A opinião da classe média e a opinião política da mídia

O que mais tenho curiosidade é quanto à percepção do momento político pelas classes médias, vagamente definindo-se como “C”/”B” aqueles com renda acima de 5 s.m. e escolaridade de nível superior (e há grande correspondência entre estes dois recortes.)

Vejamos seus possíveis números:

– Institutos de pesquisa fazem de 8 a 14% de suas entrevistas eleitorais nesses segmentos;

– As vendas de jornais são de 9 milhões de exemplares diários;

– As assinaturas de TV a cabo abarcam 7 milhões de famílias.

Então falamos de 10 a 20 milhões de pessoas dentre um universo de 136 milhões de eleitores. É pouco, portanto, mas parece que são tais pessoas as mais interessadas em discutir, em participar em blogs, em expor suas opiniões ou tentar influenciar as de outrem. (A rápida expansão da internet, muito além das mídias tradicionais, poderá, é claro, incorporar ao debate político um grupo bem mais amplo de pessoas, mas esse movimento não pode ser tido como certo.)

Vira-e-mexe revistas semanais fazem aquelas análises sociológico-marqueteiras dividindo as pessoas em grupos arquetípicos. Aquilo de “antenados”, “darks”, “patricinhas”, “ecochatos”, “geração saúde”, “yuppies”, etc.

Mas não costumam, por razões óbvias, dividir seu público no que se refere à própria credibilidade do noticiário político.

Podemos exercitar quais seriam os grupos em questão?

A)     Aqueles que percebem que a análise política da grande mídia é viesada e partidária, até mesmo com interesses econômicos envolvidos, e tomam posição em função de um espectro maior de informação e debate (blogs, meio acadêmico, sindicatos, mídia alternativa);

B)      Os que, por acreditar em valores sócio-econômicos mais liberais, notam a grande mídia como representante legítima – e canal de expressão – de seu pensamento;

C)      Os que acreditam que a grande mídia é imparcial ou realmente preocupada em informar e debater o país ou, pelo menos, que as principais idéias e informações já estariam todas expostas;

D)     Aqueles que não acompanham temas sócio-políticos pela mídia e tampouco por outros canais. Usam a mídia para informações sobre lazer, compras, etc.

Como brincadeira alguns nomes podem ser atribuídos aos grupos : “progressistas” (com tendência, talvez, a um pensamento mais social-democrata ou de centro-esquerda); “conservadores” (atribuem pontos negativos ao Estado em modo geral e usam a imprensa como argumentação para um ideário mais neoliberal e/ou classista); “centristas” (pensam na imprensa como fonte de informação e de material para reflexão); “alienados”.

Quando se fala nos caminhos da (velha) mídia, frequentemente se diz que esta estaria em crise, que precisa se renovar, que é necessária maior regulamentação, etc. Mas a crítica geralmente se refere a análises sócio-políticas. As matérias econômicas são apenas parcialmente discutíveis e o noticiário sobre cotidiano, comportamento e ciência raramente é questionado.  Então há duas crises distintas : uma, mais concreta, do modelo de negócio como um todo, em que a velha mídia convive e compete com outros veículos, como a internet.

E uma crise de credibilidade em razão de sua parcialidade política. Contudo, esta não deve ser superestimada, pois deveríamos antes buscar conhecer como se distribuem seus consumidores quanto a esse aspecto. Supondo como factível a divisão sugerida acima, nos grupos A, B e D não há problema algum : ou já não se acredita, ou se concorda ou se é indiferente, e isto já deve estar consolidado há tempos. O ponto de dúvida seria o grupo C, isto é, qual será a reação das pessoas que confiam na imprensa se por acaso vierem a se perceber como manipuladas?

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