Marcio Zimmermann do MME: "Belo Monte será viável e lucrativa"


“…já sobre a crítica situação da CELG…”

Sobre a situação crítica da Celg:

DINHEIRO – Nesse novo papel da Eletrobras, tem havido muita crítica à compra da deficitária Celg, de Goiás.

ZIMMERMANN – O caso da Celg é complexo e está sendo analisado. Nas próximas semanas deve haver uma solução. A Eletrobras fez uma avaliação de como está a empresa porque a Celg tem um elevado endividamento com fundos setoriais. Por isso há dois anos não tem reajustes. Está numa situação bastante difícil. O que se está buscando é analisar se há uma forma de equacionar o problema. A Aneel começou estudos mais profundos para avaliar a situação.

“Belo Monte será viável e lucrativa” – ISTOÉ Dinheiro

Márcio Zimmermann, ministro de Minas e Energia

“Belo Monte será viável e lucrativa”“Belo Monte será viável e lucrativa”

O leilão da usina hidrelétrica de Belo Monte, homologado há poucos dias pelo governo, ainda provoca polêmica. Alega-se que o preço oferecido pelo consórcio vencedor, de R$ 78 por MW/h, seria baixo demais para viabilizar a obra de R$ 19 bilhões.

Por Guilherme Queiroz

No entanto, o novo ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmerman, garante que o projeto será viável e lucrativo para os investidores do consórcio Norte Energia, liderado pela Chesf. Em entrevista à DINHEIRO, ele revelou os bastidores da batalha. Disse que, além do respaldo do governo, o grupo vencedor guardava na manga uma pequena alteração no projeto original, capaz de reduzir significativamente o custo da obra. Em vez de escavar dois canais no leito do rio Xingu, apenas um – mais fundo – será aberto. “Isso reduz em 20% a escavação necessária. Isso é um ganho alto de custo”, afirma Zimmer-mann. Leia a seguir sua entrevista, que aborda ainda o papel das energias renováveis.

DINHEIRO – Um estudo do IBGE aponta que a energia elétrica no Brasil é uma das mais caras no mundo. Isso pode mudar?

MÁRCIO ZIMMERMANN – Há dois aspectos que precisam ser analisados. A tarifa na geração de energia é uma das mais baixas no mundo, na ordem de US$ 40/kW, em média. Mas, quando se entra na cadeia, há aspectos a serem considerados: o País tem distorções econômicas, sociais e regionais muito fortes. Estão embutidos na tarifa recursos que vão para o consumidor de baixa renda, para o Programa Luz para Todos e outros itens que são importantes para um país como o nosso. Temos uma tarifa que, no suprimento, é uma das mais baratas do mundo, mas que, na ponta, está na média da de outros países. Se considerarmos a tarifa média, não é a mais cara do mundo.

DINHEIRO – A Europa tem feito investimentos massivos em energia solar. O que explica a ausência dessa fonte nos próximos leilões?

ZIMMERMANN – Imagine que a fonte solar hoje é dez vezes mais cara que a hidrelétrica, por exemplo. Se já temos uma tarifa que é apontada como alta no País, como seria partir de um custo de produção de US$ 400 por kW, se a energia gerada em hidrelétricas sai a US$ 40 por kW? Seria impossível a sociedade suportar. O custo é muito alto.

DINHEIRO – E qual será o papel da energia nuclear nos próximos 20 anos?

ZIMMERMANN – O Brasil tem uma das maiores reservas de urânio no mundo e ela será usada. Nós avançamos para a Amazônia, mas os novos reservatórios das hidrelétricas têm pequenas áreas de alagamento. Significa que teremos de aumentar as nossas “caixas d’água” e uma das formas é com usinas térmicas, como a nuclear. O Plano Decenal de Energia para 2030 já indicava que trabalharíamos para acrescentar de quatro a oito usinas. Mas, num programa nu-clear, é preciso ter em mente que qualquer usina decidida hoje só entrará em operação daqui a nove anos.

DINHEIRO – Há obstáculos para a consolidação desses planos?

ZIMMERMANN – O importante para o setor elétrico é que o Brasil detém a tecnologia do ciclo do urânio. Mas não adianta construir novas centrais e ficarmos com uma instabilidade de suprimento de combustível. Então, antes, precisamos ter escala industrial para produzirmos urânio enriquecido. Portanto, as-sim que Angra 3 entrar em operação, em 2015, já precisamos ter essa planta em funcionamento. Esse investimento está sendo priorizado.
 
