Requiem para Ciro

“Bem-vindo, peregrino, tenho estado à tua espera.
Perante ti jaz Ciro, Rei da Ásia, Rei do Mundo.
Tudo o que resta de mim é pó.
Não me invejes.”

Inscrição no túmulo de Ciro, o Grande, em Pasárgadas

Caros, vou poupar vcs da minha distorcida visão da realidade. Quem quiser saber a minha opinião sobre o Ciro, é só clicar nesse link que ficou ai atrás. Não sou fã de ninguém, mas como político, ele é um dos meus preferidos. Mas acho que cometeu erros estratégicos graves. Talvez tenha suas razões como já disse.

Mas o que importa é que alterou o cenário político significativamente. Muito do que ele disse ainda vai ser discutido, nessa eleição, e no governo futuro, qualquer que seja o ganhador. Obviamente ele é jovem e pode voltar a cena política, se quiser, mas creio que o desânimo dele é sincero.

De qualquer forma, segue abaixo três textos que narram de maneira esplendida o papel dele até aqui (não só nessas eleições). Palmas para esses três ai, Maria Inês Nassif (sensata como sempre), NPTO (qdo crescer quero ser igual ao NPTO) e a Maria Cristina Fernandes (fazer jornalismo político com objetividade no atual estado da mídia brasileira, não é pra qualquer um).

Quem não leu, leia. Quem já, pode ficar tranquilo, tá arquivado aqui para referências futuras.

Ciro mirou no exemplo do PT — Portal ClippingMP

Política – Maria Inês Nassif
Valor Econômico – 29/04/2010

O fim da candidatura de Ciro Gomes à Presidência pelo PSB mostra mais do que uma simples opção da direção do partido socialista pela candidatura da petista Dilma Rousseff. É também a confirmação da hegemonia do PT sobre a esquerda do espectro partidário. Esse fato vai além de um ato de vontade do partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou de uma opção das pequenas agremiações de esquerda que orbitam a sua volta. É um dado histórico, contra o qual o simples proselitismo é inócuo. Para ameaçar a posição do PT no quadro partidário, é preciso ação orgânica e transformação efetiva dos partidos que hoje são satélites do PT em organizações de massa. É andar muito chão e comer muita grama.

A hegemonia petista é produto de uma combinação de contingências históricas e decisões políticas. Fundado em 1980 por integrantes do “novo sindicalismo”, que jamais pegou em armas, e facções egressas da luta armada contra a ditadura, o partido, mais por contingência do que por decisão dos seus atores políticos, fez da síntese do conflito o seu tecido orgânico. O partido formou-se como uma frente de esquerda – e, tomadas as tentativas anteriores nesse sentido, cujo palco foram os jornais alternativos da década de 1970, o PT seria uma aposta no desastre. Não foi. Há duas explicações centrais para isso.

Em primeiro lugar, as facções, ao ingressarem no PT, já haviam feito a inflexão da opção pela luta armada – até porque o inimigo central e comum, a ditadura, se encontrava nos estertores e, antes de sucumbir, havia desmantelado as suas organizações. A queda do Muro de Berlim, em 1989, e o declínio do socialismo real, iniciaram um processo de “hegemonização” interna da opção pelo socialismo democrático – a democracia não mais como um instrumento de chegada ao poder e imposição da “ditadura do proletariado”, mas como objetivo. Não mais um meio, mas um fim.

Em segundo lugar, porque os sindicalistas que fazia parte da experiência de fundação de um partido de esquerda de massas não se incorporaram como coadjuvantes do processo. Aliás, a experiência de mobilização dos setores tradicionalmente representados pela esquerda do espectro partidário, os trabalhadores do setor industrial em especial, dava protagonismo a esses atores políticos mais forjados na prática do que em grandes debates teóricos.

A dinâmica interna do PT incorporou esses dois setores em igualdade de condições. Essa era a condição para que um líder como Lula não fosse engolido pelo processo, ou que um líder como Lula engolisse os grupos políticos que dependiam da habilidade do metalúrgico para mobilizar grandes massas.

