialmente no congresso.
    Vamos continuar alinhados a essa ordem que tenta de qualquer maneira corromper os princípios fundamentais restringindo todos os mais nobres direitos universais para camuflar a discrepância financeira desse escravismo contemporizado; ou vamos ver trabalho realmente no sentido dos direitos individuais e evolução social.
    Isso pra mim é o mais importante.

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