Hidrelétrica de Itaipu, maior usina brasileira. “A decisão de pagar mais ao Paraguai pelos excedentes de Itaipu foi de natureza geopolítica”

DINHEIRO – O consórcio Norte Energia, vencedor de Belo Monte, ainda precisava definir os autoprodutores para justificar o baixo lance oferecido. Isso já foi resolvido?

ZIMMERMANN – O que posso dizer é que a informação prestada pela Eletrobras é de que já fechou com diversos autoprodutores da própria Região Norte. Isso será muito importante para incentivar projetos por lá. Isso traz efeitos muitos positivos porque o Pará é um Estado com potencial mineral muito grande a ser explorado, onde também se pode agregar valor àqueles recursos naturais. É importante que parte dessa energia gerada contribua para o desenvolvimento do Estado.

DINHEIRO – As empresas se queixaram de que as taxas de retorno de Belo Monte seriam muito baixas. A entrada da Eletro-bras dá mais segurança aos investidores?

ZIMMERMANN – Houve o leilão com dois consórcios. Ambos bidaram, ou seja, deram lance. Um apresentou um deságio pequeno e o outro, um maior, e venceu. É natural o grupo Eletrobras participar, como participou nos projetos do rio Madeira e da construção das linhas de transmissão. Ela participa porque é um dos maiores atores no setor, competindo com o privado. A otimização de custos faz parte do jogo. As propostas são baseadas naquilo que o consórcio pode fazer. No caso do vencedor (Norte Energia), sabe-se que seu projeto prevê apenas um canal, o que reduz em 20% a escavação necessária. Isso é um ganho muito grande de custo. Isso é o que fez termos competição. Todos tinham suas otimizações na manga. Em Belo Monte, venceu o mais criativo.

DINHEIRO – Ainda há a preocupação de os fornecedores brasileiros perderem a concorrência para empresas chinesas, que têm apresentado custos baixos?

ZIMMERMANN – Quando fizemos o leilão de energia eólica, havia essa discussão. Na época, fizemos uma desoneração tributária para a indústria nacional, que funcionou muito bem. Deu condições de a indústria disputar em pé de igualdade. O consumidor se beneficiou da concorrência sem haver o desmonte de parque industrial. No caso de hidrelétrica, é a mesma coisa. Temos um dos maiores parques fabris de geradores hidrelétricos do mundo e era importante que tivessem condições de competir. Então imaginamos que há condições de disputar com quem vier de fora do País.

DINHEIRO – Na criação da chamada super Eletrobras, falava-se da intenção de investir em projetos nos países vizinhos. Que oportunidades estão em vista?

ZIMMERMANN – A Eletrobras tem um longo caminho ainda. Não podemos esquecer que a empresa, no início da década de 1990, era maior que a Petrobras. O fato de o governo deixá-la competir no mercado de forma muito saudável, ora ganhando, ora perdendo, é um sinal muito bom de que o modelo dá certo. A empresa tem uma área internacional que prospecta alternativas de bons negócios, já que há uma tendência de se tornar um ator internacional. Isso implica projetos de fronteira, possível aquisição de subsidiárias. Mas essa é uma questão ainda em análise.
 
“O Brasil ainda não tem energia solar porque custa dez vezes mais”

DINHEIRO – Nesse novo papel da Eletrobras, tem havido muita crítica à compra da deficitária Celg, de Goiás.

ZIMMERMANN – O caso da Celg é complexo e está sendo analisado. Nas próximas semanas deve haver uma solução. A Eletrobras fez uma avaliação de como está a empresa porque a Celg tem um elevado endividamento com fundos setoriais. Por isso há dois anos não tem reajustes. Está numa situação bastante difícil. O que se está buscando é analisar se há uma forma de equacionar o problema. A Aneel começou estudos mais profundos para avaliar a situação.

DINHEIRO – O licenciamento ambiental tem sido um constante obstáculo a projetos do setor elétrico. A energia nuclear pode vir a ser alvo desse entrave?

