Nada de novo no front.

Sobre as recentes pesquisas Vox Populi e Datafolha, diferenças e favorecimentos.

O fenômeno das pesquisas Datafolha parecerem favorecer Serra já foi percebido e exemplos não faltam. Especialmente este ano em que as candidaturas se encontraram. Em 2009 ninguém ligava muito: ora Serra estava 20% na frente, ora Serra estava 25% na frente. Havia diferenças muito maiores de um mês para outro e entre institutos do que agora, até porque a população não estava tão atenta a eleições, mas o fenômeno não parecia tão comentado.

Só que agora se está mais perto da data fatídica…

SE não houver fato novo, e SE as tendências gerais (transferência, regionalização, maior conhecimento dos nomes, etc) continuarem, apenas passaremos para um cenário em que ora Dilma estará 5% na frente, ora estará 10%… Talvez as pessoas fiquem confusas neste que é o momento em que as curvas estão cruzando. Mas isso já era previsível há meses.

No gráfico estão plotados todos os pontos conhecidos para os 4 institutos. Vamos traçar linhas de tendência para os dois mais comentados, Datafolha e Vox Populi, por sorte os com maior número de dados. Lembremos que erros de amostragem em regiões (margens de erro de até 8%) tendem a se compensar na soma total (margens de erro em torno de 2%.)

Não poderíamos mudar a data das eleições?

O que se vê? Que “grosso modo” a tendência do Datafolha está abaixo daquela do Vox Populi uns 2% ou 2,5% no que se refere a Dilma e o contrário no que se refere a Serra (distância vertical entre as linhas.) Isso significa apenas 1 eleitor em 50 com posição diferente, mas o cálculo do líquido entre candidaturas favorece Serra em 4% ou 5%.

Se as candidaturas estivessem paradas, veríamos linhas horizontais paralelas, o que é mais ou menos o caso para Serra. Mas, como há um movimento de transferência de Serra para Dilma em curso, que por sua vez também agrega intenções de voto de antes indecisos ou destinados a Ciro, o que notamos é que Vox Populi antecipa Datafolha em cerca de 1 mês (a distância horizontal entre as linhas, que no caso é bem mais inclinada para Dilma)

Em maio Vox Populi (dia 13) mostrava Dilma 3% a frente e Datafolha (dia 21) mostrava empate. Portanto 3% de diferença entre institutos. Em junho Vox Populi (dia 26) mostrava Dilma 5% a frente e Datafolha (01.07) mostrava Serra 1% a frente. Portanto 6% de diferença entre institutos. Nada tão dramático quando já se espera 4% ou 5% de diferença entre eles (os institutos, não os candidatos.)

Se procurarmos vamos encontrar as diferenças metodológicas que explicariam isso. É bem possível que uma amostragem (Datafolha) seja mais focada em quem tem maior acesso a informação e que isso subestime quem ainda esteja no caminho de ser conhecido (Dilma). Mas não necessariamente é “agora” que seja assim. Talvez quase “sempre” seja assim, com coerência interna. E pode ficar assim até acontecer bastante campanha e o conhecimento do processo eleitoral ser mais homogêneo.

Assim, não deve causar estranheza, por exemplo, se em meados de agosto, digamos no início da campanha televisiva e após um mês de propaganda paga e comícios, sair uma Vox apontando Dilma 10% à frente. E se isso ocorrer o Datafolha vai registrar uma pesquisa, sair correndo para coletar dados e mostrar que Serra está “apenas 5%” atrás. Se assim for, vai ser exatamente coerente com o que vimos até agora.

Em termos de antecipação: em maio Vox mostrava Dilma com 38%. O que Datafolha mostra agora. Se hoje Vox Populi mostra 41%, isso pode ser um bom palpite para uma Datafolha de fim de julho.

Para Serra costumava acontecer o mesmo, apenas que no sentido descendente e em ritmo mais lento. Mas agora não foi assim. A Vox de maio apontou 35% para Serra (Datafolha : 37%) e a Vox de junho diz 36% (Datafolha 39%.) Que pode haver um viés metodológico superestimando Serra no Datafolha já sabemos, e como é constante não preocupa. Mas não devemos ignorar que ambos os institutos mostraram um leve movimento de ascensão, de 1 a 2%. É só isso de concreto que ocorreu e não passa muito de uma “oscilação” e também pode ser justificado pela maior exposição na TV. Aliás, parece até pouco para tão grande exposição, o que indica que pode haver forças em vetores contrários e apenas estamos vendo o resultado líquido. Nada indica que o movimento geral de descenso lento da candidatura Serra não vá continuar em julho, mês em que não há programas partidários na TV. Oscilações para cima já foram vistas muitas vezes no passado, até maiores.

