A classe média é mesmo ingrata?

“Não falta no programa da Dilma uma grande proposta para a classe média, como a que o Obama fez?”

Numa não-discussão com um colega por e-mail ele afirmou que nem ele, nem sua família (classe média alta) sentiram na pele os tão propalado sucesso econômico do governo Lula. Essa afirmação, ao contrário do que tem ocorrido com os demais argumentos, esse plantou uma dúvida na minha cabeça: será que a classe média é ingrata ou ela não participou ativamente da festa? Seria essa a razão do insucesso no primeiro turno?

Quando mergulhamos de cabeça no embate político cometemos o erro de ignorar as dúvidas que vão surgindo no processo. Por outro lado, assumimos como verdades absolutas os dados que saem das pesquisas de opinião. Quem conhece minimamente de estatística, e tem compromisso com a verdade, sabe que esse pode ser um erro fatal. A verdade é que as estatísticas dizem que o governo Lula é bem avaliado na classe média, mas coloca no mesmo balaio, aqueles que subiram recentemente para esse estamento, e aqueles que por sua consciência social dão um voto favorável às iniciativas deste governo, mesmo tendo pouco para comemorar.

Podemos citar uma dezena de exemplos de como a classe média foi, mais uma vez – comemos o pão que o diabo amassou na era FHC –  escanteada nas suas demandas. Basta observar o descaso com a melhoria da qualidade do serviço público e na regulação das empresas privatizadas. Oras, ao argumentar com outro colega que isso foi fruto da promiscuidade das privatizações e que as agências foram, deliberadamente, fragilizadas a fim de permitir que os “investidores” pudessem recuperar seus recursos mais rapidamente, ele contra-argumentou, sabiamente, que o governo Lula teve oito anos pra resolver isso e não resolveu. É verdade.

Podemos vasculhar por mais exemplos de como, na verdade, mais uma vez, o PT sofre na mão da classe média por culpa do seu preconceito e sua incapacidade de atacar as classes mais altas (o exemplo do Plínio em que diz que um empréstimo para o Eike vale um Bolsa-Família inteiro é uma demonstração disso. Outro é como o governo Lula mudou pouco no processo de transferência de recursos para a velha mídia). Para falar a verdade – eu sou classe média também, como a maioria a minha volta – eu mesmo tenho muito pouco que agradecer ao governo Lula por políticas específicas para mim e para minha família. Voto na Dilma, principalmente, por que sei que esse projeto beneficiou os mais pobres.

Mas isso, de modo algum, serve de argumento para convencer aqueles que não a apoiam por essa razão a fazê-lo. Uma grande parte ainda vota na Dilma e outra no Serra. Mas não seria esse contingente de insatisfeitos que alimentaram a tão propalada “onda verde”? Se for verdade, não seria o caso da Dilma fazer uma grande proposta, arrojada, para essa classe? Algo relacionado a empreendedorismo e a redução de impostos para as faixas mais baixas do imposto de renda? Uma proposta de impacto ao invés de ficar só se defendendo de mentiras?

PS.: Espero sinceramente que a campanha da Dilma leia esse post antes da campanha do Serra.

7 comentários sobre “A classe média é mesmo ingrata?

  1. Pensei muito sobre esse assunto nos últimos tempos.
    A rejeição na classe média é alta, ao menos é o que se vê nos muitos fóruns que participo por ai.
    A impressão é que não foi feito nada, para benefício dessa parte da população. E que o sucesso em progredir, mesmo que pouco, foi por próprio esforço independente de qualquer ação do governo para isso.
    São impostos altos, taxa de juros extorsivas, imóveis cada vez mais caros e com difícil acesso para compra(é mais fácil, financiar um carro que um imóvel), escolas caras, turismo mais ainda, violência, cheque especial, entre muitas outras coisas que atingem diretamente a classe média.
    Essa acho, é a cara dos 20% de votos verdes que agora irão decidir essa eleição!

    Medo!!

    1. Exatamente isso, os juros são altos por causa do spread, a gente compra carro, mas só financiado, a casa propria é mais cara devido a regras da CEF que priorizam as menores faixas de renda e o pior não existe forma de negociar um alivio no IR.

      Esse é o cerne da “ingratidao” da classe média. Na verdade a maioria que vota pro Dilma, o faz por consciência social.

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