“O poder dos eventos irrelevantes (na política)”


“Voto x Esporte”


Eu estou numa fase, que vou te falar. Foi só afirmar que a derrota ou vitória do Brasil na Copa seria irrelevante nas eleições que publicam um artigo pra me desmentir.

Na PNAS “Irrelevant events affect voters’ evaluations of government performance“. PDF completo aqui.

via Estadão

O poder dos eventos irrelevantes | Carlos Orsi

O poder dos eventos irrelevantes

por Carlos Orsi

Seção: Filosofando História

06.julho.2010 08:45:52

Numa eleição apertada, eventos irrelevantes para o processo político, mas que melhoram a disposição de espírito do eleitorado, podem ser decisivos. De acordo com estudo realizado nos Estados Unidos comparando resultados de jogos de futebol americano com resultados eleitorais entre 1964 e 2008, uma vitória do time “da casa” nos 1o dias anteriores ao pleito dá ao candidato da situação uma vantagem média de 1,6 ponto porcentual.

Parece pouco, mas não é. Em termos de eleições brasileiras, 1,6 ponto pode ser a diferença entre haver ou não um segundo turno. Para reduzir o risco de a associação ser fruto de mera coincidência, os autores do trabalho (publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, a PNAS) compararam resultados eleitorais também com os de jogos realizados após os pleitos, e não viram efeito nenhum.


Mesmo levando-se em conta diferença culturais entre os povos, não parece haver muitos motivos para duvidar de que o resultado tenha alguma aplicação a democracias em geral. No caso brasileiro, onde o voto é obrigatório, desconfio que a correlação possa ser até maior. O eleitor americano, afinal, tem que tomar duas decisões: votar ou não e, no caso afirmativo, em quem; para o brasileiro, a primeira decisão já foi tomada a priori.

A pesquisa não foi realizada por cientistas políticos, mas por economistas — o objetivo era avaliar o impacto de “eventos irrelevantes” na tomada de decisões. A associação entre esporte e política foi escolhida porque os resultados de jogos “(i) afetam de forma significativa o bem-estar das pessoas, seja diretamente ou por contágio em redes sociais, e (ii) não têm relação com os negócios públicos. Nenhuma ação governamental seria esperada em respsta ao resultados dos jogos e o público quse que certamente não os relacionaria à performance do candidato da situação“, escrevem os autores.

Eles ressaltam ainda que o efeito está mais ligado ao impacto emocional direto da vitória do time da casa do que à força da agremiação — é o clima de alegria proporcionado pela vitória recente, e não a satisfação de saber que o time está bem, o fator principal aqui.

Os resultados sugerem uma perspectiva sombria para a capacidade humana de tomar decisões racionais, até mesmo em questões críticas como o processo eleitoral, mas nem tudo são trevas.

Os autores determinaram também que, quando as pessoas tomam consciência da causa de seu estado de espírito — por exemplo, quando o pesquisador, antes de perguntar se o eleitor aprova ou não o governo, menciona explicitamente a vitória recente do time local — o efeito estatístico pró-situação desaparece.

“Deslocando as considerações subconscientes para o primeiro plano, a preparação experimental permitiu que as pessoas separassem a mudança de humor induzida pela sorte do time do objeto político em questão” , diz o artigo na PNAS.

Voting and sports: Pigskin politics | The Economist

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American politics Democracy in America

Voting and sports

Pigskin politics

Jul 8th 2010, 21:41 by T.P. | LONDON

A FICKLE electorate can be swayed by anything, from polling-day drizzle to a candidate’s hairdo—or even, according to a new study in the Proceedings of the National Academy of Sciences, the outcome of recent sporting events.

Led by Loyola Marymount University’s Andrew Healy, a team of researchers compared 44 years of US presidential, gubernatorial, and Senate election data to the results of Division I college football games. After controlling for demographic effects, they found that at the county level, a local athletic victory one week before an election gave incumbents an average 1.70% gain. (In contrast, post-election victories or games more than two weeks before polling day had no effect on voting.)