Praticamente toda a primeira década do partido foi marcada por uma dinâmica interna de luta pelo poder que tendeu à radicalização. Isso manteve o partido isolado, o que seria mortal para uma organização política em início de carreira, mas o isolamento teve outro efeito, o de fixar no eleitor a identidade do partido. A estratégia camicaze de lançar candidatos para perder serviu ao seu propósito. E uma identidade forte de um líder carismático ajudou esse processo, num país sem tradição de partidos ideológicos. No final da primeira década, o PT era a opção obrigatória para alianças com os pequenos partidos de esquerda. Uma coesão parlamentar contraditoriamente fundada na divisão interna – a obrigação de defesa das posições da maioria – tornou o partido também o centro do bloco da esquerda parlamentar, para desespero da esquerda tradicional.

A primeira eleição de Lula, em 2002, foi a confirmação de uma liderança sobre os demais partidos de esquerda que já era exercida na prática. A grave crise interna de 2005, decorrente do chamado Mensalão do PT, foi um momento de declínio dessa liderança – por alguns meses, durante o período mais agressivo de CPIs e denúncias, a combinação de organicidade tecida na luta interna e liderança que fazia a conversa ideológica com setores de baixa renda ruiu e teria levado junto a hegemonia do PT, se houvesse algum partido de esquerda com condições de assumir o seu lugar. O PPS, principal adversário do “hegemonismo” petista, aproximou-se tanto do PSDB que tornou impossível a diferenciação entre um e outro. PSB e PCdoB tomaram a decisão tática de alinhamento com o PT contra a ofensiva de setores conservadores, mas não tinham nem lideranças tão grandes quanto Lula, nem massas, para assumirem uma posição privilegiada nessa aliança. O P-SOL se desprendeu do PT e tentou voo solo. O recente racha na minúscula legenda, em torno de uma candidatura presidencial, mostra que ainda está longe de ser um partido.

O PSB cresce no vácuo, como opção à polarização PT/PSDB, e tem se aproveitado disso, nos moldes de um partido de formação tradicional. Ciro Gomes foi o integrante do partido que mais entendeu que isso não bastava. A insistência do deputado de formular um projeto para o Brasil utilizando o partido – foi um trabalho quase solitário, mas articulado com as direções estaduais – é um reconhecimento de que a legenda, para ter vida própria, precisa de alguma organicidade ideológica, além de líderes com potencial inegável, como o próprio Ciro e o presidente do partido, Eduardo Campos. Ciro não prima pela habilidade, é certo, mas conseguiu, por algum tempo, colocar a disputa pela hegemonia do campo de esquerda dentro do foco programático. O parlamentar tentou colocar na agenda o debate sobre o alto preço exigido pelo presidencialismo de coalizão brasileiro e quebrar o falso consenso em torno de uma política monetária que foi descolada do debate político pela adesão aos ditames do neoliberalismo, nos governos FHC, e pelas pressões intensas do mercado financeiro sobre o PT (e sobre ele próprio, que era candidato do PPS) nas eleições de 2002. Não conseguiu romper o impasse entre afrontar a hegemonia do PT ou garantir ao PSB o apoio do partido hegemônico do bloco de esquerda para crescer como os partidos tradicionais. O PSB fez a segunda opção.

Ciro Gomes | Na Prática a Teoria é Outra
Ciro Gomes
Apr 28th, 2010
by NPTO.

Terminou a campanha de Ciro Gomes à presidência. Não se pode dizer que termina bem. Mas é bom ter em mente o papel que Ciro Gomes teve no debate político brasileiro dos últimos quinze anos, porque, se ele diminuir muito politicamente (já tem gente falando nele para técnico do Flamengo, um cargo que ninguém mais quer), alguém vai ter que fazer esse papel.

Ciro Gomes foi, provavemente, o melhor quadro produzido pelo PSDB. Os medalhões tucanos formaram o PSDB quando já eram cobras criadas no MDB. Aécio é um grande político, muito forte em seu Estado, mas não é um inovador programático, e foi formado na família dele: sem dúvida, existiria sem o PSDB, como herdeiro de dinastia política. O Ciro era diferente: era para ser a nova geração dos caras, trabalhado pelo partido.

Uma coisa que certamente merecia ser melhor explicada é o que, exatamente, fez Ciro dar o salto para fora do PSDB. Mas o fato é que, voltando de Harvard, para onde foi por sugestão do FHC, Ciro era outro político: e um político melhor. De maneira algo edipiana, quando rompeu com o ninho tucano, virou político de primeira divisão.