ZIMMERMANN – Os estudos ambientais hoje são peças completíssimas. Mas temos um problema, o aspecto ideológico. Não queriam dar a licença do rio Madeira porque algumas pessoas diziam, ideologicamente, que não se deveriam fazer usinas na região da Amazônia. Lá fora, ONGs diziam que a Amazônia inteira é um santuário. Isso é uma falsa tese. Na verdade, quando fizemos as usinas do Madeira, mostramos que há baixo impacto ao meio ambiente. O reservatório usa, praticamente, a calha do rio. Fizeram um drama em relação ao bagre, enquanto que em Itaipu os peixes sobem 120 metros de corredeiras. No Madeira, são apenas 16 metros.

DINHEIRO – Disputas em torno de licenciamento podem voltar a se repetir?

ZIMMERMANN – O Brasil tem uma das legislações ambientais mais rigorosas do mundo. É o que o estudo do Banco Mundial mostrou: realmente, o tempo que se leva no Brasil é bastante grande. Mas quem disser que se fazem no Brasil usinas que não levam em conta os aspectos ambientais está mentindo. O Brasil é internacionalmente reconhecido por ter requisitos ambientais altos.

DINHEIRO – O decreto que autoriza estudos de potencial energético em áreas de conservação não cria mais polêmica?

ZIMMERMANN – O decreto era para ter saído há muito tempo. Antes, não se podia nem estudar uma área ou a proximidade de uma área. Temos um caso saudável na usina de Tabajara, em Mato Grosso, em que se aproveitou uma área que não mantinha mais as características naturais e acrescentamos outra maior que não estava descaracterizada. É um grande jogo de ganha-ganha.

DINHEIRO – A renovação das concessões de hidrelétricas que vencem em 2015, como a da Cesp, ficará para o próximo governo?

ZIMMERMANN – Ainda faltam cinco anos para vencerem as primeiras. Existe uma lei, um marco que define isso. Em nenhum lugar do mundo o investidor acha pouco tempo saber que daqui a cinco anos termina a sua concessão. Existe um contrato de concessão e ele tem de ser honrado até o último dia. Não existe alternativa. É melhor fazer no início do outro governo porque a sociedade terá de decidir. Renovando ou licitando, tem uma coisa importante que temos de cumprir: não se pode causar distorção no mercado.

DINHEIRO – Como justificar a proposta de elevar o preço pago ao Paraguai pela cessão da energia excedente, US$ 240 milhões adicionais por ano? Não é uma conta salgada?

ZIMMERMANN – É uma decisão geopolítica. O presidente, como uma forma de ajudar o país vizinho, decidiu ingressar com mais recursos no Paraguai, sem onerar o consumidor brasileiro. É o contribuinte que vai arcar com essa diferença, não o consumidor de energia elétrica. É um item que o Estado considera importante em sua agenda geopolítica.

DINHEIRO – O consumidor de energia e o contribuinte não são a mesma pessoa? Não estamos assumindo um compromisso financeiro pesado, que não é do País?

ZIMMERMANN – Esse fator de multiplicação já foi modificado várias vezes. Não é a primeira vez. É uma forma de ajudar um país vizinho, que é sócio e num empreendimento que tem trazido muitos bons resultados para o Brasil.

4 comentários sobre “Marcio Zimmermann do MME: "Belo Monte será viável e lucrativa"

  1. Como se vê, neguinho fala dos bagres, mas nunca dos bugres. é como se não estivessem ali. e lá se vai mais um conjunto de populações indígens se lascar (como nos últimos 510 anos) sem sequer serem considerados como alvo dessa usina. Para ministro, economistas etc, é uma questão de viabilidade técnica e de proteção ambiental (salvem-se os peixes): os índios não merecem nem uma referência. E tanta gente boa achando que vale a pena lascar mais um pouco as populações indígenas em prol da segurança elétrica do país. Até uns 50, 60 anos atrás, neguinho distribuia roupa com varíola para acabar com “entraves indígenas”. Agora se constrói hidroelétricas: dá no mesmo. E quem é a favor, infelizmente, é conivente, mesmo com as melhores intenções.
    Igor

  2. Igor,

    Eu acho que eu entendi as criticas, mas qual a solução? Como conciliar no curto prazo, a demanda por mais energia (algo natural do processo de crescimento economico – e ai inclusão social de milhões de brasileiros, melhorias na educação e saude, etc) e a historia desses indios? Que são irmãos brasileiros tb, merecem sua realidade ser levada em conta. Mas esse modelo devorador de energia, não tem condições de ser alterado facilmente (se fosse os EUA não optariam por invadir o Oriente Medio pra buscar petroleo. O Obama que o diga né?) a não ser no Longo Prazo.