The effect didn’t arise from athletic triumph alone—the emotional intensity of a win seemed to determine its electoral impact. For example, Dr Healy and his colleagues calculated the unexpectedness of each victory based on point spreads from the betting market. They found that a surprise win garnered a bigger electoral bump (2.59%) than an expected one. And in “powerhouse” districts with an especially fervent fan base, a victory could yield up to 3.35% for the incumbent.

The researchers argue that the triumph of a favoured team fosters a sense of general well-being—and a corresponding contentment with the status quo, including sitting officials. It seems that incumbents may wish to consider investing in their hometown team.

(For those tempted to sneer at football fans’ lack of political sophistication, note that the study reports similar trends among basketball aficionados during the 2009 NCAA tournament. And while the researchers only considered American football, a clear-eyed look at the global voting public during World Cup games suggests the universality of their findings: surely those beery, but enfranchised, vuvuselleurs are just as susceptible.)

(Photo credit: Bloomberg News)

2 comentários sobre ““O poder dos eventos irrelevantes (na política)”

  1. Vamos lá!
    1998: FHC presidente, candito à reeleição. Brasil perde, povo triste, mas FH se reelege.
    2002: FHC presidente, quer eleger seu sucessor. Brasil penta, despachando a alemanha na final, com atuação marcante do então Fenômeno. Povo feliz. Mas Serra perde para Lula.
    2006: Lula presidente. Brasil é desclassificado pela França nas quartas de final. Povo triste. Mas Lula se reelege.

    Dá até para dizer o seguinte: de 1998 para cá, quando o Brasil ganha a copa, tende a votar na oposição. Quando perde, vota na situação. Isso é um dado estatístico correto?

    No começo da copa escutei num restaurante aqui de Curitiba um polaco gordo vomitando sua arrogância para todos ouvirem: “tomara que o Brasil perca a copa, senão esse ‘mula’ elege a terrorista”. Falar o que de um imbecil incapaz de fazer uma análise política minimamente acurada. Ainda que Curitiba seja reduto demotucano (estão no poder municipal há anos, o mesmo grupelho), ninguém aplaudiu o sujeito – e parecia que ele ficou até frustrado com isso. Essa é nossa “elite”. Se acham.

    Enfim, voltando ao assunto original, não acredito que, hoje, uma copa do mundo possa influenciar uma eleição. Isso não tem acontecido há tempos. Em 94 venceu a situação, mas as condições econômicas do país eram outras, e nossa democracia ainda estava engatinhando (não que hoje corra a passos largos). FFHH com apoio descarado dos grandes meios de comunicação só poderia dar naquilo. O cidadão era tratado como o salvador da pátria, um iluminado que abdicou do conforto da sua vida acadêmica em Paris para salvar o Brasil. Hoje, esses meios de comunicação tradicionais só fazem perder relevância.

    Apesar de ter vindo de um americano, a frase está correta: “é a economia, estúpido”.

    São 8 milhões de empregos em oito anos. Passamos incólumes a uma crise. O povo tá comprando geladeira, TV de plasma, computador, vendo seus filhos/irmãos/primos ingressarem no ensino superior, financiando carro e casa própria. Vai mudar para quê?

    Serra está acabado. E ele sabe disso. Seu trato com jornalistas, digamos, ‘não alinhados’ denuncia isso. Se algo sai do script, ele surta, devidamente acobertado pelos ‘amigos’.

    Os cães sarnentos ladram, mas a caravana do desenvolvimento, ah, essa caravana, segue incólume.

    1. Caro,

      Obrigado pelo comentario. Nao sei se acompanha o blog, mas essa é exatamente a minha opiniao. Mas lembre-se o titulo do blog é Muito pelo Contrario, e o que artigo publicado na PNAS diz é exatamente o contrario do que penso (na verdade acho).

      E é um estudo amplo, mas trata de eventos de menor magnitude. Tipo, ao inves da Copa, vc teria que trocar por uma partida do Corinthians. Ao inves da eleição presidencial, a eleição municipal. Nesse sentido, existe sim indicios que esses eventos insignificantes afetam sim a intenção de voto.

      Mas serve mais de alerta para os estrategistas de campanha nao ficarem só observando os eventos “macro” (eg.: economia bombando). Situacoes momentaneas em determinadas micro-regioes podem ser impactantes.

      Acho que é por ai.

      Abcs,

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