Regionalização & preconceitos políticos

Dilma foi tão bem quanto Lula nos estados “tucanos” e perceptivelmente pior nos estados “lulistas”. Pelas pesquisas também teve desempenho equivalente nas faixas mais elevadas de escolaridade (nível superior) e renda (a partir de 5 s.m.), mas 6 pp. abaixo nas demais. Paradoxo?

Como a vitória de Dilma foi expressiva o suficiente, apenas 5 pp menor que a de Lula em 2006 (56% vs 61%), e mais ou menos nos mesmos estados (dos maiores colégios eleitorais apenas em GO e ES houve alterações de posição) algumas coisas podem estar sendo, agora, vistas superficialmente.

Nos estados da “Tucanolândia” (Sul, SP, Centro-Oeste) os resultados de Dilma vs Serra, em votos válidos, foram extremamente parecidos com os de Lula vs Alckmin:

Sul : Lula = 46,5% > Dilma = 46,1% (redução para o PT de 0,4 pp)

SP : Lula = 47,7% > Dilma = 45,9% (redução de 1,8 pp)

MS+MT : Lula = 47,6% > Dilma = 47,1% (redução de 0,5 pp)

Sendo que um crescimento no RS de 4,5pp (onde Dilma fez carreira) serviu de compensação para SP (onde Serra esperava uma vitória ainda maior por seu estado-base.)

O que temos, então, no conjunto desses 6 estados, em grande parte de classe média e agroexportadores, portanto os mais prejudicados pela valorização cambial (que favorece os consumidores de baixa renda) e relativamente (além de RJ, ES e DF) dos menos afeitos a programas sociais, e que representam 40% do eleitorado total e 55% do PIB?

São os 6 estados (além de RR) onde Lula teve menos que 50% dos votos em 2006. Nestes, Lula obteve 47,2% em 2006 e Dilma 46,1% agora. Não parece uma mudança relevante, apenas reflexo de que o governo do PT não conseguiu, em 2010 como já não havia logrado em 2006, transmitir claramente à sociedade a importância do ideário mais social-democrata e redistributivo (entre classes e também entre regiões.) Mas nacionalismo, escândalos e estatismo não levaram a perdas eleitorais adicionais. Se algo houve, o bom desempenho na condução da economia compensou.

Em 2010 houve grande disseminação de factóides/denúncias pela mídia nesses estados, são também aqueles onde a popularidade do Lula é um pouco menor (em torno de 70%.) Especialmente em SP há um baixo percentual de pessoas dependendo de programas sociais e, por este estado ter o dobro da renda per capita do restante do país, é o que recebe inversamente bem menos em fundo de participação de estados e municípios.

Não teria sido de esperar, então, dado o “massacre da mídia”, um crescimento relativo do PSDB nessa região? O qual, como vimos, praticamente não houve nos votos para presidente? E, dos 12 senadores possíveis, apenas 2 foram do PSDB e mais 3 (1 do PP e 2 do PMDB) podem vir a não ser oposição…

O fato é que comentaristas em blogs costumam demonstrar desapontamento com o comportamento político do Centro-sul e certa apreensão com a mídia impressa. É muito comentado (e criticado) o comportamento conservador e classista do eleitor do Centro-sul, mas, não estará isso sendo exagerado? Pois nesta eleição tal eleitorado se demonstrou apenas como relativamente coerente, não tão influenciável pela mídia e, por último, não há sinais expressos de maior apoio ao discurso neoliberal (o que se viu pelas eleições para o legislativo) nem de acirramento do preconceito anti-PT, apesar das oportunidades para isso e do que se viu na internet.

A troca de nomes, do expressivo Lula para a novata Dilma, do especificamente paulista Alckmin para o “super-currículo” Serra, pareceu menos relevante, ao final, do que o conjunto de apoios e ideários que estes representavam, e que se mantiveram semelhantes ao que já eram, inclusive pela falta de inovação.

Os problemas regionais e os preconceitos de classe são os mesmos desde então, portanto os resultados eleitorais dos conteúdos programáticos foram mais ou menos os mesmos. A oposição não cresceu, antes perdeu deputados e trocou-se o governo de RS pelo de PR. Assim, será que não estamos dando importância demais aos nomes, mesmo que sejam sem dúvida também importantes?

Podemos desconfiar do seguinte : se houvesse um maior empenho de Dilma em questões importantes para o Centro-sul, como algum aceno em relação a câmbio e maior ênfase na reforma tributária e apoio a micro e pequenas empresas, talvez ela tivesse ganho em alguns de seus estados. Trata-se de desejos contidos de mudança que não foram aprofundados pelos candidatos.

