PIG? Não seria PIC, Partido da Imprensa Corporativa?

 

Muitos falam na “blindagem da mídia” em relação aos governos do PSDB. Muitos ficam indignados com o azedume da mídia corporativa – que não faz concorrência entre si em busca da melhor informação para oferecer ao seu público – em relação ao PT/Lula, associando-o a um posicionamento “udenista”. (Aliás, sobre Lula e sua capacidade de transpor obstáculos, leia-se o belo e recente artigo de E. Sader em http://bit.ly/ayJEJh )

Mas, por que Maluf, ACM, depois Collor e Sarney, e outros tantos foram também tão criticados e espezinhados? Por que a mídia se posicionou contra a ditadura (ou pelo menos contra a censura e a tortura) e a corrupção nos anos 80? E por que criticar tanto o governo atual que favorece, ainda que sob a lógica social-democrata, a reprodução de capital?

É que pode haver dois recortes do comportamento da mídia que se sobrepõem.

Desde que há eleições gerais mais ou menos universais (1945), a grande mídia assumiu o papel de defender princípios mais conservadores no que se refere a questões patrimonialistas e sociais, mas não nas questões comportamentais. Em situações limite, onde o primeiro grupo de interesses pode ser afetado, a mídia fechará com a opção mais mantenedora do status quo possível. É o que se fala de sua atuação em 1964 ou 1989.

Em outras situações, como quando se pensa em divórcio, liberdade de expressão, sexualidade, ecologia, células-tronco ou o que mais for, poderá ser notado um posicionamento frequentemente não conservador, o que talvez confunda um pouco seus leitores. Mas não deveria, pois há décadas não existe mais a correspondência “esquerda x direita” quando se trata de liberdades individuais. (Alternativamente, como formadores de opinião, vemos as igrejas progressivamente menos reticentes nas questões de justiça e igualdade social.)

Então, o primeiro recorte é a defesa de um modelo de estratificação social concomitante a de direitos pessoais.

A agremiação política que melhor espelha a dualidade “neoliberal em economia”, “libertário em comportamento”, que interessa por um lado à imprensa e por outro lado ao seu público, ocorre ser o PSDB (dentre seus aliados bem mais o PPS que o DEM) Enfim, a sintonia entre esse agrupamento político e a grande imprensa não deveria causar estranheza, nem sequer a tal “blindagem”.

Porém, em S.P., tomado como exemplo, antes da chegada ao poder do PSDB, o ideário de preferência da mídia, que busca passar uma imagem de sintonia com a modernidade, não combinava plenamente com o malufismo, janismo e outros ismos. Mesmo sendo a Arena e seus descendentes notoriamente de “direita” em questões sociais, não representavam o que interessava, nem pelo lado econômico, muito nacionalistas e um tanto estatistas, nem pelo apreço a padrões morais mais conservadores.

E também não estavam tão dispostos a ceder o papel de formadores de opinião à mídia. Do mesmo modo, os setores capitalistas interessados em desvalorização cambial (como os ruralistas) ou em redução de juros (industriais) também sofrem dificuldades para expor suas visões. Quantas vezes não são tachados de ineficientes ou atrasados? Há preconceitos criados em relação ao PT, por conveniência, mas há preconceitos criados em relação a grupos que nada têm a ver com o PT.

Assim, um outro recorte não se refere ao conservadorismo, mas à conveniência do compartilhamento do exercício de influência. A quase permanente luta pelo fim da Lei de Imprensa, que findou em 2009, reflete isso. Se porventura ocorressem situações eleitorais contrapondo dois grupos conservadores, haveria imparcialidade da grande mídia? Não necessariamente, pois ela também é um agente na disputa pelo poder. Parte da mídia age como um partido em coligação.

De modo geral, a associação PSDB/Mídia parece ser mais duradoura e umbilical que o simples posicionamento anti-PT/PMDB & pró-PSDB que ora se vê. E pode continuar sendo, mesmo com o declínio da influência de Serra em um insucesso eleitoral.

8 comentários sobre “PIG? Não seria PIC, Partido da Imprensa Corporativa?

  1. Realmente, também creio que boa parte da mídia está umbilicalmente ligada ao PSDB e aos valores que esse partido representa. Também ajuda as vantagens que a mídia obteve com os 8 anos de FHC, como o aporte de dinheiro do BNDES nas organizações Globo, por exemplo. Mas um ponto que quero ressaltar é o seguinte. O Paulo Henrique Amorim foi lá na minha faculdade ontem e disse que boa parte da mídia conservadora de direita européia ao menos tem qualidade. Não é o que vemos no Brasil, quando boa parte da mídia é de fato golpista. Não há outra palavra para descrever o comportamento da Folha de SP e da TV Globo, que fazem algumas matérias políticas sem prezar pelos rigores do jornalismo factual, objetivo e de qualidade. Mas também concordo que a mídia como um todo é corporativa. O Estadão e a Band são corporativos, mas não são golpistas, pois eles não manipulam descaradamente. Creio que a mídia comporta os dois termos: toda a mídia é corporativa, mas parte dela é golpista (a parte mais radical).

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s