NPTO, simplesmente fodástico.


“Imaginem a blogosfera com o NPTO, o Biscoito e o Hermê. O Brasil agradeceria.”

Vcs já pararam para pensar que, talvez, as coisas tivessem que ser EXATAMENTE do jeito que estão sendo? Que se não tivéssemos um metalúrgico com a intuição apurada pra escolher uma mulher que militou contra a ditadura como a sucessora de uma gestão de sucesso, NUNCA discutiríamos politicamente o nosso passado?

Dois mil e dez, pra mim, é essa oportunidade. A chance de nós reencontrarmos com os nossos erros do passado, que por sermos demasiadamente cordiais, estávamos lentamente varrendo pra debaixo do tapete.

Esse encontro, meus caro(a)s, já estava marcado. Não temos como fugir. Não podemos fugir. Não queremos fugir.

E não vamos fugir dele.

Dilma na Época: Essa é a melhor carta que vocês têm? | Na Prática a Teoria é Outra

Dilma na Época: Essa é a melhor carta que vocês têm?
Aug 15th, 2010
by NPTO.

Bom, os caras vão tentando com o que têm. Tá certo, tem que jogar o jogo. Se a Época acha que o eleitorado vai odiar a Dilma porque ela pegou em armas contra algo como, digamos, um governo Lula em que PSDB e DEM, além de todos os blogueiros de direita, estivessem no pau-de-arara (bom, o Olavo de Carvalho se auto-exilou, isso conta?), boa sorte.

A revista foi lançada só para que a foto da Dilma presa pudesse estampar as bancas como um cartaz de campanha, de maneira que as reportagens dentro são inteiramente secundárias.

Uma delas, que trata da atividade guerrilheira da Dilma, não acrescenta um único fato novo ao que já tinha sido mostrado no perfil publicado na Piauí, só dá um enfoque menos histórico, para caracterizar bem os guerrilheiros como criminosos comuns. A revista saiu só para isso.

Mas a segunda reportagem, sobre a vida de Dilma na prisão, é boa. A foto dos companheiros de cela reunidos é histórica, e o perfil de Dilma que emerge dos depoimentos dos companheiros – como, aliás, dos documentos do regime – é bastante positiva.

E, se Dilma já não tivesse meu voto, o teria ganho com isso:

À noite, as mulheres se reuniam para ver televisão. Dilma fazia parte do grupo que dormia tarde e, às vezes, assistia à sessão Coruja e, nos sábados de madrugada, ao seriado Jornada nas Estrelas. Márcia diz que Dilma brincava com uma expressão do Dr. Spock, personagem da série, quando surgia uma proposta considerada estapafúrdia: “Esta é uma questão de raciocínio lógico!”

E tem uma imagem estilizada da Dilma presa que vou até copiar, assim que achar em formato maior, para colocar sempre aqui, ficou muito boa.

Enfim, fora a qualidade da segunda reportagem, tudo que se esperava. Falta só agora o depoimento da Miriam Cordeiro na Reinaldo AzeVeja dizendo que Dilma a engravidou e depois não quis pagar pensão, e a campanha acaba.


Mas eu aproveito para fazer um experimento mental que eu sempre faço em conversas, mas não sei se já fiz aqui: chama-se “eu e a luta armada”.

1.

Eu já conheci bastante gente que foi para a clandestinidade durante a ditadura, e alguns que fizeram luta armada, mesmo. Vários dos que conversaram comigo me dissera algo que para mim sempre foi óbvio: se eu tivesse 18 anos no Brasil em 68, eu teria sido guerrilheiro.

Com 18 anos eu era socialista, militante estudantil, e, acima de tudo, achava importante provar que não era covarde (já passou, era excesso de hormônio; mas é por causa desse mesmo fenômeno que o exército recruta aos 18). Mais do que isso, eu sempre fui viciado em política, e se um reaça qualquer aparecer na minha casa dizendo que eu não posso mais fazer política, ou falar sobre política, do jeito que eu quiser, eu faço o corno engolir o próprio saco começando pela próstata.

EU ESTARIA ERRADO EM FAZER ISSO (não na parte de fazer o cara engolir o saco, na parte de me juntar à luta armada). Em primeiro lugar, e isso para mim tem um peso razoável, a luta armada não tinha a menor chance de ganhar. E, em segundo lugar, o que tem ainda mais peso, porque socialismo era uma causa errada, como bem lembrou o Gabeira na sua boa resposta no último debate sobre ser um “ex-Gabeira”.

Mas, sobre esse último ponto, destaque-se o seguinte: quantas democracias ocidentais estavam dispostas a dar armas para quem quisesse combater a ditadura no Brasil? Foda-se o regime que você defende aí pra sua casa, ou na sua tese de doutorado, se você defender o pior regime para o meu país. Quem dava armas para a luta brasileira era Cuba, Argélia, enfim, regimes de esquerda. Era difícil não ter simpatia por essas coisas, em especial porque o MDB só começou a ficar interessante nos anos 70.

Um bom reflexo disso hoje em dia é o pessoal de esquerda que fica chamando todos os dissidentes de Cuba de agentes da CIA. Digamos que sejam (o que, obviamente, não são, ao menos todos): vocês queriam que eles fizesse o que? Se impressionassem com o imenso apoio que todo dia damos aos caras nas publicações e blogs de esquerda, e reconhecessem (lá da cadeia) que as políticas sociais do regime até que são boas? Não é mais natural que simpatizem com os EUA, que denunciam a ditadura que os governa? E não adianta dizer que os EUA fazem isso por interesse, porque a URSS também não dava ponto sem nó.

