Requiém para a "Nariz Gelado"


“Requiem aeternam dona eis”

Narizito se foi. Não a culpo. Se fosse tucano já teria pulado do barco faz tempo. Mas acho que o post dela é uma boa análise da situação dos tucanos. Ok, estou exagerando. Ela viaja feio qdo diz que a “Dilma é ruim de discurso“, que o “Serra vai se sair bem nos debates” e que o “PAC é ficção“.

Mas isso é normal em quem só assiste o JN e lê a FSP. É só sair da frente do computador e ter algum tipo de vida social que se vê obras por todos os lados. Só ir ao shopping ao invés de ficar lendo o Reinaldo Azevedo pra ver a economia bombando. É só parar de ler o feed o Instituto Millenium e descer do apartamento pra correr e perguntar pra um transeunte qualquer pra se ter ideia do que os eleitores pensam. A meu ver é isso que, no fim das contas, falta aos tucanos.

Agora ironia do destino mesmo é logo abaixo ter um post em que diz
que o Serra não iria responder aos ataques (???) pq era “experiente e
estava bem assessorado
” e que “a
agressividade era privilégio do segundo colocado nas pesquisas
“.
O mundo dá voltas não?


Mas não discutir o post dela. Em respeito à liturgia, vou manter o clima e ficar assim, taciturno, como sempre fico nesses momentos solenes (nem que seja por uma fração de segundos).


Nariz Gelado

27 de junho de 2010
Hora da verdade

Alguns persistentes – obrigada pela fidelidade -perguntam por que eu parei de postar.

Antes de qualquer coisa, há a questão do tempo. Neste último ano, um ritmo mais intenso de trabalho não está me permitindo atualizar o blog como antes. Também é verdade que o Twitter caiu como uma luva para este novo momento. Aqueles 140 toques podem não permitir profundidade, mas são melhores do que o silêncio absoluto. Mais do que isso: permitem que se faça muitas coisas em pouco tempo – opinar, saber dos amigos e debater brevemente a pauta do dia.

Mas o que realmente está pegando é que eu não tenho coisas muito agradáveis para dizer. Na verdade, sei que o que eu tenho a dizer vai desagradar a grande maioria dos leitores. Medo de perder, leitores? Não. Se fosse isso, era só seguir escrevendo elogios oposicionistas feito uma matraca – e, acreditem, eu sei fazer isso como poucos. O que eu me pergunto é se vale à pena perder as raras horas de lazer para comprar briga com quem superestima o poder da internet na conquista de votos – e que, por isso mesmo, sugere que a gente dê uma de avestruz e não aponte publicamente os erros da oposição.

Eu não tenho vocação para avestruz. Criei este blog em março de 2003 para dizer o que penso. E é assim que ele vai continuar. Mais lento em épocas em que não estou com tempo ou com paciência. Mas jamais servil a qualquer linha de pensamento que não seja a minha – ou a reboque de certa militância oposicionista que, pelo que ando vendo por aí, virou torcida apaixonada. Incapaz de ver os erros do time, mesmo quando as derrotas estão se acumulando. Preferem chorar sobre o leite derramado no final do campeonato do que apontar agora os erros que poderiam mudar o destino do time.

E porque não nasci para avestruz – e, mais ainda, porque concordo com a máxima rodriguiana de que “toda unanimidade é burra” – dedico as linhas abaixo a todos os leitores: aos que reclamam do meu silêncio e aos que preferem que eu me cale.

Vamos às verdades

1 – Sem Aécio Neves na chapa, perdemos Minas Gerais. E esqueçam as histórias da carochinha. Se o PSDB não conseguiu enquadrar o mineiro para aceitar a vice-presidência não conseguirá enquadrá-lo a trabalhar por um resultado diferente daquele obtido no segundo turno de 2006: 66% dos votos daquele estado foram, então, para Lula.