    Eu sinceramente não sei, falta alguém por tudo isso papel e fazer um grande debate sobre isso. Pq, a meu ver, Belo Monte é só o começo né?

    Não sei se o Zimmermann não tem o que dizer sobre como lidar com essas populações, lembre-se que na verdade essas entrevistas duram horas, e depois são editadas. Então se o “pauteiro” da revista já estiver com um tema na cabeça já era.

    PS.: Postei a entrevista principalmente por causa da citação do problema aqui da região com a Celg, depois por causa da opinião sobre Belo Monte.

  3. Os índios já têm a Raposa Terra do Sol, com muita intervenção do exterior. Eles não precisam da gente.😉. Porque tem uns Ianques aí que bancam certas reivindicações por trás dos panos. Enfim, acho que o Brasil tinha que ter mais controle das regiões indígenas e começar a fazer a exploração delas e modo de manejo sustentável, que seria basicamente dar continuidade ao que já fazem, só que dando prioridade à soberania nacional, com pesquisadores nacionais, num território nacional, desenvolvendo tecnologia brasileira a ser utilizada pelo governo, empresas e cientistas brasileiros. Mãs faltam recursos e investimentos não previstos já pela agenda neoliberal do GOverno FHC que sucateou e privatizou tudo, só não a mãe deles, né? (se bem que ainda tenho as minhas dúvidas…).

    Sério, a comunidade internacional é tapada, (isto quando não se rendem, mesmo sem querer, aos interesses ianques), o governo é corrupto, o que fazer então? Ó céus, A Amazônia devia ser tratada como um cobertor: Usar, lavar, passar, tirar uma parte de vez em quando, pôr de volta, mas deixar lá, sempre cobrindo o que deve. E quem deve fazer isto é a nossa República. Só que, infelizmente, não há investimentos em bases militares por lá… (que poderiam muito bem ser feitas de modo subterrâneo, com os soldados sempre investigando tudo o que se passa, num raio de 30 km cada de cada base…com um grupo de tropa de cerca de 10 soldados por base, com troca de turnos e bases a cada mês – mas isto é só uma sugetão pra responder à política do Big Stick velada que temos hoje, por meio da Colômbia)

    Também não há investimentos o suficiente para que cientistas e empresas irem lá, se atraquem para dar um jeito de produzir e desenvolver com o impacto mínimo possível. =/. E os que têm ficam em entraves bobocas do tipo: (com todo respeito, gay mode on)”ah, eu sou do Greenpeace, você não pode fazer uma usina hidrelétrica pq senão você vai dificultar a vida dos peiXinhos”(com todo respeito, gay mode off). Grandes bosta: a Itaipu acabou com sete quedas que eram um ponto turístico tão legal quanto a foz do Igauçú, e os osteíctes continuaram lá, nadando livres, alegres, subindo escadas ou comportas, a fauna e flora local foram remanejadas e hoje há um dos maiores parques de reserva da América do Sul. O que teria sido melhor? Deixar tudo como tava e esperar aquilo lá virar uma grande favela, com a principal atividade sendo o transporte de muamba, ou fazer uma hidrelétrica, proteger as margens, remanejar a fauna e flora locais, dar emprego pras pessoas e ainda gerar energia que sustenta metade do Brasil?

    Quem é contra a usina de Belo Monte é contra o Brasil.

  4. Não há nenhum 'entrave indígena', muito menos se vai lascar populações. Aliás ela vai ser muito menos afetada que os ribeirinhos de Santarém. Como não sou um santuarista, acho que preservando suas autonomia e condições de vida, eles podem e devem dar parte do sacrifício para que se resolva um problema nacional.

    Vamos lembrar que Balbina, com todos os seus comprometimentos sócio-ambientais, num tempo em que a sociedade se preocupava pouco com a existência da população indígena, ajudou a preservar o grupo Waimiri-Atroari. E olha que eles foram totalmente desalojados e transferidos para outra área. o que não ocorre com Belo Monte.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s