As razoes do Pentagono e as reservas minerais do Afeganistão


“Estou procurando esse mapa, numa resolução maior”

Qdo fiz o post a respeito dos recursos minerais do Afeganistão, já imaginava que isso poderia ser usado para permitir o apoio da opinião pública e, principalmente, dos congressistas americanos na hora de avaliar os gastos da guerra. Afinal, recebi a notícia inicialmente via twitter da The Atlantic.

O que não sabia, era que os recursos minerais do Afeganistão foram mapeados, inicialmente pelos Russos. E que o potencial já havia sido divulgado, desde o inicio da guerra.

Então segue abaixo a noticia do Asia Times online, que recebi traduzida via email da Catia Fittipaldi mas que já está online no Azenha. Vamos continuar analisando a situação.

De qualquer forma, meus temores continuam. Isso se não se agravam a cada dia.

Pentágono usa New York Times. De novo | Viomundo – O que você não vê na mídia

17 de junho de 2010 às 17:08

Pentágono usa New York Times. De novo

Pentágono, guerrilha Talibã & lápis-lazúli…

Os motivos do New York Times

16/6/2010, Jim Lobe, Asia Times Online –

http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/LF16Df03.html

WASHINGTON. O timing da publicação de grande reportagem no New York Times sobre enormes jazidas de minerais preciosos ainda não exploradas no subsolo do Afeganistão está despertando curiosidade e muitas perguntas sobre as intenções do Pentágono, que distribuiu a informação.

Dadas as notícias cada dia mais negativas sobre a situação no Afeganistão – e sobre a estratégia dos EUA –, analistas creem que a matéria de primeira página visa a reverter o sentimento que cresce na opinião pública, de que a guerra não vale o que custa.

“Que melhor meio para lembrar todos de que o país tem brilhante futuro a esperar – e “todos”, aí, significa os chineses, os russos, os paquistaneses e os norte-americanos –, do que requentar e divulgar informação correta (mas não desconhecida) sobre a riqueza potencial do Afeganistão?” escreveu Marc AmBinder, editor político da revista The Atlantic, em seu blog.


“O modo como a história foi apresentada – com nada menos que citações de declarações oficiais já publicadas do comandante-em-chefe do CENTCOM [general David Petraeus] – e a suspeita promoção de um sub-do-sub assessor da secretaria de Defesa ao cargo de subsecretário de Defesa [Paul Brinkley] sugerem operação ampla e planejada de propaganda e informação com o objetivo de influenciar a opinião pública sobre o curso da guerra” – acrescentou AmBinder.

O artigo – cerca de 1.500 palavras[1], baseado quase completamente em fontes do Departamento de Estado e publicado como matéria principal da 2ª-feira de “Early Bird”, compilação das matérias consideradas mais importantes para a segurança nacional que o Pentágono distribui diariamente – informava que o Afeganistão tem reservas não exploradas de minérios e pedras preciosas avaliadas em cerca de 1 trilhão de dólares. Aí incluídos “imensa s reservas de ferro, cobre, cobalto, ouro e metais industriais críticos, como o lítio” – nas palavras do jornal.

O produto interno bruto anual do Afeganistão é de cerca de 13 bilhões. O comércio ilegal de narcóticos exportados é estimado em cerca de 4 bilhões/ano.

“Memorando interno do Pentágono” entregue a James Risen, que escreve no Times, prevê que o Afeganistão poder-se-ia converter na “Arábia Saudita do lítio” – matéria prima essencial para a fabricação de baterias para laptops e telefones celulares [Blackberrys]”.

“Há aqui espantoso potencial”, Petraeus disse a Risen em entrevista, no sábado. “Há muitos ‘se’, é claro, mas penso que são potencialmente muito, muito significativas”, disse, sobre as conclusões de um estudo levado a cabo por “pequena equipe de oficiais do Pentágono e geólogos norte-americanos.”

