Por que acho que PSDB não é alternativa ao PT

 

 

Eu não tenho contato com nenhum político ou quadro de nenhum partido. Apenas posso analisar com as informações que chegam, por imprensa ou blogosfera. E sabemos como podem chegar distorcidas ou incompletas.

O que se nota é que tem havido muitas análises e discussões considerando o PT e o PSDB como pólos antagônicos, como faces de uma moeda, como dois contendores equivalentes ainda que se diferenciando.

Contudo, o que penso notar, é que, ainda que aparentemente eqüidistante e imparcial, esse é um discurso que favorece, a meu ver sem merecimento, o PSDB. Apenas ajuda a frear a percepção de seus problemas, enquanto o PT progressivamente ganha a imagem daquele gato cuja cor não importa, contanto que cace os ratos…

A experiência dos últimos 15 anos é de que o PT e o PSDB se diferenciaram demais. O PSDB gostaria de ser visto como a melhor opção de governo. No entanto, na percepção da maioria dos agentes, se algum dia foi visto assim, provavelmente não o é mais. Ao contrário. E, para evitar ser visto como retrocesso ou opção inferior, é que resiste através de artigos que o apresentam como ainda alternativa ao PT.

Mas, após tanto tempo, e independentemente de sabermos que o PT também apresenta suas deficiências, fica claro que agora se trata de forças muito distintas.


A primeira coisa que salta aos olhos é o modo de fazer política. Não apenas durante o período de eleições, mas ao longo dos mandatos. O PSDB usa rotineiramente de seus contatos com a grande mídia, que abre mão de seu princípio de informar imparcialmente. De forma resumida, apenas se vê críticas às administrações PT, apenas se vê elogios às administrações PSDB. E qualquer comparação ao longo do tempo no nível federal ou no mesmo tempo entre governos estaduais mostra que essa abordagem dada pela imprensa é incompleta. A isso agrega-se a forma destrutiva, carente de ética e às vezes autofágica, de fazer campanha eleitoral.

No que se refere a relacionamento com a sociedade, as diferenças são imensas. O PSDB relaciona-se com 3 ou 4 partidos menores, com a grande mídia e, neste caso não exclusivamente, com alguns segmentos do grande capital. O PT relaciona-se com maior propriedade com tudo o demais, particularmente movimentos sociais, sindicatos, funcionalismo, comunidade científica, todos os setores produtivos.

Em relação a organicidade também parece haver diferenças. O PT aumenta continuamente seu número de filiados, 40% nos últimos oito anos. É possível que já tenha quadros que sobrepassem em número e capacitação os do PSDB. E ainda, por aceitar mais facilmente a divisão do poder, conta com o concurso daqueles de vários partidos aliados, em especial PR, PMDB, PSB, PDT ePCdB. A capacidade de dividir decisões (e candidaturas) pode ser algo recente no PT, no que pode ser criticado pelos seus integrantes mais tradicionais. Mas não seria isso sinal de renovação? O PSDB parece, por seu turno, precocemente envelhecido. Os contínuos decréscimos eleitorais, e 2010 será o terceiro seguido, levarão esse partido a ter pouco mais da metade dos congressistas do outro. Não se tratará a partir de 2011 de coligações equivalentes : em um lado estarão os dois maiores partidos, aliados do 5º ao 7º. Do outro lado teremos o 3º, 4º e 8º.

Ao confrontarmos os programas com aquilo que ocorre hoje no mundo novamente vemos distinções. Não se trata de dividirmos entre direita e esquerda. Esses nomes podem não ser apropriados para a forma atual do PT de conduzir alianças e governo. Mas entre ser mais adaptável ao moderno ou aos ventos internacionais. O PSDB aparenta rejeitar, ainda que não no discurso mas na prática, o Estador indutor e alguns pontos de nacionalismo. Isso está na contramão daquilo que mais está sendo praticado nas relações internacionais e pelo mundo afora. Além de nos quadros do PSDB, onde mais o discurso neoliberal estaria em voga?

Tanto os tamanhos dos partidos (e de forças aliadas) como as diferenças programáticas (mais bem ausência de programa de um dos lados) levam a ser difícil considerar o quadro como de uma polarização real. Mais parece uma resistência mal conduzida. Acredito que o PSDB faria melhor se tentasse articular uma nova oposição em torno de si, mas, do modo como as coisas caminham, é mais previsível que a oposição efetiva e com conteúdo surja de dentro da atual coligação governista e, em isso acontecendo, apenas restará ao PSDB o papel de coadjuvante. E isso enquanto ainda é capaz de contar brilho no seu passado, pois mesmo isso poderá ficar empanado no futuro próximo…

8 comentários sobre “Por que acho que PSDB não é alternativa ao PT

    1. Obrigado, Fernando. Também por consertar aqueles parágrafos que comigo insistem em aparecer ao lado das imagens, não atino em como arrumar isso…

      Tá dando bastante discussão no Nassif também. Eu só fiz uma recapitulação do cenário atual, mediocridade ao centro, indigência à direita. Não imaginava que isso ainda levasse a tanta surpresa…

      Vou legar abaixo agora. Abs.