2 – Sem Minas, é prioritário buscar um vice que traga votos novos. Quem é ele? Não sei. Mas Álvaro Dias não é. Quem vota em Álvaro dias já votaria em Serra de qualquer maneira. Estou dizendo isso porque quero um vice do DEM? Não. Vou repetir para que fique bem claro: quero Aécio de vice – chapa pura, pois não? Tenho algo contra Álvaro Dias? Também não. Acho que é um dos bons quadros do PSDB. Mas ele não serve para vice porque oferece uma sobreposição de votos quando é preciso conquistar votos novos. É fácil falar isso sem indicar outro nome? Não, não é fácil. É triste. Principalmente quando penso que a obrigação de indicar outro bom nome que não Aécio nunca foi minha – e que quem deveria fazê-lo, ao que parece, não se preocupou com o assunto ao longo dos últimos quatro anos.

3 – Dilma é ruim de discurso? É péssima. Qual a influência concreta disso nas urnas? Quase insignificante, meus caros. O programa do PT na TV e as negativas de participar de debates e entrevistas já apontaram a linha a ser seguida pelo marketing da candidata: pouca exposição. O programa vai ser muito Lula – esqueçam o TSE, ok? -, muitas realizações de governo, muito jingle e pouca Dilma. E os debates? Claro, claro… Serra vai dar um banho nos debates. Mas informem-se sobre os índices de audiência dos debates – principalmente depois do terceiro bloco, quando a coisa realmente esquenta – , antes de contar com eles para virar qualquer tendência. Dilma gaguejando no Jornal Nacional funciona como piada interna da oposição. Mas desconfio que não lhe tire um voto.

4 – Dilma ontem agradou aos socialistas, hoje às socialites? Uma vergonha do ponto de vista ideológico, né? Tema sensacional para inflamar o debate em blogs e fóruns oposicionistas. Mas, no que diz respeito às urnas, é ponto positivo para ela que aprendeu, com louvor, a lição do “mestre” Lula: eleição se ganha dizendo o que as pessoas querem ouvir. Uma ideologia por dia é receita de sucesso eleitoral no Brasil. Não adianta chorar. Tem é que aprender como ser cara-de-pau assim – e como fazer isso melhor do que eles.

5 – As obras do PAC são fictícias? São. Mas espero que não deixem de falar disso nos programas. E não adianta só falar. Tem que ir até lá, mostrar quão fictícias elas são, DESDE A PRIMEIRA SEMANA DE PROGRAMA. Porque Dilma vai mostrá-las quase concluídas, lindas, bem filmadas. Aquela célebre frase de José Serra é uma síntese maravilhosa do jeito tucano de fazer campanha: “Quanto mais mentiras eles disserem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles”. É um alento aos corações cansados de tanta baixaria eleitoral, certo? Mas, sinto dizer, sem qualquer efeito eleitoral se quem mente for mais competente em vender o peixe do que quem fala a verdade. A verdade não tem poder, por si só, de operar milagres. É por isso que o vulgo diz: “mais cedo ou mais tarde, a verdade aparece”. Na política, normalmente a verdade aparece mais tarde – tarde demais, arrisco dizer.

6 – O PT mente bem. Usa verossimilhança para mentir. Aprendeu, depois de perder três eleições presidenciais, que só se ganha eleição no Brasil mentindo. Querem ganhar falando a verdade? Ok, isso é mesmo maravilhoso do ponto de vista da ética – embora eu tenha minhas dúvidas sobre a concreta possibilidade de tal coisa funcionar. Mas, se insistem, acho bom encontrarem uma fórmula milagrosa para tornar a verdade mais atraente que a mentira. Estou sendo cínica demais? Pode ser. Fiquei assim depois de ver Geraldo Alckmin vestir uma jaquetinha cheia de logotipos para combater a boataria mentirosa das privatizações. Desculpe se a cena não me sai da cabeça. Mas é o exemplo mais acabado de como a verdade mal explorada é, por si só, impotente diante de uma mentira brilhante.

