Luis Nassif :: Não habemus papa, deo gratias [08/10/1997]


“Herege sim, mas esteve no Vaticano. O que nos redime, é que ela não é a primeira, nem a última vítima dos fundamentalistas religiosos.”

Folha de S.Paulo – Luís Nassif: Não habemus papa, deo gratias – 08/10/97

LUÍS NASSIF
Não habemus papa, deo gratias

Raras vezes a posição imperial da Igreja Católica se manifestou tão claramente como no momento em que, fortalecido pela presença do papa no país, dom Lucas Moreira Neves, cardeal primaz do Brasil, exigiu a retificação das declarações dadas pela cidadã Ruth Cardoso, em defesa do aborto.

Dom Lucas não tem divisões de exército. É improvável até que tenha cacife eleitoral. Mas permanece autêntico representante de tempos imemoriais, quando as famílias tradicionais distribuíam seus filhos entre a igreja, o Exército, a diplomacia e a política -e as decisões do país se resolviam nas casas de uma elite responsável por uma das sociedades mais injustas deste século.

É primo do ex-presidente Tancredo Neves e de uma penca de generais e diplomatas que marcaram a história do país. Não é dotado, como o cardeal Arns, de impulsos quase ingênuos de generosidade. Nem sequer usa a generosidade como instrumento de intervenção política.

Como nenhum outro religioso brasileiro, dom Lucas encarna à perfeição o papel de príncipe da igreja. Tem a alma dura, as feições duras, as atitudes duras dos grandes comandantes, dos especialistas em palácios. Ele só se compraz com o exercício pleno da diplomacia religiosa, de quem quer o que é Deus, e o que é de César.

No episódio do chute na santa, perpetrado por um bispo irresponsável da Igreja Universal, coube a ele alimentar o paroxismo inquisitorial que quase explode em guerra religiosa. Quem impediu foi a solidariedade intuitiva e generosa do cardeal Arns.

Na Bahia, sua primeira atitude foi agir contra o sincretismo religioso. Deve ser de sua inspiração a ofensiva da igreja para tentar impor novamente o ensino religioso nas escolas.
Moral e política

Em sua posição -dele e do papa- contra o aborto, não se pense em princípios morais, posturas de consciência e outras condicionantes individuais que norteiam as ações dos homens comuns. Assim como a guerra é extensão da diplomacia, para a igreja e seus príncipes as regras morais são parte integrante do exercício do poder. Não fosse assim, tratariam de condenar a indústria de armamentos -como bem lembrou frei Betto.

A igreja não possui divisões armadas, nem território, nem capacidade fiscal. Sua atividade política e diplomática foi se esboroando à medida que o mundo se tornava mais complexo e o habitat natural da igreja -as famílias- passou a ser bombardeado por influências muito mais orgânicas, da democracia e da moderna sociedade da comunicação.

A conquista da cidadania, em todos os níveis, amplia de maneira irreversível o conceito do livre arbítrio, das decisões individuais, acabando com todas as formas de autoritarismo -da ditadura política à ditadura dos “especialistas”.

As emanações de ordem hierárquicas perdem sentido; mais ainda, as dogmáticas. Qualquer organização precisa conquistar corações e mentes de pessoas livres, para poder exercitar seu poder.
Centralização

A igreja se comprometeu basicamente por sua posição centralizadora, da grande organização que perdeu a sensibilidade nas pontas que atuam diretamente perante o seu consumidor.

O resultado é o abuso das posições morais primárias, como instrumento de dominação sobre um rebanho cada vez mais disperso -desde a inacreditável posição contrária aos preservativos, até a condenação do aborto.

É processo que atinge indistintamente “conservadores”, como dom Lucas, e “revolucionários”, como os padres ativistas de periferia. Na recente “marcha dos oprimidos” em Aparecida, empenhado em preservar seu espaço político junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, um bispo auxiliar do cardeal Arns chegou a relacionar a repressão ao MST, o Proer, a morte do índio pataxó e o aborto na relação dos grandes crimes do neoliberalismo e da globalização. Deixou de fora apenas a torcida do Flamengo.

