Quem é mais feliz?

Entender a relação entre felicidade e renda é um longo debate. Uma época (1985) pensei em fazer uma dissertação sobre o tema, depois desisti. Mas tenho minhas opiniões…

De saída : PIB só não conta, é claro, mas nem para comparar desenvolvidos com desenvolvidos. Quando se fala que o PIB por habitante nos EEUU é o maior do mundo, ou que é o que tem crescido mais rapidamente nas últimas duas décadas dentre os países desenvolvidos, esquece-se que a população dos EEUU cresce muito mais que a da Europa. Que no primeiro o número de horas trabalhadas/ano é muito maior e a população mais jovem. A formação cultural é muito diferente. Para comparar produtividades tinha-se que ver o PIB/trabalhador, nem sequer por habitante. E a concentração de renda? Na Europa é muito menor que nos EEUU, então há menos ricos, decerto, mas também menos pobres… 

PIB mede mais ou menos acesso a bens e serviços. E dá para relacionar isso à carga de trabalho. Mas e os intangíveis? Como comparar a diferente sensação de espaço entre Austrália e Japão? É uma medida fraca para comparar realidades muito distintas, embora ainda tenha certa utilidade para comparar uma mesma região produtiva ao longo do tempo. 

PIB também mede o fluxo anual de produção, mas não o patrimônio acumulado. A Argentina há décadas usufrui de muitas construções e infraestrutura acumuladas nos anos 1920-1960, então isso relativiza o fato de que o PIB atual desse país seja menor que o do estado de SP. A vida em Buenos Aires ainda é mais agradável que na capital da garoa. É o que dizem… 

Eu acho que a divulgação recente (em muitos lugares…) do tal “Felicidade Interna Bruta” do Butão foi pra lá de exagerada. Trata-se de um país fechado ao exterior, onde televisão é censurada e somente turistas (em quantidade restrita por cotas) podem comprar cigarros. Como comparar um ambiente reflexivo, budista, homogêneo e em muito monástico com, digamos, San Francisco ou Barcelona? Mesmo assim, traz a tona o fato de que espiritualidade também tem a ver com felicidade. E bastante. 

Índice de Desenvolvimento Humano… Desenvolvido pela ONU desde 1980. Pelo menos é uma aproximação melhor que o simples PIB, que o compõe. Condições de saúde e formação escolar completam o índice, o que o torna mais realista. No IDH é usado o PIB calculado por Paridade de Poder de Compra (que quase triplica a renda per capita relativa em países onde serviços são muito baratos, como Irã ou Índia) e o limite é arbitrado em US$ 40 mil (afinal, não é porque em Luxemburgo a renda per capita é de US$ 80 mil que os luxemburgueses são mais felizes que os habitantes de Mykonos…) 

Os riscos de considerar só o PIB. Os países desenvolvidos têm mesmo uma renda 4 vezes maior que a do Brasil. Mas como relativizar isso? Com analogia: São Paulo tem uma renda 4 vezes maior que de alguns estados do Nordeste brasileiro. Por acaso o paulista seria 4 vezes mais feliz que o piauiense? Certamente não, mais provável é só ser mais consumista mesmo. 

Eduardo Gianetti escreveu um livro legal, “Felicidade”. Não me pareceu um trabalho “acabado” (em uma leitura atenta encontram-se pequenas contradições.) Mas é um bom começo para abordar o tema. Além de uma forma criativa de escrever foi feita uma pesquisa de dados dos EEUU e Europa ao longo de 2 séculos. É interessante e recomendo a leitura. 

Juntando tudo o que sabemos é possível propor um índice alternativo de felicidade. Vários componentes poderiam ser intuídos, além dos presentes no IDH : segurança pública, religiosidade, pesquisas de opinião (há várias, de institutos diversos, focando coisas liberdade econômica, corrupção, direitos civis, etc.),  desemprego, dinamismo, tamanho das moradias, separar quanto da renda é para necessidades básicas e quanto é para supérfluos, etc, etc. 

Seria um trabalho bem interessante, pois os desafios futuros da humanidade não se limitam a consolidar democracias partidárias representativas ou aumentar o valor agregado por hora de trabalho… Mas não se limitam mesmo! Daria uma melhor visão a esse momento em que o Brasil pretende reduzir suas defasagens históricas em relação a países mais desenvolvidos. O Brasil ainda tem aquele ministério estilo “think thank”, o que era cuidado pelo Mangabeira Unger?

8 comentários sobre “Quem é mais feliz?

  1. Mas fez muito bem em deixar o bebê nascer. Ficou um texto muito emocionante, você tem talento. Aquele outro sobre o Lula também foi 10!

  2. Bem, sobre isso tambem comecei a ler algumas coisas. Mas parecia um discurso de gente que já tem tudo na Europa, sem saber da miseria dos paises mais pobres.

    Pq as propostas eram sempre em limitar o crescimento daqueles que ainda nao tinham crescimento.

    De qualquer forma, o que fica claro é que o conceito de “satisfação” em economia já não serve mais. Essa visão do consumo, do crescimento já se foi. Principalmente qdo se distinguiu de “desenvolvimento”. Ainda falta? Claro, essa é a ciência mais incompleta de todas.

    Mas acho que com o avanço da neuroeconomia (principalmente na simplificação nas formas de mapear as reações do cerebro aos estimulos economicos) podem ser um ruptura nesse tipo de analise.

    O que por sua vez (já deu pra perceber) que eu considero que esse tipo de analise vai ser resolvida no nivel micro, não macro (não acredito que uma variavel como IDH ou GPD vá dar a dimensão de felicidade de uma população).

    Abçs,

  3. Não seja falso modesto, Fernando. Você tem um monte de ótimas ideias.

    Não deixe isso atrapalhar seu mestrado, eu desisti dos meus (duas tentativas) porque vivia em conflitos variados. Se um dia quiser conversar sobre isso fico a postos.

    Não vai se cadastrar no novo blog do Nassif???

    Grande abraço.

  4. Acho que está ficando legal. Preciso testar a parte dos blogs individuais. Gustavo Cherubine fez um post (*), eu comentei e o comentário se perdeu. Mas quando funcionar o esquema geral é bom.

    Este blog tem custo financeiro para você?

    (*) ele pegou uma fala editada da marina no MixBrasil em que dá a entender que é contra a parceria civil. Tem-se que tomar muito cuidado: o texto original, publicado pelo terra, com mais falas dela, dá a entender exatamente o contrário. Meu comentário era justamente defendendo Marina. Eu fiquei decepcionado com o MixBrasil ter feito essa “manipulada”. E claro que envergonhado também, não gosto quando blogs gays fazem essas “puxadas de sardinha”.

  5. Acho que consumo ainda conta sim, mas precisamos ver a ponderação. Seu peso pode ser decrescente no tempo. Podemos pensar num grupo de discussão para isso num futuro não tão distante quanto Star Wars. (*)

    (*)Eu era adolescente na estréia de Star Wars, assisti 3 ou 4 vezes. Eu tinha o álbum duplo e o LP do Meco, vê se pode isso!

    Neuroeconomia é totalmente novo para mim.

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