Desembarcando do messianismo

As pessoas gostam da confortável idéia de imaginar o governo Aécio Neves como regra para o PSDB/DEM e os governos Serra, Yeda e Arruda como exceções. Pode muito bem ser o contrário.

Na política é desejável a oposição trazer propostas inovadoras para chegar ao poder e o governo buscar votos com realizações de seu governo. O PSDB não entra em bons termos com ambas as práticas e busca socorrer-se em um discurso um pouco messiânico, naturalmente de pouca credibilidade.

Em 1994, mesmo em sendo o PSDB a 5ª ou 6ª bancada de então, logrou desconsiderar a participação de outras agremiações governistas e capitalizar para si o potencial eleitoral do Plano Real, o demais é conseqüência dessa única estratégia. O que seria mudança em seu governo 1995-1998, as privatizações, foi escamoteado na respectiva campanha prévia. Em 1998, novamente, não foi apresentada à população, a iminente Reforma da Previdência e escondeu-se a grave deterioração das contas externas, mas a capilaridade do PFL e o discurso do medo em torno do Plano Real garantiram a reeleição. O resultado disso tudo é conhecido, uma estagnação de seis anos. E a fórmula se esgotou com essa fama de realizar o que não foi combinado previamente com o eleitor.

Em 2002 e 2006, na falta de novas idéias, tentou-se usar o argumento da herança bendita. Mas por que julgar que o eleitor não reconheceu o governo FHC? Foram amplamente reconhecidos, sim, o Plano Real, a austeridade fiscal e monetária e a implementação de iniciativas na área da saúde (tanto que não houve nenhum abandono posterior de nada disso), mas também houve a avaliação do governo como um todo e a percepção de que o preço tinha sido elevado demais. Para 2010 estamos ainda mais distantes desse passado e o eleitor quer ouvir coisas novas, não as já assimiladas por todos.

Assim, propor mudanças ou idéias, não está no DNA. A iniciativa do Bolsa-Escola foi muito tímida e tardia, quase envergonhada. Fora isso, o que mais?

Mas reconhecer que um governo de outros partidos pode se gabar de realizações também não é do seu DNA. Note-se a insistência da oposição em criticar o governo atual por sua popularidade, quando o único que fez foi governar. Torna-se quase infantil a tentativa de se atribuir tudo a decisões de um distante passado.

Ora, se as contas públicas foram mantidas em ordem, se os programas sociais foram criativamente ampliados e adotados como política de estado, se houve ações rápidas e iniciativas em várias áreas para eliminar gargalos, porque o governo deveria se envergonhar disso? Faz parte da política administrar orçamentos com vistas a realizações, beneficiar um amplo espectro de eleitores e segmentos sociais e com isso pleitear a continuidade.

Manter o que de bom se herdou e agregar coisas novas não é “eleitoreiro”, é antes a prática mais saudável de governo. Mas, por não poder contrapor-se a essa evidência, o PSDB busca negar a racionalidade da continuidade, que no entanto teria sido muito bem recebida se lhe tivesse acontecido no passado (como é em SP, em que não se fala sobre alternância de poder.)

Essa tentativa da negação da lógica política normal de oferecer propostas ou propagandear realizações, e que resulta em um imenso auto-engano, somente é possível pelo concurso de um aliado importante, a imprensa corporativa. Esta não apóia indistintamente qualquer grupo conservador, posto que vários são mais nacionalistas ou estatistas do que lhe interessaria. Também é necessário que o grupo político a ser fomentado se identifique com um ideário moderno de comportamento, o que é do interesse de seu público. Finalmente, o que é mais importante, é necessário que este queira compartilhar o poder de formar influência. Pode vir dessa conjunção a grande aderência da grande imprensa ao discurso do PSDB (e condicionalmente de seus aliados) ao ponto de quase tornar-se uma única coisa. É como se a imprensa fizesse parte da coligação oposicionista.

Mas o processo de obter resultados eleitorais à base de proteção midiática se esgota. É verdade que as grandes críticas que se pode fazer aos governos federais passados e estaduais presentes do PSDB ainda procuram um caminho para atingir a população em geral. Por outro lado, a administração seguinte, de PT e aliados, logrou, muitas vezes em situações adversas, resultados interessantes, consegue comunicá-los e não vê motivos para deixar o poder. O continuísmo em 2010 parece mais consistente e justificável que em 1994, 1998 e mesmo 2006.

Pelo PSDB não ter aprendido a fazer política de modo mais convencional, na luta pelos corações e mentes do eleitor, sabendo reconhecer perdas ou criar novos discursos sem depender de proteção midiática, fica quase inevitável um terceiro declínio eleitoral em 2010. Serra não é exceção.

4 comentários sobre “Desembarcando do messianismo

  1. As pessoas percebem isso tudo, e assim o pleito segue como o velório anunciado pelo “alidado” Demóstenes Torres (quando da trapalhada da indicação do vice, soltou que “ninguém é obrigado a acompanhar velório”)
    Tanto que o apelo do tucano do 45 não vai além do leitor médio da Veja.
    Bom texto.

  2. Exatamente. Desde as eleições de 1998 o PSDB, a nível federal, tornou-se parnasiano: almeja o poder pelo poder. Assim, valoriza mais a forma (a imagem que a mídia transmite de si como partido), que o conteúdo (os projetos para o povo e para o país). A consequência disso é que a maior parte do PSDB mostra-se vazio de conteúdo programático, no máximo possui algumas preferências elitistas e ideológicas conservadoras de direita. Com a derrota de Serra o PSDB tem que se reinventar, pois corre o risco de ver nascer uma oposição gerada dentro da base governista. Aí o PSDB perderá espaço, sendo a terceira força política a nível de executivo federal do Brasil.

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