Consequência: em um momento em que a espiritualidade passa a ser uma das tendências dominantes da humanidade, a Igreja Católica perde cada vez mais espaço. Junto aos mais simples, é comida pela borda pelos evangélicos; junto aos mais sofisticados, por religiões que preservam a individualidade das pessoas. Na base, conserva espaço apenas junto a grupos toscamente politizados; no topo, junto a velhas famílias, muitas de extrato agrário, que compuseram o pacto conservador brasileiro deste século.

Ao ameaçar dona Ruth Cardoso, por sua posição pró-aborto, dom Lucas pensava estar enfrentando César. Não estava. Dona Ruth falava em nome de uma entidade muito mais permanente e poderosa que a Presidência: uma opinião pública esclarecida de quem se pode discordar, jamais impor posições. Nem com ameaças de excomunhão nem de fogueiras inquisitoriais.

E-mail: lnassif@uol.com.br

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Serra desrespeita o legado de Ruth Cardoso


 

 

“Serra sapateia no legado de uma grande feminista.”

Se ninguém segurar o Serra, ele vai pulverizar o pouco de social-democracia que resta no PsdB (sd – minúsculo, pq se esvai a cada dia) É como eu tento explicar – inutilmente – para esses fundamentalistas, a posição da Dilma não difere em nada da posição do Lula, do FHC e, principalmente, da Dona Ruth Cardoso. A posição institucional do PT não difere da posição institucional do PSDB e do PV. 

Não é uma questão de ser a favor ou contra. É uma questão de decidir se deve-se prender mulheres, que num momento de desespero optam por essa prática. É uma questão de decidir se é uma questão policial ou uma questão de saúde pública.

Simples né? Não para os fundamentalistas religiosos. Por isso é tão importante preservar o Estado Laico. A separação Igreja-Estado.


Folha de S.Paulo – Bispos acusam Ruth Cardoso de demagogia e agressão ao papa – 03/10/97

São Paulo, sexta, 3 de outubro de 1997.

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NO BRASIL

Alto clero condena apoio da primeira-dama ao projeto que regulamenta aborto legal
Bispos acusam Ruth Cardoso de demagogia e agressão ao papa

LUIS HENRIQUE AMARAL
enviado especial ao Rio

A declaração da primeira-dama Ruth Cardoso a favor da aprovação da lei que regulamenta o aborto legal foi classificada de “agressão ao papa”, “oportunista” e “demagógica” por bispos que participam do Congresso Teológico Pastoral, que acontece no Rio paralelamente à visita do papa.

Ao tomar conhecimento das declarações de Ruth, o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), d. Lucas Moreira Neves, foi seco: “Haverá uma resposta, mas não agora”.

Anteontem, Ruth afirmou, após cerimônia no Rio, que a proposta de regulamentação da lei do aborto é “um direito garantido que está sendo estendido às mulheres com menos recursos, porque elas não são atendidas no serviço público, quando deveriam ser“.

Ruth Cardoso disse ainda que a visita do papa ao Brasil não terá interferência na votação da lei.

A lei que tramita no Congresso regulamenta o aborto para mulheres que estejam em risco de vida em razão da gravidez ou que tenham sido estupradas.

Ombros

O presidente do Pontifício Conselho para a Família, o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, evitou comentários. Questionado sobre as declarações, deu de ombros, virou as costas e encerrou a entrevista. Seu cargo equivale ao de “ministro” do papa.

O fato de o Vaticano e a CNBB não terem se pronunciado oficialmente não evitou críticas de bispos reunidos no congresso teológico.

“Para mim, o pronunciamento dela também é zero”, disse d. Albano Cavallin, arcebispo de Londrina (PR). Ele se referia à afirmação de Ruth Cardoso de que a “relação entre o Congresso Nacional e o papa é zero”.

O arcebispo “convidou” a primeira-dama para discutir o assunto “com as forças que lutam pela vida…: juristas, médicos, educadores e mulheres normais”.

O bispo de Jundiaí (SP), d. Amaury Castanho, também foi duro: “No mínimo, foi uma indelicadeza da dona Ruth. Estranho que ela tenha feito isso depois que o Santo Padre aceitou conceder audiência a ela, o presidente, seus filhos e netos”, afirmou.

