Martin Wolf, didático sobre a crise (e sobre o que ainda vem por ai)

“Quem é a China e quem é os EUA na figura acima?”

Na verdade, na verdade o Krugman já abordou isso várias vezes no blog dele. Que o a bomba H que a China pensava ter em mãos pode não passar de uma bombinha de festa junina. Mas acho que os chineses não são tão inocentes assim. E tb acho que a economia americana é mais dependente dos baixos custos trabalhistas chineses do que se imagina.

Esse é o jogo mais interessante de ser acompanhado no momento (depois da nossa emocionante eleição presidencial): a pressão dos EUA para fazer a China valorizar a moeda, e a resposta dos chineses para continuar ditando o ritmo da valorização.

Eu estou acompanhando atentamente, mas me recuso a escrever alguma coisa, já que dois caras que eu admiro e respeito (Krugman e Wolf) continuam me mantendo plenamente informado. De maneira excessivamente didática, até.

A cigarra e a formiga — Portal ClippingMP

A cigarra e a formiga

Autor(es): Martin Wolf

Valor Econômico – 26/05/2010

Quando as formigas chinesas pedirem às cigarras americanas que paguem sua dívida, elas vão reduzir o valor da dívida e a poupança das formigas perderá valor

Todo mundo no Ocidente conhece a fábula da cigarra e a formiga. A cigarra preguiçosa canta durante todo o verão, ao passo que as formigas poupam para o inverno. Quando o frio chega, a cigarra pede alimento à formiga. A formiga recusa-se a dar e a cigarra morre de fome. A moral da história? O ócio gera escassez.


Contudo, a vida é mais complexa do que na fábula de Esopo. Hoje, as formigas são alemães, chineses e japoneses, enquanto as cigarras são americanos, britânicos, gregos, irlandeses e espanhóis. As formigas produzem bens sedutores que as cigarras desejam comprar. A cigarra pergunta se as formigas querem algo em troca. “Não”, respondem as formigas. “Vocês não têm nada que queiramos, exceto, talvez, um lugar a beira-mar. Nós vamos lhes emprestar dinheiro. Dessa forma, vocês poderão desfrutar nossos produtos e nós acumularemos reservas”.

As formigas e as cigarras ficam felizes. Sendo frugais e prudentes, as formigas depositam suas rendas excedentes em bancos supostamente seguros, que as reemprestam às cigarras. Estas, por sua vez, não precisam mais produzir bens, uma vez que as formigas os fornecem a preços baixos. Mas as formigas não vendem casas, shopping centers ou escritórios às cigarras. Por isso são as cigarras que os constroem. Elas podem até mesmo pedir às formigas que venham para que executem o trabalho. As cigarras se dão conta de que com todo esse afluxo de dinheiro, o preço dos terrenos sobem. Então, as cigarras tomam mais empréstimos e gastam mais.

As formigas são muito melhores na fabricação de produtos reais do que na avaliação de produtos financeiros. Então as cigarras descobrem maneiras inteligentes de empacotar seus empréstimos em ativos atraentes para os bancos das formigas.

Agora, o formigueiro alemão está muito perto de algumas pequenas colônias de cigarras. As formigas alemãs dizem: “Nós queremos ser amigas. Então, por que não usamos todos o mesmo dinheiro? Mas, primeiro, vocês devem prometer comportarem-se como formigas para sempre”. Para isso, as cigarras têm de passar por um teste: comportarem-se como formigas por alguns anos. As cigarras passam no teste e então são autorizadas a adotar o dinheiro da Europa.

Todos vivem felizes, por um tempo. As formigas alemãs observam seus empréstimos às cigarras e sentem-se ricas. Enquanto isso, nas colônias de cigarras, seus governos examinam suas contas saudáveis e dizem: “Vejam, nós cumprimos as regras fiscais melhor que as formigas.” As formigas consideram isso embaraçoso. Por isso, nada dizem sobre o fato de os salários e os preços estarem subindo rapidamente nas colônias de cigarras, o que torna seus produtos mais caros, ao mesmo tempo em que diminui o ônus dos juros reais, estimulando, assim, ainda mais tomadas de empréstimos e construção de imóveis.

Sensatas formigas alemãs insistem que “árvores não crescem até o céu”. Os preços dos terrenos finalmente atingem um pico nas colônias de cigarras. Os bancos das formigas ficam compreensivelmente nervosos e pedem seu dinheiro de volta. Assim, as cigarras devedoras são obrigadas a vender. Isso cria uma cadeia falimentar e paralisa a construção nas colônias de cigarras e os gastos das cigarras na compra de mercadorias das formigas. Os empregos desaparecem – tanto nas colônias de cigarras como nos formigueiros – e os déficits fiscais crescem, especialmente nas colônias de cigarras.

As formigas alemãs percebem que seus estoques de riqueza não valem muita coisa, pois as cigarras não podem prover-lhes nada do que desejam, exceto casas baratas em lugares ensolarados. O governo das formigas têm medo de admitir que deixou seus bancos perderem dinheiro das formigas. Por isso, eles preferem uma segunda alternativa, denominada “operação de socorro”. Simultaneamente, eles ordenam que os governos das cigarras aumentem os impostos e cortem gastos. Agora, dizem eles, vocês têm realmente de se comportar como formigas. Por isso, as colônias de cigarras caem em profunda recessão. Mas as cigarras continuam incapazes de produzir algo que as formigas queiram comprar, porque não sabem como fabricá-lo. Como as cigarras não podem mais tomar empréstimos para comprar bens das formigas, elas morrem de fome. As formigas alemãs finalmente dão baixa contábil de seus empréstimos às cigarras. Mas, tendo pouco aprendido com essa experiência, elas vendem seus produtos, em troca de ainda mais dívida, em outros lugares.