O governo do presidente Hamid Karzai do Afeganistão, cujos recentes esforços para iniciar um processo de reconciliação com os guerrilheiros Talibãs foram criticados pelo Pentágono, pegou o pião na unha. Em conferência de imprensa arranjada às pressas na 2ª-feira, o porta-voz de Karzai, Waheed Omar, disse que a matéria de NYT trazia “as melhores notícias que recebemos, há muitos anos, no Afeganistão”.

Outros analistas, contudo, sugerem que as notícias sobre a riqueza do subsolo afegão nada têm de novidade. Karzai falou sobre o assunto em janeiro; disse que “os recursos minerais do Afeganistão chegam a 1 trilhão de dólares”, segundo a rede Bloomberg.

Como observou Blake Hounshell, editor-chefe da revista Foreign Policy, o Serviço de Geologia dos EUA também já publicou inventário detalhado dos recursos do subsolo afegão, sem considerar o petróleo, pela internet, em 2007; o mesmo fez também o BSG, British Geological Survey. Nos dois casos, os relatórios valem-se das pesquisas desenvolvidas pela URSS, durante a ocupação do Afeganistão nos anos 1980s.

Stan Coats, ex-geólogo-chefe da BGS, que pesquisou o subsolo afegão durante quatro anos, acrescentou uma nota de precaução. “É preciso ainda trabalhar muito, antes que se possa afirmar com segurança que um ou outro minério possa ser extraído em projeto comercialmente viável”, disse ele ao jornal The Independent. “Temos ainda de trabalhar muito, inclusive perfurar algumas áreas, para saber se esses depósitos têm condições de serem explorados e se nos interessa explorá-los”.

Mas, acrescentou ele, apesar de a situação de segurança degradar-se a olhos vistos, ainda há áreas relativamente seguras – “e, portanto, há perspectiva para muito trabalho, ainda, por lá”.

O valor de 1 trilhão de dólares, de que fala o New York Times, é simples atualização das estimativas já existentes do valor de cada minério, para as cotações de hoje, segundo Hounshell.

Por tudo isso, o principal problema, para muitos observadores, é por que o artigo – presente e dominante em praticamente todos os noticiários sobre política internacional, em todo o ciclo de notícias da 2ª-feira – apareceu publicado agora no NYT?

O memorando do Pentágono parece ser esforço para atrair o interesse internacional para o setor de mineração, antes do leilão, nas próximas semanas, da mina de ouro (1,8 bilhões/tonelada) em Hajigak, cujo valou pode chegar a 5-6 bilhões, segundo o Times britânico. O desenvolvimento do maior depósito conhecido de ferro foi interrompido pela guerra e fracassou, em mãos de instituições frágeis.

O memorando do Pentágono coincidiu também com uma visita à Índia, de Wahidullah Shahrani, o novo ministro afegão de Minas, para solicitar que se apresentem propostas ao leilão da mina de Hajigak, depois de a concorrência planejada ter sido cancelada ano passado por falta de interessados internacionais, conforme notícias do Times. Shahrani foi nomeado ano passado, com apoio dos EUA, em janeiro, depois de seu antecessor ser demitido sob acusações de ter recebido suborno de uma mineradora chinesa – acusação que o ex-ministro rejeitou.

Funcionários afegãos e ocidentais querem que haja várias propostas no leilão da mina de Hajigak, para evitar que os chineses consigam ganhar controle sobre os recursos naturais afegãos, mediante propostas pesadamente subsidiadas por Pequim, noticiou o Times. O jornal registra também que empresas europeias e norte-americanas teriam dito que Pequim usa métodos ilegais para conseguir contratos.

Em 2007, a mineradora estatal Metallurgical Corp of China obteve licença para explorar as minas de cobre de Aynak, a mais rica jazida desse metal no Afeganistão, cuja mineração estava interrompida pela guerra desde os anos 1980s, segundo a agência Bloomberg. Essa jazida guardaria um total estimado de 11 milhões de toneladas de cobre, segundo estimativa, em 2008, da Jiangxi Copper, parceira naquele projeto, citada pela mesma rede.