O oposto, no entanto e também um pouco inesperadamente e afetando cerca de 10% dos eleitores, se verifica na “Lulândia”. Atribui-se, corretamente, a vitória de Dilma ao ótimo desempenho no Norte, Nordeste, MG, todos estados onde Lula alcança elevados índices de popularidade, onde o consumo das classes menos favorecidas cresceu a taxas “chinesas” e  onde o bolsa-família tem um papel maior. RJ é uma exceção que confirma a regra. De fato houve coerência no geral, a maioria da população votou por um programa onde a presença do Estado – e seu papel desenvolvimentista – é mais garantida (e necessária.) A popularidade do governo é maior, beirando os 90%, então seu sucedâneo (Dilma) obteve de 60 a 80% dos votos. Mas esperava-se mais…

Ao contrário do Centro-sul, houve um substancial decréscimo do desempenho nessas regiões:

Nordeste : Lula (2006) = 77,2% > Dilma = 70,6% (redução para o PT de 6,6 pp)

Norte : Lula = 65,5% > Dilma = 57,4% (redução de 8,1 pp)

RJ+MG+ES : Lula = 67,0% > Dilma = 58,4% (redução de 8,6 pp)

Em quase todos os estados envolvidos Lula obteve vitórias tanto em 2002 e 2006. O mesmo vale para Dilma. Mas quase toda a queda de 5 pp no placar final nacional das eleições deu-se nesse agrupamento, com 60% do eleitorado. Os patamares obtidos são ainda altos, é certo, mas houve uma queda de Lula para Dilma onde, de acordo com os nossos preconceitos políticos não deveria haver.

Desses estados apenas RJ e ES possuem renda média mais elevada, sendo que em todos a importância da participação do governo federal em pensões, oferta de empregos e de investimentos é relativamente mais expressiva que no grupo anterior.

Teria que haver uma explicação para o desempenho relativamente melhor de Serra nos estados mais pobres, mais interessados no que se fará no futuro com o pré-sal e onde o PSDB/DEM não reelegeram muitos de seus senadores famosos . Está sendo subestimado na maioria das análises, mas Serra teve um desempenho de 20 a 30% superior ao de Alckmin nesses estados!

Caberia pensar sobre o que levou a isso. Possibilidades podem ser : uma maior expectativa depositada no “promessômetro”, alguma vulnerabilidade a preconceitos ou boatos disseminados pelas igrejas ou internet, uma importância atribuída mais a currículos (ou personagens) “conhecidos” que a programas de governo ou ainda uma maior penetração relativa da televisão como formadora de opinião.

Isso teria que ser melhor destrinchado, tendo em vista que eleições sempre haverá. A polarização regional do Brasil em eleições presidenciais diminuiu um pouco, isso é bom. Mas talvez tenha sido pelas razões erradas. Nem o discurso tucano penetra nos estados mais ricos como pretendia, nem o lulismo é tão sólido como uma rocha.

Já há uma impressionante movimentação em torno de 2014, o que chama a atenção por tamanha antecedência. Então é para estudar se, em um país com dimensões continentais e ainda com tantas disparidades regionais (particularmente com setores dinâmicos da economia bem diferenciados), se não caberia às forças políticas regionalizarem um pouco mais – e com isso também aprimorarem – seus discursos e propostas.

3 comentários sobre “Regionalização & preconceitos políticos

  1. Oi Gunter! Antes de mais nada, parabéns para nós pela vitória. Esse espaço foi fundamental para dissiminar DADOS e essa é a diferença da blogosfera, a opção preferencial é pela correção, pela verdade.

    Essa foi uma eleição atípica. Primeiro por ter uma protagonista novata em processos de votação, segundo, pela conjugação irracional do discurso do medo e religioso. Ainda serão necessários anos para desfazer o estrago causado pela campanha serrista.

    São prá mim, esses dois componentes que causaram um decréscimo de 5 pp em relação à votação de Lula e que é, ainda assim, superior ao obtido por FHC e Collor.

  2. Gunter,

    Como viste tirei um grande período de descanso. Estou lendo seus posts agora.

    Apesar dos dados que estamos analisando gradativamente ainda terem que ser “sedimentados” (é muita coisa) acredito que ambas forças políticas terão que fazer um análise mais profunda.

    Acho que essas diferenças regionais, tb sofrem por causa do nosso federalismo capenga, que borra as definições das atribuições da função de cada ente. Cada dia que passa eu começo mais a acreditar que a União deveria repassar aos entes tudo o que não for da sua função “fim” (eg.: estradas). O pró é repassar os recursos tb.

    Mas, apesar de achar um exagero se falar em “um novo pacto federativo” uma modernização nele, tiraria essa ideia que tivemos em certos momentos que a disputa presidencial parecia uma disputa para a prefeitura ou pra um estado.

    Os desafios que vamos enfrentar serão gigantescos, então é hora de cada um focar naquilo que é a sua função.

    Então será que os partidos, ao disputar deveriam regionalizar as suas demandas, ou as demandas para uma campanha presidencial não deveriam ser “tão” regionalizadas?

    Abçs,

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