7 – Mentira, verossimilhança e estética luxuosa. Eis uma coisa que os marqueteiros petistas aprenderam como poucos. Desde o “advento” Duda Mendonça, eles sabem que ninguém quer ver pobre desdentado na televisão. A estética “jornalismo verdade” não conquista votos. Mais uma vez, vamos voltar a 2006: o pobre, nos programas do Lula, era bonitinho, bem arrumado, penteado e banhado. As imagens, coloridas ao exagero. Nunca me esqueço de uma fabriqueta de fundo de quintal – acho que de roupas para bebês – que foi mostrada com tamanha cor e capricho de produção que mais parecia a “Fantástica Fábrica de Chocolates”. Verdade? Não. Verossimilhança. O segredo é oferecer uma imagem na qual o pobre queira se projetar – e não o mundo cão que ele vê todos os dias no Jornal Nacional. Por que estou trazendo o tema? Porque tive calafrios ao assistir o último programa do PSDB. Tecnicamente perfeito, discurso afiadíssimo, o maldito do programa repetia a estética de 2006. Se não estiverem escondendo o jogo e insistirem nisso durante a campanha, estamos perdidos.

8 – Finalmente, as pesquisas. Há maracutaias? Há. Mas, queiram me desculpar, não há tanta maracutaia assim. Uma negociaçãozinha de margem de erro aqui e acolá até aceito. Dirigir um pouco a pesquisa mediante a escolha de determinadas cidades e bairros, ok. Agora, dizer que todos os institutos estão vendidos é um pouco demais para a minha cabeça. É inegável que Dilma cresceu. E as razões são óbvias: qualquer criatura minimamente esclarecida sabe que um governo com 70% de aprovação sugere uma eleição de continuidade. Brigar contra esta realidade é uma rematada burrice – principalmente quando ela se apresenta estável há mais de quatro anos. Achar que Lula não transferiria votos para Dilma foi uma aposta inacreditável de tão amadora. Portanto, se eu quisesse realmente ganhar esta eleição, partiria do pressuposto de que Dilma cresceu e que ela e Serra estão tecnicamente empatados. E trataria de descobrir os motivos da evidente queda de José Serra. Ficar dizendo que ela não existe é loucura. E, pelo-amor-da-santinha esqueçam o tracking. Muita gente acha que, em 2006, se divulgava tracking fictício favorável a Alckmin só para animar a torcida. Não é verdade. O que aconteceu, então, é que o tracking nunca batia com as pesquisas dos institutos. Portanto, não se fiem nesta ferramenta. Não me interessa se é porque ela é “um retrato de momento” e “não pode ser comparada com as pesquisas tradicionais”, blá, blá, blá”. Esqueçam esta merda porque ela não é confiável.

Tendo dito tudo o que penso a respeito da campanha presidencial tucana, aviso que não pretendo mais voltar ao tema. Vou, no máximo, remeter links para este post sempre que considerar adequado – e é por isso que os parágrafos foram numerados. Não tenho tempo, nem paciência, para ficar apontado os mesmos erros de quatro em quatro anos. Vou seguir, claro, falando de política. Mas de estratégia de campanha? Esqueçam. O PSDB que tome suas decisões e faça suas escolhas. De minha parte, vou me limitar a votar em Serra, pedir votos para ele e torcer para que, em outubro, a gente possa comemorar uma vitória.

5 comentários sobre “Requiém para a "Nariz Gelado"

  1. Wow!

    Alguém atribuiu nota 1. Não colocarei minha nota para não distorcer a média. Explico, ambas as posições são justificáveis. O texto dela é um emaranhado de autoengano, é muito bem escrito e com estilo, mas a matéria-prima (a ideia por trás) não tem substância. Não há informação nova, jamais iria atrás desse blog e se fosse para atribuir nota na fonte também colocaria 1 (como alerta e ajuda à campanha de Serra.)

    Mas buscar o estado da arte do pensamento tucano e trazê-lo para cá merece um 5. Torna-se informação saber que ainda há algo de autocrítica ocorrendo, mas misturada com fantasia.

    Fazendo analogia com o dia de hoje: a campanha de Dilma parece estável, segura e crescente como a da Holanda na copa. A campanha de Serra pareceu com a do Brasil. Neste momento estamos logo após o gol contra e um pouco antes da expulsão sofrida.

  2. É muito doido mesmo. Cada link recomendado…

    Experimente também descer alguns posts e ler diagonalmente. É como o mundo visto pelo espelho.

  3. “Só ir ao shopping ao invés de ficar lendo o Reinaldo Azevedo pra ver a economia bombando.”

    Como assim? Tucanos vão ao Shopping (e aos aeroportos) e colocam a culpa daquilo estar abarrotado de gentinha em FHC.

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