    1. Sim, oposição à direita acho que o Aécio é o melhor pra articular, deve pegar a simpatia de PP, DEM, etc. Ciro e Marina também serão uma oposição pensante, poderão se colocar entre Dilma e Heloísa Helena/Plínio. Alckmin será adesista por conveniência (o discurso é beligerante agora por conveniência, mas ele não é um ideólogo) Acho que o grupo em torno de FHC-Serra terá menos poder no futuro.
      Não conheço nomes regionais, mas acho que a maioria vai se organizar em torno desses nomes e de Cabral, Eduardo Campos, Beto Richa.

      1. Sei nao. Acho q a guinada ao centro tanto do Ciro, mas principalmente da Marina, é inevitavel. Outro aspecto q estamos esquecendo e a direira maus radical. Nao poderiam se aglutinar em torno de um nome tipo Katia Abreu? Lembre-se que ela e assessores quem resolveu abandonar a vice do Serra.

  1. Com certeza a nova oposição vira do PSB…partido que está crescendo de forma exponencial( com forte inserção no nordeste/Norte e se inserindo no sul e sudeste ). Não acho que o Ciro será o Candidato da nova oposição …aposto todas as minhas fichas que vão lançar Eduardo Campos em um pós Dilma.

  2. Voltemos.

    Acho que o PT esta se mostrando mais bem adaptado ao poder. O Estado é um transatlantico, ele se move lentamente e demora a mudar de direção, mas depois que muda é dificil faze-lo parar.

    A mídia bate na tecla do “aparelhamento da máquina”. Muitos eleitores do PT são funcionários públicos simplesmente pq o PSDB foi incompetente demais em sequer negociar com o funcionalismo (ver a relação do Serra com os Policiais e com os professores). Para eles negociar não é uma opção. Pra mim, uma visão arrogante, pra variar.

    Sem contar a hipocrisia, como corajosamente disse o Marcos Nobre, ambos partidos fazem uso disso, mas os tucanos não olham pro seu proprio umbigo. E a midia nao cumpre seu papel de ficar equidistante pra poder criticar ambos. E ai nenhum partido mexe no que realmente pode ser considerado como aparelhamento, os cargos de confiança.

    Mas isso é só um exemplo. Vou voltar ao assunto em outro post.

    Até na relação com o mercado o PT esta mostrando uma competencia inesperada. Alguem imaginaria um banqueiro numa reunião de banqueiros se levantar para defender o discurso petista. Isso é bem simples, banqueiro gosta é de dinheiro (e sejamos justos, como todo mundo no sistema capitalista) e o PT fez do Brasil uma maquina de ganhar dinheiro, e o principal, para todos.

    Outro aspecto é a defesa do interesse nacional, não sei se por intuição, não sei se por estrategia, mas pra mim isso já era gestado dentro do petismo, que ele deveria lá na frente defender o interesse nacional, mesmo que isso fizesse alguns vincula-lo ao “discurso dos militares”, da “ditadura”.

    E ai, pra finalizar, esse eu acho que foi o “pulo do gato”.

    O PT perdeu a vergonha de mudar de posição, se ficar nitido que essa posição, é ou vai, ficar “defasada”. E isso foi construido com o processo de discussão interna, de prévias, apesar de ser fraticida, é um movimento dinâmico, que cria tolerância, pelo menos depois das posições serem “centralizadas”. E olhe só a ironia, não vem ao caso se, de uma maneira maniqueista, para as esquerdas, essa posição é “certa ou errada”, e sim o beneficio dentro da estrategia politico-eleitoral.

    É literalmente a historia de não importa a cor do gato, contanto que caçem ratos. Não importa se é a política é liberal ou conservadora, se é de esquerda ou direita, se é desenvolvimentista ou neoliberal. Importa se traz beneficio para os eleitores, enfim, o povo.

    Pq no final, depois de tantos anos na oposição, o PT percebeu que marcar posição e ter uma visão ideologica é importante, mas na verdade governar é muito mais complicado que isso.

    Sinceramente, sem uma inovação no sistema político, não vejo como os partidos de oposição vão conseguir supera-lo.

    Abçs,

    1. Bueno, é evidentemente que concordamos no geral.

      Vamos lançar lenha na fogueira : além do PMDB passar a ser uma oposição de centro-direita e PSB/PDT serem oposição de centro-esquerda (o PCdB é um pouco tímido atualmente), há a possibilidade de um terço mais ideológico/programático do PT ir à esquerda, tipo PSoL.

      Aí sim teremos bastante discussão. É que as últimas décdas foram dedicadas ao combate à inflação, à concentração de renda e à fome. Também ao desemprego. Isto tudo estando com curativos podemos ir além. O país quer ser capitalista, social-democrata ou socialista? Aí retornarão os exemplos do exterior, etc.

      Mas meu argumento mesmo é que em algum ponto o PSDB se perdeu. Você arranjaria um YouTube com a música do Chico, aquela que diz “Só Carolina não viu?”

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