Durante o governo FHC, o populismo cambial nos estrupiava as contas, mas o PT, desde 94, estava imobilizado pelo conflito interno entre moderados e radicais, e só conseguia jogar na defesa, reagindo contra tudo que parecesse neoliberalismo. O PT observou estupefato o Plano Real, sem conseguir dizer que era bom quando era bom nem dizer que era ruim quando ficou ruim.

Ciro foi o o sujeito que fez o debate com FHC nessa fase. Nem sempre foi completamente claro ou consistente, mas parecia mais consciente de que a situação era insustentável do que o PT. Vejam o que disse o Jânio de Freitas durante a crise de 98 (durante a qual as reservas caíam 1 bi por dia):

A eventualidade de reflexos eleitorais do desastre não poderia faltar, entre as pessoas cientes do que se passa com, ou contra, o Plano Real. No empresariado o assunto é tratado, como se esperaria, a partir de temores de uma reviravolta na corrida (re)eleitoral.
Não há indício, porém, de que a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva seja capaz de valer-se das circunstâncias na medida necessária para uma reviravolta. Sua campanha é confusa como estratégia, imprecisa como tática, desarticulada e pobremente óbvia como discurso. Para que esses componentes mostrassem resultados favoráveis à candidatura, superando o desgaste e a alta rejeição de Lula, só mesmo se ao adversário acontecesse o imprevisível.
Pelo que tem mostrado em suas bem articuladas considerações sobre o governo, a crise e as medidas necessárias, Ciro Gomes é o candidato que tenderia a crescer em uma situação como a atual. Mas não dispõe de tempo nem de espaço nos meios de comunicação.

A eleição de 98 foi a menos debatida da nossa democratização: o PSDB sabia que a economia ia estourar, e não queria muito puxar esse assunto, e o PT não teve coragem de dizer que era preciso desvalorizar o Real, e, sem dizer isso, não tinha muito o que dizer.

Dois dias antes da votação, tive uma aula de economia em que o professor disse: “Já que o Lula vai perder, mesmo, devia aproveitar e dizer logo o que todo mundo sabe que vai acontecer”. Ninguém disse, mas o Ciro chegou perto:

O candidato do PPS à Presidência da República, Ciro Gomes, acha que o presidente Fernando Henrique Cardoso não será reeleito. Mas, se for, “o segundo mandato já começará em emergência, com dois cenários possíveis, um ruim e outro péssimo”.
Ciro explica o porquê: “A dívida pública explodiu e 78% do patrimônio privatizável já era. Mas fazer um pacote fiscal espetacular depois das eleições vai ser o fim. Vai matar politicamente o FHC”.
Além da expansão da dívida pública, Ciro destaca o crescente déficit fiscal e o que ele considera “mais explosivo”: o desequilíbrio das contas externas.
Ex-ministro da Fazenda no governo Itamar, como FHC, Ciro descreve o Brasil de hoje como “um país parado, estagnado, proibido de crescer, com um desemprego galopante”.
Classifica de “balela” a promessa da equipe de FHC de que a prioridade de um eventual segundo mandato seria social.
“Nisso o Gustavo Franco (presidente do BC) tem razão: não há recursos para a área social”, disse Ciro, referindo-se a recente entrevista de Franco. Para ele, Franco pode ter sido sincero por um motivo: “Ele está se blindando para preparar a demissão, porque sabe que não tem jeito”.

Foi isso mesmo que aconteceu. O Ciro foi a única força política dando uma arejada na discussão em 98. Com o Mangabeira debaixo do braço, ele tinha uma contra-agenda, o que pelo menos permitia a discussão. Na reforma da previdência, propôs algo como utilizar grana da previdência para financiar investimento (vejam aqui). Depois da crise de 2008, não parece uma idéia tão boa investir a grana da previdência, mas era uma tese a ser discutida, o que era raríssimo na grande estagnação do debate brasileiro que ocorreu quando o Real começou a fazer água.