Para o bispo de São Miguel (zona leste de São Paulo), d. Fernando Legal, as declarações de Ruth Cardoso foram “oportunistas e demagógicas”. “Ela quis aproveitar a visita do papa para reforçar sua posição a favor do aborto”, disse.

O arcebispo de Palmas (TO), d. Alberto Tavera, disse que “lamenta profundamente” as palavras da primeira-dama. “Mesmo que esse projeto seja aprovado, continuará a ser imoral.”

Mais incisivo, o arcebispo de Diamantina (MG), d. Paulo Lopes de Faria, disse que a declaração da primeira-dama “fere a sensibilidade do povo brasileiro”.

O arcebispo considerou as palavras da primeira-dama uma “interferência indébita”. “Ela não tem referendo popular por ser esposa do presidente. Com que autoridade ela faz essa agressão?”, questionou.

D. Paulo Lopes acredita que a declaração de Ruth Cardoso pode prejudicar a relação da igreja com o governo. “Será que isso contribui para o trabalho do Comunidade Solidária? Pelo contrário, eu acho que prejudica. Agora, nós da igreja vamos olhar esse trabalho com outros olhos”, afirmou.

O arcebispo se referia ao programa do governo para a área social presidido pela primeira-dama.

Folha de S.Paulo – Divórcio e aborto constrangem encontro com família de FHC – 03/10/97
 

Divórcio e aborto constrangem encontro com família de FHC

 

WILLIAM FRANÇA
enviado especial ao Rio

ELVIRA LOBATO
da Sucursal do Rio

A nora do presidente Fernando Henrique Cardoso, Ana Lúcia Magalhães Pinto, não estará hoje na audiência reservada à família do presidente com o papa, às 10h30, no Palácio das Laranjeiras.
Ana Lúcia está separada há cerca de um mês de Paulo Henrique Cardoso e era divorciada do psicanalista Eduardo Mascarenhas (que morreu neste ano).
Ela tem duas filhas do primeiro casamento e outras duas, gêmeas, com o filho do presidente. As gêmeas, Joana e Helena, 11, estarão acompanhando o pai no encontro.
Como a Igreja Católica não aceita o divórcio, Ana Lúcia pode frequentar a igreja, mas é impedida de receber os sacramentos.
Logo no primeiro momento do encontro, o papa terá como interlocutora a primeira-dama Ruth Cardoso, que defendeu a aprovação pelo Congresso do projeto que regulamenta o aborto legal.
O aborto é um dos temas de que tratará o papa em sua visita ao Rio. Ele vai condenar a sua prática, bem como a do divórcio.
Logo em seguida, FHC apresentará o papa a 34 convidados. Entre eles estarão dois divorciados ilustres: o ex-presidente Itamar Franco e o governador Marcello Alencar, casado pela segunda vez.
O encontro exclusivo com a família presidencial terá duração de 20 minutos. No segundo momento do encontro, também de 20 minutos, Fernando Henrique e João Paulo 2º ficarão a sós, numa conversa livre sobre temas sociais. Na terceira etapa, FHC e o papa receberão políticos e religiosos.

Serra, o melhor deputado da Constituinte: Reprovado


“Aqui não tem photoshop. Direto dos arquivos do DIAP.”

Dr. Rosinha – deputado federal – PT Paraná » Na TV, Serra se diz ‘o melhor deputado da Constituinte de 1988. A verdade: Serra votou contra os trabalhadores e por isso foi reprovado pelo Diap, com nota 3,75

Na TV, Serra se diz ‘o melhor deputado da Constituinte de 1988. A verdade: Serra votou contra os trabalhadores e por isso foi reprovado pelo Diap, com nota 3,75

No primeiro programa de TV do segundo turno, exibido nesta sexta-feira (8), o candidato José Serra (PSDB) se declara, entre outras coisas, “o melhor deputado da Constituinte de 1988”. Você acreditou?

Aos fatos. Conforme análise do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), entidade que há três décadas analisa o Congresso Nacional, José Serra votou contra os trabalhadores em uma série de discussões importantes ao longo da Constituinte de 88.