Há problemas misturados. Minha hipótese é que em função de metodologia e amostragem o Datafolha vai (quase) sempre mostrar Serra acima do que Vox mostraria no mesmo momento. Mas oscilações ocorrem e os retratos são feitos em datas diferentes, o que confunde. Como essa candidatura é bem conhecida e estável, não há tantos efeitos de antecipação ou defasagem. Já em relação a Dilma, que é uma candidatura construída rapidamente e ainda em construção, os mesmos fatores fazem as pesquisas Vox Populi parecerem captar antes do que Datafolha sua evolução.

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Podíamos fazer um paralelo com roupas. Quem é muito magro as prefere com bolinhas ou listas horizontais. Quem está acima do peso vai evitar roupas com detalhes e preferir listas verticais. Porque “favorece”, não é assim?

Pois então… Quem sabe que tem “recall” ou preferência em camadas de maior renda, vai preferir o Datafolha, talvez até contrate sondagens intermediárias com base na mesma população. E vice-versa… Mas ficar olhando apenas para um “modelo” pode levar a autoengano.

Também é importante o “olhar de helicóptero”. Quando queremos ver um detalhe, baixamos a altura, aí podemos analisar oscilações de curto prazo, diferenças entre segmentos populacionais, várias coisas. Quando queremos ter uma visão mais geral do processo, subimos de altura e aí vemos um conjunto maior de dados, no tempo e no espaço (institutos diferentes.) Fica com menos detalhe, mas também se revela inequívoco que o processo eleitoral este ano é captado por todos mais ou menos do mesmo modo e quais são as grandes direções.

Candidaturas talvez possam ser vistas como transatlânticos, ou nuvens. Se não houver um rebocador forte (fato novo) ou mudança súbita de ventos, não mudam de curso nem de velocidade facilmente. Sabemos que ainda vão ocorrer campanhas e debates, mas isso vai ser mais impactante do que tudo que a sociedade viveu nos últimos meses e anos?

Resumão : penso que quando as candidaturas não são similares em grau de conhecimento e estão em movimento e evolução, a metodologia de amostragem ou pesquisa do Vox Populi talvez antecipe tendências e a do Datafolha talvez capte defasadamente.  A divulgação de resultados diferentes interessa a campos diferentes, mas conhecer todos os dados interessa a todos.

7 comentários sobre “Nada de novo no front.

  1. Didático. Parabéns pelo post. Em resumo, até aqui o Vox Populi antecipou a tendência que o Datafolha posteriormente confirmou. Há que se reconhecer, então, maior eficácia da metodologia de pesquisa do primeiro instituto, não?

    1. Obrigado. Parece que sim, que Vox Populi é mais eficaz. A confirmação disso teremos comparando as últimas pesquisas de setembro com os resultados do 1º turno.

  2. É isso. Nesse fm de semana tb fiz alguns graficos pra tentar visuaizar melhor aonde se encontram os eleitores de cada grupo.

    Mas fiz, propositalmente, com os dados do datafolha antigo. Estou postando mais tarde.

  3. Gunter, adorei as informações. Sou Amany, sobrinho de Paulo e conheço o blog agora. Tendência ou não, tá na cara o que acontece com essas pesquisas. Tais números dizem mais que palavras.

    1. Oi Amany, tudo bom? Muitas leituras? Que bom que passou por aqui. O Paulo deve me visitar dia 17. Um grande abraço!

  4. Aproveitando, e respondendo a sua questão:

    Candidaturas talvez possam ser vistas como transatlânticos, ou nuvens. Se não houver um rebocador forte (fato novo) ou mudança súbita de ventos, não mudam de curso nem de velocidade facilmente. Sabemos que ainda vão ocorrer campanhas e debates, mas isso vai ser mais impactante do que tudo que a sociedade viveu nos últimos meses e anos?

    Acho que uma das grandes sacadas (acho que foi intuição e necessidade de consolidar o nome da Dilma) do Lula foi antecipar o calendário. Além de matar o fogo-amigo, fez com que a mídia gastasse toda a munição que tinha. Agora vai ter que inovar. Tudo pode acontecer.

    Mas ele como estrategista, fez o que ele podia fazer. Eu acho que não vai acontecer nada de novo. E o que ocorrer vai ser insignificante dada a saturação atual.

    1. Também acho que não vai ocorrer nada novo. Oscilações aqui e ali.
      Rapaz, vi o post de hoje, mas verei com mais calma depois. Está muito interessante, parabéns!

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