Aonde estava o Cristiano Romero em Julho de 2002?


“Cristiano, explique esse pedaço da curva e depois a gente conversa”

É brincadeira? O Governo Lula deixa o BC aumentar os juros só de pirraça um dia antes do lançamento do PAC, permite que o BC elevar os juros erroneamente quando a crise mundial de 2008 já tinha explodido (falência do Lehman Brothers), permite que o BC eleve os juros na véspera das eleição, entre muitos outros exemplos de um estúpido machomonestarismo.

E agora, quando os índices de inflação afundam (não há outro termo pros últimos índices), e o BC sinaliza que pode interromper o aumento (não é a ação óbvia?) o cara me vem com essa que “o banco está prestes a perder credibilidade e comprometer uma bem-sucedida gestão de oito anos”.

“Credibilidade serve pra isso. Aumentar os juros e fazer os agentes econômicos porém o rabo entre as pernas.”


Cristiano Romero, meu filho, eu discuto juros com você, mas só depois de você me mostrar que você criticou ferozmente quando o todo-poderoso Armínio Fraga, por pressão do Serra, manteve (e até reduziu!) os juros de maneira irresponsável antes das eleições de 2002. Sua memória parece ser curta, eu te ajudo (aqui e aqui) essa irresponsabilidade ajudou a fuga de capitais e a explosão da inflação. A gente chama de jogar gasolina na fogueira.

Só falta o Valor Econômico virar O Globo, e o Cristiano Romero a Míriam Leitão. Ai sim, estaremos, completamente, perdidos.


A política monetária em ano eleitoral — Portal ClippingMP

A política monetária em ano eleitoral

Brasil
Autor(es): Cristiano Romero
Valor Econômico – 11/08/2010

Já se sabia que, no Brasil, a política fiscal é sempre frouxa em ano eleitoral; agora, suspeita-se que também a política de juros possa seguir o mesmo caminho. A queda da inflação nos últimos meses e o arrefecimento da atividade econômica justificaram a diminuição do aperto monetário sinalizado anteriormente pelo Banco Central (BC). Ainda é cedo, no entanto, para afirmar que esses movimentos não são transitórios.

O Comitê de Política Monetária (Copom) pode estar transferindo para 2011 tarefa que deveria realizar agora. Se a intenção não for essa, o objetivo, então, é admitir, de forma tácita, que o país conviverá no próximo ano com uma inflação superior à meta oficial, de 4,5%.

A diretoria do BC também já indicou, embora de maneira extraoficial, que sua preocupação é convergir a inflação para a meta em 2012. Tudo indica que a prioridade, neste momento, é manter a economia funcionando a todo o vapor, o que, em outras palavras, significa deixar que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça acima do seu potencial, gerando “alguma” inflação.

Há uma mudança relevante em curso. Em quase oito anos de governo Lula, o BC conduziu a política monetária com razoável autonomia. Mesmo sob constante “fogo amigo”, fez o que tinha que fazer. Controlou o IPCA, reduzindo-o de 12,5% em 2002 para 3,1% em 2006, e ancorou as expectativas, dando contribuição fundamental para o aumento das taxas de crescimento da economia. Agora, na reta final do mandato de Lula, dá sinais de tibieza.

O mês de junho terminou com o Relatório de Inflação, divulgado a cada trimestre pelo BC, pintando um quadro nada róseo para a inflação em 2010 e no ano que vem. O documento sugeria que, para domar os preços, o Copom faria mais três aumentos da taxa básica de juros (Selic) no ano corrente: dois de 75 pontos base (nas reuniões de julho e setembro) e um de 25 pontos em dezembro. Desta forma, o ano terminaria com a Selic em 12% ao ano.

Nas duas semanas seguintes, o cenário de curtíssimo prazo, especialmente o que diz respeito à inflação, mudou bruscamente. Uma elevação da Selic em 75 pontos base em julho já não se justificava. Uma semana antes do encontro do Copom, o BC sinalizou a mudança de rumo. De fato, não fazia sentido deixar o mercado esperando uma alta de juros que não viria. Quando emite um sinal antes de uma decisão, a autoridade administra as expectativas de maneira que elas convirjam para a direção esperada.

Houve, entretanto, ruído na comunicação. Alguns atores do mercado, segundo apurou esta coluna, perceberam a mudança de tom antes de seus colegas. Um deles estampou, em sua análise de conjuntura, uma frase típica de banqueiro central. Outros ficaram no meio do caminho. Na véspera da reunião do Comitê, um movimento de manada típico do mercado financeiro – refletido por uma forte mudança na inclinação da curva de juros – acomodou parte das expectativas de alta da Selic no patamar mais baixo, como desejava o BC.

A Selic foi, então, para 10,75% ao ano. No comunicado e na ata da reunião do Comitê, o BC fez crer que, muito provavelmente, não haverá novo aumento em setembro. Se houver, ele será menor que o esperado. O problema é que, para sustentar essa projeção, o BC teria que partir de um cenário macroeconômico bem distinto daquele que os principais participantes do mercado estão observando. Nos últimos dias, esta coluna teve acesso a vários desses cenários e nenhum deles, para efeito do controle da inflação, sugere a calmaria apontada pela autoridade.

Um desses analistas incorporou ao seu modelo os choques de curto prazo – notadamente, a queda dos preços dos alimentos – que derrubaram a inflação nos últimos meses. Além disso, considerou que os preços das commodities, que vêm subindo no mercado internacional, terão variação nula em reais daqui em diante. Mesmo nessa hipótese, o modelo mostra que o IPCA deve voltar a acelerar em agosto, ficando próximo de 5,2% no ano e de 4,7% no fim de 2011. Estas projeções estão em linha com o que prenunciava, em junho, o Relatório de Inflação do próprio BC.