Numa escala de zero a 10, o então deputado federal José Serra tirou uma nota de apenas 3,75 em termos de defesas dos interesses nacionais e dos trabalhadores. Lula, por outro lado, tirou nota máxima.

Alguns dos motivos para José Serra ter sido reprovado pelos trabalhadores na Constituinte de 1988:

– Serra votou contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas;

– Serra votou contra mais garantias ao trabalhador de estabilidade no emprego;

– Serra negou seu voto pelo direito de greve (isso explica o forma ditatorial e violenta com que ele trata o funcionalismo quando recorre à greve);

– Serra negou seu voto pelo abono de férias de 1/3 do salário;

– Serra negou seu voto pelo aviso prévio proporcional;

– Serra negou seu voto pela estabilidade do dirigente sindical;

– Serra negou seu voto para garantir 30 dias de aviso prévio;

– Serra negou seu voto pela garantia do salário mínimo real;

– Serra votou contra a implantação de Comissão de Fábrica nas indústrias;

– Serra votou contra o monopólio nacional da distribuição do petróleo;

Abaixo, a avaliação de Serra (nota 3,75) feita pela publicação “Quem foi quem na Constituinte”, do Diap:

E aqui, a avaliação de Lula (nota 10), também deputado federal na época:

Na foto abaixo, Euclides Scalco (à esq.), Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin, no plenário da Câmara dos Deputados, durante a Constituinte de 1988.

(Foto: Luciano Andrade/Folha Imagem | 23.06.1988)

PT Partido dos Trabalhadores

Programa de Serra mente ao dizer que o PT não assinou a Constituição de 88

O programa do candidato tucano à presidencia da República, José Serra, que foi ao ar nesta sexta-feira (8) mente ao dizer que o PT não assinou a Constituição de 88.
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Aborto, a omissão de FHC

Folha de S.Paulo – ABORTO, A OMISSÃO DE FHC – 26/8/1997

ABORTO, A OMISSÃO DE FHC

A atitude do presidente Fernando Henrique Cardoso e de sua mulher, Ruth Cardoso, em relação ao projeto de lei que obriga a rede pública de saúde a realizar o aborto nos casos previstos por lei tem sido, de maneira exasperante, omissa. O silêncio do presidente e da primeira-dama pode acabar por se transformar em um empecilho a mais ao avanço dos direitos sociais no Brasil.
O presidente perdeu a boa chance de vir a público desautorizar o ministro da Saúde, Carlos Albuquerque -seu subordinado-, após este ter declarado que iria propor o veto a um projeto que estende à população pobre um direito garantido pelo Código Penal há 57 anos.
Ruth Cardoso, seguindo o marido, também perdeu a oportunidade de se manifestar, num momento delicado, favoravelmente ao aborto legal. Afinal, não se deve esquecer que sua trajetória como intelectual também está ligada à defesa dos direitos da mulher e da ampliação da cidadania.
Subordinar, como vêm fazendo o presidente e a primeira-dama, a tomada de posição pública sobre um tema tão vital às conveniências do calendário oficial, sejam elas a visita do papa ou as eleições de 98, é sucumbir à política miúda e a interesses mesquinhos, sempre injustificáveis.
Destoa, nesse quadro, o bom senso do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Mello, que manifestou-se, além do mais, a favor da extensão do direito de aborto aos casos em que o parto compromete gravemente a saúde da mulher ou de má-formação do feto -o que, aliás, vem sendo autorizado em centenas de decisões judiciais que interpretam a lei de modo mais liberal.
Não está em questão a legalização do aborto, mas a garantia de que os hospitais públicos cumpram com seu dever social. A legislação já põe o Brasil entre as nações com maiores restrições à interrupção da gravidez. Seria intolerável se pressões políticas e da Igreja Católica tirassem das mulheres pobres o direito ao aborto nos poucos casos em que a lei o autoriza.

