Que sociedade desejamos?

A grande questão não é ganhar uma eleição, mas pensar se desejamos viver com tanta alienação. A desinformação sobre política e jornalismo pode ser apenas reflexo de algo maior, que faz pensar o quanto a sociedade pode tomar decisões equivocadas em relação a muitas coisas importantes, como religiosidade, meio-ambiente, relações econômicas, diversidade, etc.

A atual campanha presidencial é apenas exemplo. Fala-se em “mexicanização”, cita-se com SP o exemplo do risco de se deixar um partido por longo tempo no poder sem oposição. Por ora esse perigo no governo federal não existe, a imprensa partidária representa forte oposição e uma ideologia, e não dará nenhuma trégua. É o oposto, portanto, de SP. Mas a sociedade pode pensar em como evitar os dois tipos de vícios no futuro, ainda mais quando tanto se fala em Nova Oposição.

Um país como o Brasil é extremamente complexo. Mesmo se os mandatários e legisladores forem honestos e éticos, há um sem número de situações do cotidiano que podem passar despercebidas, por mais controles que existam.  Pense-se em uma empresa, quantas fraudes ou desvios podem ocorrer sem que seus controladores tomem conhecimento? Assim, a cada quatro anos estaremos sujeitos, não importa a agremiação no poder, a um festival de factóides.

Está claro que um grande problema no Brasil é a desinformação associada a uma falta de conscientização de como se dão os processos sociais. Privilegia-se o detalhe e nunca o contexto. Até pessoas com boa formação escolar podem ser vítimas da manipulação da mídia se esta se organizar oligopolisticamente para um fim. A existência de fontes alternativas de informação não é o suficiente : após duas décadas de estado autoritário, mais algum período civil de manutenção de vícios arcaicos, muitas pessoas internalizaram as idéias de que a existência de liberdade de expressão é o suficiente e de que é natural imaginar que os meios de comunicação denunciam erros dos governos.

Apesar do comodismo da maioria, sabemos que não é simples assim. Alguém já notou o paralelo que pode ser desenhado entre a blogosfera e a antiga mídia alternativa (quando não clandestina) dos anos 70/80? Como mudar esse desconforto no futuro?

Fala-se muito em internet e os desafios para o jornalismo. É algo muito interessante, mas aqui lidaremos com um problema cultural, talvez universal. Será que o brasileiro médio gosta de se informar? Pesquisar, ler, navegar até encontrar os contraditórios e sínteses não é hábito apenas de uma minoria? Estender o acesso à banda larga a todos que a desejem pode ser um objetivo tão importante como combater a inflação, a desnutrição ou a falta de infra-estrutura, pois o acesso a conhecimento é um grande gargalo no Brasil. Mas, em países desenvolvidos o acesso à internet é amplo, barato e livre e nem por isso deixam de ser sociedades no geral alienadas e submetidas à manipulação. Os EEUU como exemplo.

Fala-se em Conselho Nacional de Comunicação. Não conheço a proposta, mas penso que deve existir sempre a possibilidade de um meio de comunicação oficial com a sociedade. Se houver consonância entre o discurso oficial e a imprensa, será uma redundância, mas é um custo a pagar para evitar a situação contrária, a de que a população não receba a versão do Estado quando esta não interessar aos detentores dos meios de comunicação. Sem haver mais a lei de imprensa, sem uma prática clara e rápida de direito de resposta, o que vivemos hoje no Brasil chega a parecer o espelho de uma ditadura, onde a mídia tenta impor um discurso oficial de interesse apenas de um grupo, não da sociedade. Não deixa de ser uma forma sutil de autoritarismo ou de prática de poder.

Não se trata, é óbvio, do extremo do pensamento único quando existe censura oficial ou quando a mídia é controlada pelo Estado. Tanto que escrevemos diariamente, não? Uma organização midiática pode se autocensurar e mentir, mas não pode censurar as demais. No entanto, fico com a impressão que, para um mesmo nível de escolaridade, o grau de conscientização de classe e de como se operam as relações sociais e econômicas diminuiu em relação aos anos 70.

Eventualmente o progresso material individual e a segurança em saber que não ocorrerão violações de direitos fundamentais por parte do Estado leva a sociedade a um grande grau de acomodação. Enquanto estamos falando de política o prejuízo é conhecido : melhores programas de governo, o que varia da perspectiva de cada um, podem nunca se concretizar, posto que o debate é todo truncado ou evitado. Não haveria, então, o mesmo risco em relação a vários outros aspectos da vida? Afinal, há um número imenso de mitologias difundidas cotidianamente e para as quais há bem menos discussão do que deveria.

O progresso humano depende de uma revolução no modo de pensar informação e conhecimento. O gosto pela leitura e discussão de humanidades e ciências deveria ser muito mais estimulado. Conhecer conceitos de história, de sociologia, psicologia ou o que quer que seja não deveria ser apenas o costume de quem não quer se sentir surpreendido pelos rumos do mundo, mas poderia também ser uma poderosa ferramenta para o desenvolvimento social e econômico.

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