Além do mais, quem havia produzido o argumento definitivo contra a esquerda democrática brasileira foram os golpistas de 64. Jango era um péssimo presidente, mas levantou algumas bandeiras caras à esquerda, e as mesmas forças que haviam tentado derrubar todos os presidentes do período democrático, não importa o quão moderadas fossem, meteram os tanques no palácio. A mensagem principal do movimento de 64 era que o Brasil até poderia ter democracia, mas não era para a esquerda se entusiasmar com ela: se algo progressista pintasse na área, ia para o porão com o Fleury.

Os merdas de sempre vão dizer que há tantos ex-guerrilheiros no poder no Brasil hoje em dia (inclusive na oposição) porque, ah, sei lá, o Brasil virou comunista, o Foro de São Paulo, o Osama Bin Laden, o Dunga, enfim, alguma coisa do tipo. Mas olhando para os caras (se não quiser reconhecer mérito nos adversários, reconheça ao menos nos ex-guerrilheiros do “seu lado”), fica claro que muitos dos jovens que foram lá encarar o pau-de-arara eram mesmo vários de nossos melhores (claro, vários outros entre os melhores escolheram outros caminhos). Vocês acham que era remotamente possível que Fernando Gabeira não pertencesse à nossa elite política de algum modo, com a capacidade de articulação que o cara tem, mesmo se não tivesse sido guerrilheiro?

Eu ia querer me juntar com esses caras. Some-se isso aos outros fatores citados acima, e é praticamente certeza que eu teria virado guerrilheiro.

2.

Mas, e aqui o experimento começa a ficar interessante, eu só nasci em 73, quando boa parte dos guerrilheiros já tinha morrido sob tortura, ou sido fuzilado após captura (o que, muito provavelmente, teria acontecido comigo). Eu fui adolescente durante a redemocratização, o que foi uma experiência fascinante. E, alterando-se assim os controles do experimento, eu, que certamente teria sido guerrilheiro nos anos 70, jamais pensei em sê-lo.

Em parte por ser socialista, fui fazer faculdade de ciências sociais, de onde, anos antes, muita gente saía para a clandestinidade. Vários do meus ex-professores eram ex-clandestinos. Um deles ficou surdo sob tortura. Quase todo mundo tinha sido do PCdoB, da Libelu, da ALN. Meu orientador de mestrado era althusseriano (e muito inteligente). Eu certamente fui mais exposto ao marxismo que qualquer um daqueles caras que viraram guerrilheiros.

Mas como ninguém me prendeu por isso, eu fui estudando esse negócio de socialismo, fui estudando esse negócio de socialismo, e acabei deixando de ser socialista. Hoje sou um social-democrata particularmente sem graça, um cripto-ortodoxo que defende a autonomia do Banco Central e escreve blog. A única semelhança entre eu e meu contrafactual guerrilheiro é que ambos seríamos Flamengo.

Não tenho a menor dúvida de que isso teria acontecido à imensa maioria dos moleques que foram pro pau em 68, se não fosse o regime militar. Eu conduzo esse experimento em mim mesmo há vinte anos, por isso respeitem aí minhas conclusões.

3.

A juventude sempre vai ter gente de tudo que é jeito, e uma das coisas que sempre vai ter é o jovem idealista. É bom que tenha, porque os velhos caquéticos pé-na-cova feito eu provavelmente somos já meio cínicos, e é preciso equilibrar.

É bom também que o establishment ofereça resistência fortíssima à novidade, porque só assim as novidades serão filtradas, ao menos para descartar os babacas que apóiam qualquer coisa só porque é novidade.

Mas o novo vai brigar com as armas que coloquemos à sua disposição. Se nós lhe opusermos argumentos – e nós estamos em uma idade melhor que a deles, em capacidade e disposição, para produzir argumentos -, os moleques vão ser obrigados a refinar seus argumentos. Se nós lhes ameaçarmos com armas, eles vão responder com armas; e quem está realmente no seu auge para o conflito físico, em capacidade e disposição, são eles (eu, por exemplo, estou meio acima do peso).

Os jovens entram com a dose necessária e periódica de renovação de que a democracia precisa, mas quem tem que manter uma democracia na qual eles aprendam a ponderar seus argumentos somos nós. O melhor título que eu já vi pertence a um livro do Rorty: “Cuide da Liberdade e a Verdade Cuidará de Si Mesma”. O mínimo que se pode dizer sobre a turma de 64 é que não cuidaram da liberdade (é como dizer que o Nardoni era um pai meio negligente); não reclamem se o nível da discussão política a partir daí não tiver sido o ideal.

A capa da revista não é sobre Dilma ter sido socialista. Se isso merecesse capa, ia faltar revista no Brasil: duvido que na Época não escrevam ex-socialistas, e Serra, por exemplo, certamente mereceria uma capa semelhante. A capa é para inspirar medo porque a geração da Dilma pegou em armas. Sugiro que na próxima edição a revista coloque na capa o Delegado Fleury, para o público jovem saber em quem ela estava atirando.

Não se trata de dizer que os guerrilheiros tinham razão. Mas seu erro estava em apoiarem coisas como o comunismo, não em pegar em armas contra um regime opressor, como antes deles fizeram os fundadores dos Estados Unidos ou da República Francesa. Eles foram corajosos, apostaram a vida, e, com frequência, a perderam, lutando por ideais pelos quais muitos dos seus críticos não aceitam sequer pagar imposto.

4.

Não é nada que a turma que lê Ayn Rand vá entender; mas, na lista das coisas que esse pessoal não vai entender, nem é a mais importante.

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