Ruth defende projeto sobre aborto

Folha de S.Paulo – Ruth defende projeto sobre aborto – 02/10/97

Ruth defende projeto sobre aborto

CHICO SANTOS
da Sucursal do Rio

A primeira-dama Ruth Cardoso defendeu ontem a aprovação pelo Congresso Nacional da lei que regulamenta a realização de abortos legais em hospitais públicos, afirmando que ela apenas ratifica o que já está na legislação.
Ela disse que a chegada do papa João Paulo 2º hoje ao Brasil não deve ter nenhuma interferência na votação da lei no Congresso. Para a primeira-dama, “a relação entre o Congresso Nacional e o papa é zero”. Segundo ela, “esse é um problema da sociedade brasileira”.
“Não há nenhuma novidade, não há nenhum enfrentamento de quem seja contra ou a favor”, disse Ruth. Para ela, a lei em tramitação “é um direito garantido que está sendo estendido às mulheres com menos recursos, porque elas não são atendidas no serviço público, quando deveriam ser”.
A lei que tramita no Congresso permite que sejam realizados na rede pública de saúde abortos em casos de gestação causada por estupro ou em casos nos quais haja risco de vida para a gestante. A legalidade do aborto nesses dois casos está prevista no Código Penal de 1941. Os comentários de Ruth Cardoso foram feitos na favela da Rocinha (zona sul do Rio).
A primeira-dama, que é também presidente do programa Comunidade Solidária, participou na Rocinha de solenidade de liberação de R$ 200 mil do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para financiamentos populares feitos pela ONG (organização não-governamental) Vivacred.
Ruth disse que “há muito tempo vinha brigando por essa idéia do crédito popular”, acrescentando que no Brasil há muitas facilidades para a concessão de crédito “a quem não precisa dele”.
Ela classificou o crédito popular como “um mecanismo para mudar a sociedade” e afirmou que o Brasil está muito atrasado em relação a outros países latino-americanos nessa área. Culpou o período de inflação elevada por esse atraso.
Por esse motivo, segundo ela, foi necessário ir buscar na Bolívia o aprendizado para que o Brasil também tivesse seu sistema crédito popular, que está sendo implantado em várias cidades do país.
Durante a solenidade, realizada na sede da agência de financiamento, que funciona em um prédio da Rocinha pertencente à Igreja Metodista, Ruth Cardoso participou das assinaturas de dois novos empréstimos feitos pela ONG.
Um foi de R$ 700 para Maria de Fátima da Costa, dona de um bazar de artigos para festas na favela, e outros de R$ 200 para a ambulante Maria Isaias.
A linha de financiamento total do banco BNDES para o Vivacred é de R$ 600 mil, estando prevista a liberação dos R$ 400 mil restantes até janeiro de 98.

Folha de S.Paulo – Ruth Cardoso acha excessiva polêmica sobre aborto legal – 05/09/97

Ruth Cardoso acha excessiva polêmica sobre aborto legal

da Sucursal de Brasília

A primeira-dama Ruth Cardoso atribui à imprensa a polêmica criada em torno do projeto que obriga os hospitais públicos a realizar aborto nos casos permitidos pelo Código Penal (estupro e risco de vida da gestante). Hoje, apenas nove hospitais em todo o pais têm serviço de aborto legal.
Segundo a Folha apurou, a primeira-dama tem se queixado a alguns assessores do noticiário sobre o assunto, que considera excessivo.
Para ela, a polêmica só serve para ajudar os que fazem oposição ao projeto, aprovado há duas semanas pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
Desde a aprovação, a primeira-dama tem se recusado a dar sua opinião sobre o assunto, apesar de mostrar que compartilha da opinião do marido.
O presidente Fernando Henrique Cardoso declarou na segunda-feira que vai sancionar o projeto se ele for aprovado pelo Congresso.
FHC argumenta que o governo está regulamentando algo que é previsto na lei há 57 anos.
A autorização legal para aborto em caso de estupro ou risco de vida para a mãe está no Código Penal desde 1940.