Diante isso, avalia-se que o comportamento benigno da inflação em junho e julho foi transitório e que, por essa razão, ele não altera o quadro geral de aquecimento da economia. Crescimento da população empregada, aumento da massa real de salários, expansão do crédito ao consumo e manutenção da taxa de desemprego no menor nível da história sustentam o ritmo acelerado do PIB. Segue forte também a expansão da produção de máquinas e equipamentos (bens de capital) e de insumos da construção civil. É verdade que a economia está em processo de desaceleração, mas esse movimento, asseguram especialistas, não mostra o Brasil a caminho da estagnação ou mesmo de um nível de expansão inferior ao do seu potencial.

Como se sabe, o BC não detém o monopólio dos modelos de projeção nem dos dados que os alimentam. Se a instituição não está vendo o que a maioria dos analistas vê, não é por falta de informação, mas, sim, porque tem outros objetivos neste momento. Como BC não tem independência formal no Brasil, é legítimo que o governo eleito lhe dê o mandato que deseja. Se a prioridade não é combater a inflação, mas permitir que a economia cresça acima de suas possibilidades, isso, pelo menos, deveria ser informado à sociedade.

O regime de metas, em vigor no país desde 1999, já mostrou sua eficácia. Embora ainda esteja num patamar elevado para padrões internacionais, a inflação está sob controle. Para funcionar, o regime prescinde da credibilidade do Banco Central, de objetivos claros e de uma boa comunicação do BC com o mercado (leia-se: com a sociedade). A credibilidade se obtém com autonomia.

O presidente Lula não deu independência formal ao BC, mas aumentou sua autonomia ao dar status de ministro ao presidente da instituição, retirando-o da jurisdição do Ministério da Fazenda. Os últimos atos do BC indicam, porém, que o banco está prestes a perder credibilidade e comprometer uma bem-sucedida gestão de oito anos.

8 comentários sobre “Aonde estava o Cristiano Romero em Julho de 2002?

  1. Fernando, na virada de ano eu li um post do Nassif, bom, na verdade era uma aposta com os leitores do blog sobre como iria terminar a taxa de juros esse ano. Eu já perdi porque apostei 10.75% e tenho certeza que até o fim do ano eles hão de aumentar o juros mais um pouquinho, inesplicavelmente.
    Concordo com você de que não havia necessidade da elevação que vimos até agora, ou ela foi exagerada. Se a inflação esta assim agora, imagina quando esses últimos movimentos começarem a fazer efeito.

  2. O problema é que os planilheiros de plantão (como disse o Nassif) fazem de tudo para não quererem entender a dinâmica da economia.
    Eles não querem perceber que foi essa política, a do FHC/Serra, de juros que gerou uma dívida do nada, que obrigou ao aumento dos tributos, à apropriação da base de arrecadação dos estados pela União, ao desestímulo à formalidade.
    É um conjunto tão assustadoramente amplo de SEQUELAS, que causa espécie que não entre nas avaliações de economistas planilheiros.
    E são os críticos que simplificam o debate.
    É duro brigar com clichês e estereótipos.
    É duro para os economistas de plantão aceitarem que o regime atual é eficaz.
    É duro para os economistas/planileiros, todos poderosos em governos anteriores, não terem capacidade ou não quiseram fazer o que o Operário da Presidência consegue realizar.
    É duro!

  3. Não estou dizendo que foi um erro aumentar. Estou dizendo que é um acerto parar de subir.

    Entao essa ladainha que vai destruir a credibilidade do BC é conversa fiada.

  4. Foi mau Fernando, você não disse mesmo.
    Me expressei mau.
    Eu sim acho que a taxa básica não deveria ter subido tanto.

  5. Em uma palestra na FGV:

    O sucesso de um bom governo:
    – a 'medição' correta e apropriada da relação “dívida pública X PIB”, e
    – um forte equilíbrio fiscal de longo prazo.
    A história das crises também mostra isto.
    A história também está mostrando que estes dois “fundamentos” (linguagem de economista) acima tornam os governos capazes de cumprirem um grande papel perante as várias crises: de oferta, de procura, etc…
    A história mostra, também, que o Brasil está sendo um exemplo, um bom exemplo deste sucesso.

    O resto é “ESTÓRIA” de economistas/planilheiros de plantão….

  6. A continuar nesse ritmo, o Cristiano Romero chegará ao nível de análise econômica da Míriam Leitão rapidamente. “Permitir que a economia cresça acima de suas possibilidades”??? Parece o Lampréia (ex-ministro das Relações exteriores do FHC) falando que o Brasil não pode querer ser maior do que é. Espero que o Romero, como analistas econômico, não esteja começando a fazer wishful thinking… Sinceramente, espero que o governo Dilma consiga evoluir na questão do Banco Central e dos juros.

  7. O grande problema é que esses caras são “pautados” por “analistas de mercado” que creem piamente que o chamado PIB POTENCIAL é o santo graal da política monetária.

    Mas a realidade mostra que i) Não há indícios que as especificidades de uma economia moderna e globalizada como a brasileira se movam em compasso com essa teoria ii) Há indícios que os cálculos feitos para alcança-lo (se considerarmos verdadeira a hipótese) não tem sido eficientes, no sentido que não conseguem prever (nem ao menos aproximadamente) o desempenho da economia brasileira.

    Crescer acima de suas possibilidades é inviável, disso sabemos. Mas “ceteribus paribus”, qual é a real possibilidade de crescimento da economia?

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