O direito de sonhar e a obrigação de fazer


O Igor do “O Chihuahua Anão” fez um post que me fez refletir sobre o “desvio para o centro”. Discordo de muitas coisas. Por exemplo o Lago e Capiberibe caíram por que não conseguiram reunir forças políticas para defender o seu projeto e tampouco mobilizar o povo. Discordo da questão de Belo Monte, mas aceito e respeito – e isso não é trivial para um economista – o ponto de vista desses caras (sociólogos, antropólogos, etc). Também me preocupo com o Xingu e todo aquele ecossistema. Mas governar é fazer escolhas. As mais difíceis que alguém pode enfrentar. Mas quem vai julgar é a História.

E nessa luta selvagem que é a política, faz muito bem cada um lutar pela própria sobrevivência. As minorias políticas estão passando exatamente pela fase que o PT passou de botar a culpa no resto do mundo. Tipo uma espécie de adolescência. Tipo o CQC culpando o Lula pelo fato de ainda existir o Collor e o Sarney. Mas isso passa.

Outra questão é o Congresso, em primeiro lugar, não seria preciso eleger uma ampla frente esquerdista-ambientalista pra se contrapor aos ruralistas? Não deveriam começar dai?

Mas de certa forma, não  podemos deixar de acreditar em utopias, de acreditar que é possível alterar o que está ai. Acreditar na força do imaginário e no seu poder transformador. De sonhar. Uma esquerda tão xarope e convicta dos seus ideais – por mais equivocados que fossem – quanto o PT era no passado. Uma esquerda parecida com um “pré-adolescente empunhando uma vuvuzela” (e olhem que eu achei que isso iria acontecer depois do desempenho da Heloisa Helena nas ultimas eleições).

O PT buscou o centro desalojou o PSDB/DEM acuando-os no canto da extrema-direita. Uma contribuição e tanto. Nesse contexto, o “centrismo amestrado” cumpriu sua função, mas deve ser usado com moderação. E somente por aqueles que conquistaram o poder. Mas estes estão condenados a governar o presente. Fazer, executar. Podem e devem pensar o futuro. Mas convenhamos, com milhões de miseráveis vivendo ainda na idade média, o foco é resolver o problema dessas pessoas agora.

Quem põe a faixa no peito, não tem mais o direito de sonhar, tem a obrigação de fazer. Mas sempre existirão outros sonhadores.

Ainda bem que é assim.

Centrismo amestrado « O chihuahua anão

Centrismo amestrado
julho 28, 2010

Ok, a gente aprendeu com o PT que política é mesmo política e sem respaldo no congresso a coisa é feia. Que venha o PMDB, aprendemos.

Durante um tempo fomos nos acostumando a um novo PT, de centro, não mais de esquerda. Tudo passou por uma espécie de higienização centrista: política econômica conservadora (até cheguei a gostar do Palocci), alianças pragmáticas (engolimos o Sarney derrubando o Lago e os Capiperibe). Tudo em nome de um avanço gradual, apoiado nas políticas sociais (a única revolução de fato no governo). Não digo que não aprendi, digamos, o valor desse pragmatismo centrista, com o centro em uma política de distribuição de renda mais ativa. Bom, fomos amestrados nesse negócio aí: tudo pelo social, um outro diria.

Daí veio Belo Monte. Isso realmente não passa na minha garganta, pelos motivos que já expus por aqui. E o meu adestramento começou a pifar lentamente.

Bom, ontem vi o Plínio de Arruda Sampaio no R7 / Record News e tomei um choque. Cara, o bom velhinho lá do alto de seus 80 anos destilando, com a maior serenidade, uma proposta de esquerda que agora eu só consigo pensar como “radical”, mas que antes do PT assumir me parecia óbvia. Aquilo me fez um bem danado: educação completamente pública, saúde também, governo colombiano é uma ditadura etc, etc. Como uma espécie de bálsamo, ou uma loção de limpeza desse centrismo amestrado no qual o PT me enfiou. Gostei daquilo, basicamente. Não vi tudo, mas se o cara for contra Belo Monte pelos motivos corretos (porque fode com os índios do Xingu), sou capaz de votar no cara.

Lembro-me do Vicente, filho dele e amigo nosso do IFCH, dizendo como o pai era, inicialmente um cara à direita no PT (pelo vínculo com a igreja) e como, com o passar dos anos, o PT foi passando à direita e ele foi ficando no mesmo lugar: progressivamente mais à esquerda sem ter de fato mudado de posição política. Ficou tão à esquerda que teve que sair do partido.

Talvez o centrismo fosse um passo necessário, sei lá. Mas que ele apagou uma perspectiva mais revolucionária de transformação social, ah isso ele fez. Seria ótimo que o bloco de esquerda de verdade crescesse para um patamar mais alto de representação politica (tipo uns 15%), para ao menos termos um contrapeso que descentrasse o PT desse pragmatismo entediante: tem que ter uns caras buzinando o centrão petista, chamando os caras de reacionários, para ver se eles saem do marasmo e enfrentam um pouco mais as mazelas do país (tipo pelo menos deixar de lamber as botas do Sarney).

2 comentários sobre “O direito de sonhar e a obrigação de fazer

  1. tudo passa pela maioria do congresso. é bem melhor governar com uma grande coalizazão de esquerda…mas não temos isso no Brasil temos um centrão politico que se move por interesses individuais, ruralista, uma esquerda timida e a direita reaça. Se o povo nao colocar no poder senadores e deputados suficientes o PT continuara dependente do PMDB e de partidos de centro

    1. Exato, mas como construir uma bancada de esquerda forte, se os proprios Aldo Rebelo comunistas se uniram aos ruralistas? E os ambientalistas no Brasil, são de direita e conservadores?

      Só perguntando pra Esfinge.

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