Márcia Denser :: "Os olhos da cara"

O esquerdopata: Os olhos da cara

Os olhos da cara

Márcia Denser

A cegueira das elites tucanas ou não

Tentando entender as razões do colapso generalizado do neoliberalismo no ocidente, (como capitalismo financeirizado) já nos estertores desde a Grande Recessão de 2008, até o presente colapso político do projeto do PSDB no Brasil, como atesta a queda vertical do candidato Serra (ou será a subida vertiginosa de Dilma que já alcança 51% das intenções de voto?), cujo índice de rejeição (30%) agora empata com o de intenções de voto (30%), me ocorreu um conceito formulado por Frederic Jameson (quem diria, o ideólogo do pós-modernismo como lógica cultural do capitalismo tardio!) que afirma: “Há sempre cegueira no centro” (1).

E centro, para ele, são os EUA, mais especificamente, Washington e Nova York, isto é, o centro do poder da potência hegemônica para onde converge a elite norte-americana, cuja necessidade de poder e controle absoluto tornou-se uma espécie de psicose que, como qualquer psicólogo-junior pode explicar, tende a aumentar o ponto cego do olho.

Ou seja, devido à cegueira que lhes oblitera qualquer antecipação/visão da realidade – uma vez que preferem confiar na manipulação e controle da população através da mídia hegemônica – as mudanças só chegam a tais elites já como fatos consumados.

Se serviu com precisão à elite texano-fundamentalista-pós-Bush, os desastres da campanha Serra comprovam que o conceito de “cegueira no centro” se ajusta perfeitamente às elites tucano-subalternas. Sem contar que, lembrando Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), a elite brasileira sempre acalentou “um verdadeiro horror à realidade”.


Em artigo (Valor Econômico, 25/8) com o sugestivo título “Requiescat in Pace”, o especialista em geopolítica José Luís Fiori sepulta a “terceira via” neoliberal que teve em FHC um dos seus ideólogos. Segundo ele, as idéias e os partidos socialistas e social-democratas deram uma contribuição decisiva à história do século XX, em particular com a criação do “estado do bem-estar social” depois da II Guerra Mundial. Mas, na década de 80, a social-democracia perdeu fôlego político e identidade ideológica, engolfada pela “restauração” liberal conservadora de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Fiori considera que “na América Latina, as novas políticas neoliberais surgiram associadas à renegociação da dívida externa do continente, como se fossem apenas um problema de política econômica.”

Aqui, é importante ressaltar que, nos anos 80, a América Latina passava por um ciclo de espiral hiperinflacionária, crise resultante de dois fatores enraizados nas instituições financeiras de Washington. O primeiro foi a imposição de transferir para as novas democracias as dívidas ilegítimas contraídas na ditadura, o segundo foi a decisão de elevar a taxa de juros – tomada por Paul Volcker, presidente do Banco Central norte-americano – que elevou as dívidas externas a patamares estratosféricos. Nascia assim a espiral do endividamento, e em 1989, o “Consenso de Washington”, cujas políticas impuseram aos países as privatizações, a desregulamentação/liberação do comércio e os cortes drásticos dos gastos públicos como condição dos empréstimos contraídos junto ao FMI.

Ou seja, a guerra econômica substituiu com vantagens as ditaduras sangrentas. Por conta da “terceira via”, vinha a nota “modernizante”, uma vez que “não havia alternativa” a não ser curvar-se às políticas de “livre mercado”. E os países se submetiam ao FMI mediante uma combinação de falsas pretensões e clara extorsão: quer salvar seu país? Venda-o. Os ajustes fiscais “para cima” – para beneficiar unicamente aos ricos e remunerar o capital – eram impostos por Washington e executados pelas elites locais, caracterizando um segundo saque pós-colonial.

Fiori assinala que, “em 90, só no Chile e no Brasil a proposta da “terceira via” teve uma repercussão importante. No caso do Brasil, com a formação do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) e a participação ativa do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) na formulação das idéias e reuniões do movimento, ao lado de Tony Blair e Bill Clinton. Mas a “terceira via” teve vida curta, talvez por causa da superficialidade e artificialidade das suas idéias, talvez porque seus líderes mais importantes acabaram sendo derrotados nas urnas ou passaram para a história como grandes fracassos ou blefes político-ideológicos. Como no caso do ex-primeiro-ministro Tony Blair, afastado da liderança trabalhista em 2007 e transformado no inimigo número um da opinião pública inglesa, sob acusação de ter mentido para justificar a entrada do país na Guerra do Iraque, além de acobertado a tortura por parte de suas tropas. Tony Blair foi substituído por Gordon Brown, outro ideólogo da “terceira via”, que acabou sofrendo uma das derrotas eleitorais mais arrasadoras da história do trabalhismo inglês. Bill Clinton também não conseguiu fazer seu sucessor e passou para a história como símbolo do expansionismo imperial americano da década de 1990, a despeito da retórica globalista e democrática.”

“Mas esse factóide anglo-americano só será enterrado definitivamente em 2010, na América Latina. Primeiro, no Chile, depois da derrota eleitoral da “Concertación” de Ricardo Lagos, e depois, no Brasil, com a provável derrota do partido social-democrata de Fernando Henrique Cardoso nas eleições presidenciais deste ano. Nos dois casos, o que mais chama a atenção não é a derrota em si mesma, é a anorexia ideológica dos dois últimos herdeiros da “terceira via”. Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, se trata do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata. Que repouse em paz !”

Mas necrológios do PSDB é que não faltam ultimamente. Para o crítico da USP, Vladimir Safatle, “o caráter errático da campanha Serra não é apenas um traço de seu caráter ou um problema de cálculo de marketing. Trata-se da dissolução ideológica de uma sigla (PSDB) que só teria uma chance se tivesse ensaiado algo que o PS francês tenta hoje: reorientação programática a partir de um discurso mais voltado à esquerda e (algo que nunca um tucano terá coragem de fazer) autocrítica em relação aos erros do passado.” De resto, para a grande maioria, o fracasso do PSDB se deve ao elitismo, ao descolamento da realidade social e regional. Por não ter percebido, gostando ou não, que os governos Lula mudaram o Brasil.

O fato é que os níveis baixíssimos de credibilidade da grande imprensa apontam para um desgaste irremediável: porque “não se engana todo mundo o tempo todo”. Com o perdão do trocadilho, a cegueira das elites, tucanas ou não (as tucanas apenas serviram de exemplo), que um dia tiveram em FHC seu ideólogo-mor, literalmente lhes custou os olhos da cara!

(1)In A Cultura do Dinheiro, pg. 48. Petrópolis, Vozes, 2001

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