Festa adiada

Ou não? As pessoas podem aprender a comemorar passos intermediários:

Dilma ficou na média de Lula em 2002 e 2006. Para 1ª candidatura e com boa parte da mídia e algumas denominações religiosas contra, não é pouca coisa. Afinal, as expectativas até alguns meses eram de resolver no 2º turno, ou não? E agora já sabe seu potencial de votos consolidados.

Marina Silva recebeu quase 20 milhões de votos (esperava 15 milhões.) É claro que em muito pela posição contrária ao aborto, mas não deixa de ser uma vitória, já que essa também era uma causa dela.

Mercadante recebeu 18% a mais de votos que em 2006. Se insistir em 2012 ou 2014, leva. Lula conseguiu só na quarta vez, certo? (Não sei se o mesmo raciocínio se aplicaria a Hélio Costa…)

A oposição fez um senador inesperado, Aloysio, e mais governadores de última hora do que se previa. Serra voltou subitamente a uma posição que só é comparável a de antes da campanha.

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Surpresa na presidencial : Marina com 19,4% (previsto 17%), ou seja, a “onda cristã” continuou. Serra também deve ter recuperado um pouco, obteve 32,6%, quando estavam previstos pelas pesquisas até 31%, mas também houve o efeito de uma redução do número de válidos para Dilma. Nas eleições de 2002 e 2006 ocorreu o mesmo : com Lula perdendo 3 a 5% dos votos em relação a pesquisas, os candidatos do PSDB mantêm as projeções totais de votos e ganham percentual de válidos com o menor denominador (compare-se, p.ex., 31/100 com 31/95).

Aprendizado : além da margem de erro, considerar – 4% para o PT, nas pesquisas, e só aí calcular os válidos.

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A dúvida será o posicionamento de Marina. Normalmente ela seria neutra, mas… e com “plenária” do PV? Nas últimas simulações para 2º turno Serra ganhava 2/3 dos votos de Marina/outros. Considerando os votos de Plínio para Dilma, no entanto, Serra recebe 71% dos votos marinistas (Ibope) ou 77% (Datafolha.) Portanto é muito importante. Mas boa parte da “onda verde” (algo como ¼ dos votos de Marina) se deveu a religião mais que à ética na gestão ou desenvolvimento ecosustentável , assim sobre estes votos paira grande incerteza.

Há muito tempo que Serra não tem chances tão boas. Então agora é que a eleição irá polarizar mesmo e começará a discussão programática. Novas balas de prata é difícil supor, teriam sido usadas para forçar o 2º turno. E o maior trabalho está com o governo em várias frentes: a) desconstruir o promessômetro de Serra; b) reconstruir as perdas de imagem sofridas por Dilma; c) estabelecer uma comunicação com a classe média. Precisará contar com os governadores e senadores eleitos para isso e o tempo de TV do PMDB agora não conta. Ajuda que os factóides de setembro já foram desmontados.

Haverá muita ansiedade em relação às primeiras pesquisas de 2º turno.

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Pesquisas : como sempre serão questionadas. Desta feita o Datafolha se saiu bem, já que foi o mais próximo do resultado final. Um grande problema é a abstenção, então, para as pesquisas de 2º turno serem mais confiáveis, será bom que haja a pergunta se votou no 1º turno ou se o entrevistado realmente pretende comparecer ao 2º turno.

Democracia : a grande dificuldade é a desinformação geral. Mesmo as pessoas que se julgam informadas não têm muita noção das limitações que um presidente pode ter em cumprir promessas; da questão da governabilidade; da credibilidade dos factóides. A classe média é desinformada pela mídia, os segmentos populares são desinformados por igrejas. Talvez a informação de sindicatos e organizações sociais também seja parcial. Se a sociedade não quiser seguir o caminho dos EEUU, onde 70% dos jovens cursam faculdade, o acesso a internet é amplo e irrestrito e mesmo assim há manipulação política, é necessário um reforço em metodologia, sociologia e história na educação. Trabalho para décadas, já que nunca se começou.

Eu tenho receio de que discutir papel do Estado, práticas de gestão, desenvolvimento sustentável ou partidarização da mídia sejam passatempos de uma minoria. E só a cada 4 anos.