Aliás, mundo afora, existem outros formigueiros. A Ásia, em especial, está cheia deles. Um é muito rico, algo semelhante à Alemanha, chamado Japão. Existe também um enorme formigueiro, embora mais pobre, chamado China. Essas formigas também querem ficar ricas vendendo mercadorias para as cigarras a preços baixos. O formigueiro chinês chega a fixar o câmbio de sua moeda em nível para assegurar que seus produtos sejam extremamente baratos. Felizmente, para os asiáticos, ou assim parece, por acaso existe uma colônia de cigarras muito grande e extraordinariamente trabalhadora, chamada EUA. Na realidade, a única maneira de sabermos que se trata de uma colônia de cigarras é o fato de seu lema ser: “In shopping we trust” (confiamos em consumir). Os formigueiros asiáticos desenvolveram, com os EUA, um relacionamento semelhante ao da Alemanha com seus vizinhos. As formigas asiáticas acumulam pilhas de endividamento das cigarras e sentem-se ricas.

Entretanto, há uma diferença. Quando o colapso acontece nos EUA e as famílias param de tomar empréstimos e de gastar e o déficit fiscal explode, o governo não diz a si mesmo: “Isso é perigoso, temos de cortar gastos”. Em vez disso, o governo diz: “Precisamos gastar ainda mais, para manter a economia funcionando”. Por isso, o déficit fiscal fica enorme.

Isso deixa os asiáticos nervosos. Assim, o líder do formigeiro chinês diz: “Nós, seus credores, insistimos em que vocês parem de tomar empréstimos, exatamente como as cigarras europeias estão fazendo agora”. O líder da colônia americana ri: “Não pedimos que nos emprestassem esse dinheiro. Na verdade, nós os avisamos que se tratava de uma loucura. Vamos nos assegurar de que as cigarras americanas tenham empregos. Se vocês não quiserem nos emprestar dinheiro, aumentem o preço de sua moeda. Então produziremos o que costumávamos comprar e vocês não precisarão mais nos conceder empréstimos”. Dessa maneira, os EUA ensinam aos credores a lição de um falecido sábio: Se você deve US$ 100 a um banco, você tem um problema, mas se você deve US$ 100 milhões, o problema é do banco.

O líder chinês não quer admitir que sua enorme pilha de dívida americana em seu formigueiro não valerá o que custou. Os chineses também querem continuar a fabricar produtos baratos para estrangeiros. Por isso, no fim das contas, a China decide comprar ainda mais dívida americana. Mas, décadas depois, os chineses finalmente dizem aos americanos: “Agora gostaríamos que vocês nos fornecessem produtos em troca do que nos devem”. Então, as cigarras americanas riem e prontamente reduzem o valor da dívida. A poupança das formigas perde valor e algumas delas, então, morrem de fome.

Qual é a moral dessa fábula? Se você quiser acumular riqueza duradoura, não conceda empréstimos a cigarras.

4 comentários sobre “Martin Wolf, didático sobre a crise (e sobre o que ainda vem por ai)

  1. Mesmo sem subestimar o EUA eu to mais para acreditar em: quem tem medo do lobo mal, lobo mal, lobo mal?
    Acho que eles vão se perder antes de chegar na colonia das formigas, mesmo com a certeza de as árvores norte americanas estarem mais perto do céu e serem de longe as mais frutíferas, temos muitas mudas espalhadas pelo mundo a céu aberto que estão loucas para crescerem tão quão as primeiras.
    Acho que o capital vai se afastar cada vez mais do dólar e que todos os envolvidos nesta fábula são cigarras.
    As formigas para mim seriam seres como Serra, Álvaro Uribe, FMI, etc…

  2. Vamos tirar um aprendizado da fabula. Se o Brasil deseja (*) poupar em divisas para desvalorizar a moeda, não seria melhor comprar ações de empresas do que títulos dos EEUU na formação do fundo soberano?

    (*) eu ia escrever “precisa” ao invés de deseja, mas não há consenso quanto a essa necessidade.

  3. Nao foi o que os Chineses e os Arabes fizeram DURANTE a crise? Aqui no Brasil os neoliberais dão piti qdo vc fala só em diversificar as reservas, imagine se começar a fazer investimentos na “economia real”.

    Mas, ps, essa estrategia já esta traçada, estão esperando só vencer as eleições. Por outro lado, o PT sempre faz pouco caso pra governança, talvez por nunca se imaginar fora do poder. E no caso de um FSB isso não é brincadeira. Vamos ver se quem decide se moderniza um pouco, e cria um modelo de governança que seja transparente e eficiente. Alias, deveriamos ter isso pra governança dos fundos de pensão, mas mexer com isso é cutucar caixa de marimbondo.

    Principalmente em ano eleitoral, deixemos essa discussão, pra DEPOIS das eleições, certo?

  4. O Martin Wolf tem ótimas análises. Nesta, por exemplo, ele acerta com precisão cirúrgica. Sobre economia mundial, costumo acompanhar também as análises do Paul Krugman, Joseph Stiglitz e Nouriel Roubini. Os quatro praticamente previram a crise do subprime. Eles têm uma interessante visão macro sobre economia internacional.

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