Votação em plenário
O deputado federal Salvador Zimbaldi (PSDB-SP) solicitou à Mesa da Câmara que coloque o projeto aprovado pela comissão em votação no plenário.
Seu requerimento foi acompanhado de 96 assinaturas -44 a mais que o necessário.
Esse pedido vai ser votado pelo plenário. Para ser aprovado, precisa dos votos da maioria simples (metade mais um dos presentes).
Paparazzi
A primeira-dama também estava disposta a não se manifestar sobre o acidente que matou a princesa Diana, mas anteontem deu uma entrevista ao “Globo Repórter”.
Ruth não culpa os paparazzi (fotógrafos que estavam seguindo o carro em que estava a princesa na hora do acidente, em Paris) -“isso ainda está sendo investigado”, esquivou-se-, mas disse temer que um certo “limite ético” tenha se rompido.
Ela lembra que, quando quebrou o braço, em Ibiúna (São Paulo), foi perseguida por fotógrafos a caminho do hospital, que queriam captar uma expressão de dor.
Para Ruth, a informação principal, que era o fato de ela ter quebrado o braço, todos já tinham -o que tornava desnecessária a perseguição.
“É uma situação de tensão muito grande, que sempre provoca algum risco”, disse.
Ruth Cardoso esteve ontem na Enap (Escola Nacional de Administração Pública), onde participou da formatura da terceira turma da escola. Ela foi convidada para ser paraninfa dos 96 formandos.

FSP – Editorial: O Papa e o Aborto Legal [03/10/1997]

Folha de S.Paulo – Editorial: O PAPA E O ABORTO LEGAL – 03/10/97

O PAPA E O ABORTO LEGAL

A visita do papa João Paulo 2º ao Brasil talvez venha a servir como pretexto ou instrumento de uma ofensiva contra o projeto, em tramitação no Congresso, que obriga os hospitais públicos a realizar o aborto nos casos previstos por lei.

A condenação do aborto, em qualquer circunstância, ocupa lugar de destaque na agenda da visita papal, dedicada em grande parte à “defesa da família”. Segundo consta, ele pedirá ao presidente Fernando Henrique Cardoso o veto à lei que autoriza a interrupção da gravidez decorrente de estupro ou que coloque em risco a vida da gestante.

É preciso desde já desfazer um equívoco. O papa tem todo o direito de se dirigir a seus fiéis para reforçar as crenças da Igreja Católica, da qual é o chefe supremo. Isso não significa, entretanto, que deva interferir na condução das leis e do Estado brasileiro, que é laico e deve se pautar por princípios republicanos.

A primeira-dama Ruth Cardoso, que vinha evitando se posicionar publicamente a respeito do aborto legal desde que a polêmica surgiu, há dois meses, manifestou-se, enfim, de modo hábil ao dizer que “esse é um problema da sociedade brasileira”. Problema da sociedade é mesmo a expressão correta na medida em que o direito ao aborto legal no Brasil é hoje um privilégio das mulheres que podem recorrer a hospitais privados.

Talvez exatamente por estar prevendo os efeitos da cruzada antiaborto liderada pelo papa sobre os parlamentares, a primeira-dama tenha dito, numa tirada de efeito, que “a relação entre o Congresso Nacional e o papa é zero”. É sabido que não é, mas a frase aponta para o imperativo de que o teor das leis não deve ser determinado, a priori, por crenças religiosas, que dizem respeito a questões de consciência -individuais, portanto. De outro modo, podem vir a ser feridos os princípios republicanos da universalidade e da igualdade de direitos.

Luis Nassif :: Não habemus papa, deo gratias [08/10/1997]


“Herege sim, mas esteve no Vaticano. O que nos redime, é que ela não é a primeira, nem a última vítima dos fundamentalistas religiosos.”

Folha de S.Paulo – Luís Nassif: Não habemus papa, deo gratias – 08/10/97

LUÍS NASSIF
Não habemus papa, deo gratias

Raras vezes a posição imperial da Igreja Católica se manifestou tão claramente como no momento em que, fortalecido pela presença do papa no país, dom Lucas Moreira Neves, cardeal primaz do Brasil, exigiu a retificação das declarações dadas pela cidadã Ruth Cardoso, em defesa do aborto.