A existência dos minérios também levanta questões sobre motivos que outros países possam ter para envolvimento no conflito afegão. Os afegãos reclamaram que o ocidente está à caça de seus recursos naturais, exatamente como muitos iraquianos muitas vezes disseram que a invasão pelos EUA explicava-se pela ambição de controlar o petróleo (115 bilhões de barris, da reserva já conhecidas, terceira maior reserva nacional, depois só de Arábia Saudita e Irã).

Risen, escrevendo para o New York Times, sugeriu resposta à questão do interesse do Pentágono em requentar o tema nesse momento: “funcionários dos EUA e Afeganistão concordam com discutir as descobertas do subsolo, em momento difícil da guerra no Afeganistão”.

De fato, o número de baixas de soldados dos EUA e da OTAN aumentou muito nas últimas semanas; a ofensiva dos soldados antiguerrilhas que já dura quatro meses, para “limpar, chegar e ocupar” a região estratégica em torno de Marjah na província de Helmand dominada pelos Pashtuns, parece não estar dando os resultados esperados; e ataque planejado e anunciado à e em torno da cidade chave de Candahar já foi adiado por pelo menos mais dois meses.

As últimas pesquisas mostram considerável erosão dos apoios com que Washington contava, na direção de mais guerra, em relação a oito meses passados, quando o presidente Barack Obama acatou as recomendações do Pentágono para que enviasse mais 30 mil soldados ao Afeganistão, de modo a que, nesse verão, lá estejam cerca de 100 mil soldados.

Mais que isso, também o apoio da opinião pública nacional, nos países da OTAN aliados de Washington – que jamais se aproximou da opinião nos EUA em nenhum caso – diminui rapidamente. Países da OTAN e não incluídos na OTAN, excluídos os EUA, têm cerca de 34 mil soldados no Afeganistão.

Na véspera da conferência ministerial da OTAN em Bruxelas, semana passada, o secretário de Defesa Robert Gates lembrou que Washington e seus aliados da OTAN têm muito pouco tempo para convencer a opinião pública nacional em seus países de que a estratégia contra os Talibã estaria funcionando – mensagem que, imediatamente depois, foi logo repetida também pelo comandante da coalizão no Afeganistão, general Stanley McChrystal, e também por Petraeus.

De fato, o governo está empenhado em fazer ampla revisão de sua estratégia no Afeganistão no final desse ano, e Obama havia prometido começar a retirada em julho de 2011.

Obama está sob intensa pressão da mídia de direita e neoconservadora – em muitos casos orientada diretamente por Petraeus – e por políticos republicanos, para atrasar o início da retirada.

A mesma ideia reapareceu semana passada, pela voz de um ex-assessor de Petraeus, tenente-coronel John Nagl (aposentado), especialista em luta antiguerrilha, atualmente presidente do influente Center for a New American Security.

Nagl trabalhou em íntima associação com Petraeus, na elaboração do muito elogiado Manual de Campo da Antiguerrilha, EUA-2006, que dá grande destaque à importância de atuar sobre as percepções da mídia, em toda e qualquer campanha antiguerrilhas.

“A mídia influencia diretamente a atitude dos grupos chave de opinião em relação à contraguerrilha, seu modo de operar e em relação às operações dos guerrilheiros”, escreveram lá. “Essa situação cria uma guerra de percepções entre guerrilheiros e soldados contraguerrilha, que se trava continuamente, usando a imprensa de notícias.”

Nesse sentido, a publicação, no NYT, da história da 2ª-feira, foi considerada, por muitos especialistas, como parte do esforço do Pentágono para reforçar a ideia de dar mais tempo ao esforço dos soldados que combatem a guerrilha Talibã no Afeganistão.

Em entrevista a Laura Rozen, de Politico, ontem, o ex-ministro das Finanças do Afeganistão Ashraf Ghani disse que ele próprio encomendara estudo sobre o subsolo afegão e suas riquezas. “Mas não tenho nem a mínima ideia sobre por que o relatório foi publicado na 2ª-feira” – disse ele.

[1] NYT, 13/6/2010, James Risen, “U.S. Identifies Vast Mineral Riches in Afghanistan” http://www.nytimes.com/2010/06/14/world/asia/14minerals.html?scp=2&sq=afghanistan&st=cse

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