Pelo menos aprendemos algumas coisas : acadêmicos são capazes de escrever coisas nas quais dificilmente acreditam sinceramente, eleitores são extremamente volúveis, o governo (da tendência que for) deve buscar algum canal de comunicação mais perene com a sociedade.

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O Senado ficará um pouco mais lulista do que previsto (a oposição PSDB/DEM/PPS/PMN elegeu apenas 9 senadores de 54 possíveis, PT e aliados mais próximos 18, PMDB 15, diversos 12.) Aloysio Nunes vai como 1º colocado por SP, esse foi o grande ganho da oposição, mas Tasso (surpreendentemente), Mão Santa, Heráclito Fortes, Artur Virgilio, Marco Maciel, Heloísa Helena & Cesar Maia ficam de fora.

Há vários casos pendentes de deferimento de candidatura (PA, PB, RO, AP, DF) e pode haver mudanças pró e contra governo, porém, se todos os indeferimentos forem mantidos a situação terá perdido 2 em PA e 1 em AP, mas ganho 1 em PB e 1 em RO. Mas como atuarão na prática os senadores de partidos coligados (ou provavelmente a coligar) com a situação no nível federal e eleitos como oposição no nível estadual? Há casos em AL (PP), PI(PP), TO(PR), MS(PMDB), SC(PMDB suplente)

O DEM elegeu dois governadores vindos do Senado (essa parece ser uma boa estratégia, especialmente se em meio de mandato), mas com isso perdeu os cargos para os suplentes do PMDB (pelas coligações feitas em 2006.)

Mesmo com Agripino, Aloysio Nunes e Demóstenes eleitos, a grande vitória do governo se deu no Senado.

Bancadas para 2011 em diante (se não houver transferência para novos partidos):

PT : 15 / PDT-PSB-PCdB : 9 / PMDB : 20 (2 serristas) / PSoL-PTB-PP-PR-PRB-PSC : 19 / PSDB-DEM-PMN-PPS : 18

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Para governadores poucas surpresas em relação a pesquisas. Em relação ao final de julho, em apenas 7 estados houve mudança no partido do 1º colocado. 4 viradas para a oposição, 3 para o governo. O maior imprevisto talvez tenha sido a decisão em primeiro turno em SC.

O 2º turno por muito pouco não aconteceu em SP. A “onda vermelha” enfraqueceu e PSDB/DEM/PMDB-MS devem eleger 10 governadores já contando onde estão bem posicionados para 2º turno. As mudanças mais sensíveis em relação a 2006 são/serão RS & DF para o PT e PA, PR & RN para a oposição. Há vários casos de 2º turno com dois candidatos do mesmo campo que o governador atual.

Coligações : quando há um candidato natural na frente, como Dilma, Anastasia, Alckmin, Jatene, etc, faz sentido a oposição se dividir. Isso ajuda a capturar os votos daqueles que rejeitam o favorito e a levar para o 2º turno, mesmo em uma eleição com cores tão continuístas. Talvez o grande erro do governo tenha sido a montagem da disputa em MG. Mas, em geral, são raras as viradas em 2º turno (lembro só de Covas vs Maluf e Jackson Lago x Roseana) Mais possivelmente do que não, não mudaria nada.

3 comentários sobre “Festa adiada

  1. Acho que a Marina saiu como grande vencedora. Reuniu um grupo aguerrido ao seu lado, e vai disputar com o Aécio a liderança da nova oposição.

    De ontem pra hoje, já mudei minha posição sobre a “onda verde”, não dá pra dizer que é só reflexo da boataria.

    Mas ai em SP, como explicar o Ricardo Young com 4 milhoes de votos? Lembrem-se, o PV é (era) nada.

    O PT precisa de um Carta aberta à população brasileira v2.0 (meio-ambiente)

    1. Oioi, quanto a meio-ambiente concordo, mas não só. A vitória de Marina foi também remover a qustão aborto da pauta por mais 4 anos. Tanto Serra como Dilma terão que falar disso.

      1. Então uma combinação de coisa, que a meu ver estava pra indo pra debaixo do tapete. Tem um post entrando ai mais tarde sobre minha avaliação.

        Abçs

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