Dom Lucas não tem divisões de exército. É improvável até que tenha cacife eleitoral. Mas permanece autêntico representante de tempos imemoriais, quando as famílias tradicionais distribuíam seus filhos entre a igreja, o Exército, a diplomacia e a política -e as decisões do país se resolviam nas casas de uma elite responsável por uma das sociedades mais injustas deste século.

É primo do ex-presidente Tancredo Neves e de uma penca de generais e diplomatas que marcaram a história do país. Não é dotado, como o cardeal Arns, de impulsos quase ingênuos de generosidade. Nem sequer usa a generosidade como instrumento de intervenção política.

Como nenhum outro religioso brasileiro, dom Lucas encarna à perfeição o papel de príncipe da igreja. Tem a alma dura, as feições duras, as atitudes duras dos grandes comandantes, dos especialistas em palácios. Ele só se compraz com o exercício pleno da diplomacia religiosa, de quem quer o que é Deus, e o que é de César.

No episódio do chute na santa, perpetrado por um bispo irresponsável da Igreja Universal, coube a ele alimentar o paroxismo inquisitorial que quase explode em guerra religiosa. Quem impediu foi a solidariedade intuitiva e generosa do cardeal Arns.

Na Bahia, sua primeira atitude foi agir contra o sincretismo religioso. Deve ser de sua inspiração a ofensiva da igreja para tentar impor novamente o ensino religioso nas escolas.
Moral e política

Em sua posição -dele e do papa- contra o aborto, não se pense em princípios morais, posturas de consciência e outras condicionantes individuais que norteiam as ações dos homens comuns. Assim como a guerra é extensão da diplomacia, para a igreja e seus príncipes as regras morais são parte integrante do exercício do poder. Não fosse assim, tratariam de condenar a indústria de armamentos -como bem lembrou frei Betto.

A igreja não possui divisões armadas, nem território, nem capacidade fiscal. Sua atividade política e diplomática foi se esboroando à medida que o mundo se tornava mais complexo e o habitat natural da igreja -as famílias- passou a ser bombardeado por influências muito mais orgânicas, da democracia e da moderna sociedade da comunicação.

A conquista da cidadania, em todos os níveis, amplia de maneira irreversível o conceito do livre arbítrio, das decisões individuais, acabando com todas as formas de autoritarismo -da ditadura política à ditadura dos “especialistas”.

As emanações de ordem hierárquicas perdem sentido; mais ainda, as dogmáticas. Qualquer organização precisa conquistar corações e mentes de pessoas livres, para poder exercitar seu poder.
Centralização

A igreja se comprometeu basicamente por sua posição centralizadora, da grande organização que perdeu a sensibilidade nas pontas que atuam diretamente perante o seu consumidor.

O resultado é o abuso das posições morais primárias, como instrumento de dominação sobre um rebanho cada vez mais disperso -desde a inacreditável posição contrária aos preservativos, até a condenação do aborto.

É processo que atinge indistintamente “conservadores”, como dom Lucas, e “revolucionários”, como os padres ativistas de periferia. Na recente “marcha dos oprimidos” em Aparecida, empenhado em preservar seu espaço político junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, um bispo auxiliar do cardeal Arns chegou a relacionar a repressão ao MST, o Proer, a morte do índio pataxó e o aborto na relação dos grandes crimes do neoliberalismo e da globalização. Deixou de fora apenas a torcida do Flamengo.

Consequência: em um momento em que a espiritualidade passa a ser uma das tendências dominantes da humanidade, a Igreja Católica perde cada vez mais espaço. Junto aos mais simples, é comida pela borda pelos evangélicos; junto aos mais sofisticados, por religiões que preservam a individualidade das pessoas. Na base, conserva espaço apenas junto a grupos toscamente politizados; no topo, junto a velhas famílias, muitas de extrato agrário, que compuseram o pacto conservador brasileiro deste século.

Ao ameaçar dona Ruth Cardoso, por sua posição pró-aborto, dom Lucas pensava estar enfrentando César. Não estava. Dona Ruth falava em nome de uma entidade muito mais permanente e poderosa que a Presidência: uma opinião pública esclarecida de quem se pode discordar, jamais impor posições. Nem com ameaças de excomunhão nem de fogueiras inquisitoriais.

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