Em 98, um célebre intelectual tucano disse a uns estudantes de pós, eu incluso, logo depois de Ciro participar do “Roda Viva” (acho que foi o Roda Viva), que ele era “um extraordinário trabalho de joalheria política”. Disse, inclusive, que se Ciro jogasse as cartas bem na campanha, “muitos tucanos cristianizariam o Fernando”. É minha opinião que até hoje Ciro conta com isso; e que até hoje não conseguiu jogar as cartas direito.

Na eleição de 2002, foi também nos bastidores da campanha de Ciro que o debate importante foi travado, e ali eu acho que nasceu o impasse em que Ciro está hoje.

Quando o Jereissati resolveu apoiar o Ciro (uma das alianças mais interessantes da política brasileira, que merecia melhor análise), resolveu que, para sua candidatura ser viável, era preciso ter um programa que não fosse feito pelo Unger, visto como um radical (falso) doidão (verdadeiro) e que não sabia nada de importante (absolutamente falso).

Tenho certeza, aliás, de que a opinião de nossos formadores de, bem, opinião foi, enfim, formada, depois de encarar as sabe Deus quantas páginas de “Politics”.

Pois bem, o Jereissati fez uma jogada de mestre, e conseguiu que o José Alexandre Sheinkman fizesse um programa para o Ciro. O programa era o Agenda Perdida. Ciro não quis o programa. Quatro anos depois (porque eu escrevi quatro anos depois? Eu, hein.Valeu, Matamoros, pelo toque) Uma versão retrabalhada por economistas ortodoxos do Rio chegou às mãos de Palocci entregue por Armínio Fraga durante as célebres reuniões no Hotel Glória.

O que Jereissati ofereceu a Ciro, e Palocci aceitou, foi uma passagem de volta ao mainstream político brasileiro. Em 98, era insano dizer que FHC, que segurava o câmbio enquanto as reservas brasileiras chegavam ao nível de duas fichas de fliperama e um vale refeição, era o candidato da boa gestão econômica (o que tinha sido em 94). Nesse contexto que Delfim fez sua famosa declaração sobre o poste.

O Jereissati disse para o Ciro, vai lá, seja o candidato da direitaultrapassando pela esquerda. Seja o PSDB do PSDB.

Ciro não topou. Pode parecer idiota que não tenha topado, mas a verdade é que Ciro realmente tinha sua própria agenda, que era mais pró-mercado em alguns aspectos (como na questão da previdência) menos em outros (principalmente na questão da dívida, que muita gente achava que ia ter que ser renegociada – e não teve) do que o mainstream tucano.

E tinha uma estratégia que parecia boa: como o PT não se revelou à altura do poste do Delfim em 98, era perfeitamente possível que definhasse. Estava claro que ninguém ia votar em partido sem programa econômico realista, mas também era claro que ninguém mais, como primeira opção, queria os tucanos. Parecia gol aberto para o Ciro.

Eu não tenho nenhuma prova do que vou dizer agora, mas é minha opinião: o sucesso de Ciro em 98 – porque ter lá seus 10% concorrendo pelo minúsculo PPS foi uma façanha – foi um alerta para o PT. Ficou claro que, se o partido não virasse uma alternativa de poder viável, alguém apareceria para ocupar o espaço na esquerda brasileira. Quem não faz, leva. E teve gente séria, como o Touraine, achando que quem poderia levar era o Ciro:

(…) os brasileiros querem um programa de governo. Talvez um dia eles adotem aquele de Ciro Gomes, mas, em termos gerais, eles não acreditam que o descontentamento e a ideologia diversa constituam um programa de governo. Não é a pessoa de Lula que está em questão, mas a ausência de uma verdadeira unidade programática do PT. Não basta denunciar a globalização e condenar a priori todas as políticas que se abrem à economia mundial para convencer a população, ou convencer a si próprios, de que uma mudança de política trará efeitos benéficos; essa perspectiva suscita, ao contrário, incerteza e temor.
O mais importante para o Brasil, assim como para muitos outros países, é livrar-se de escolhas retóricas para definir escolhas reais, sempre muito mais limitadas e cujos termos e consequências podem ser definidos de maneira precisa.

O resto vocês já sabem. O PT aceitou o programa que o Ciro não quis e ganhou. Ciro foi inteligente o suficiente para perceber que era uma vitória sólida, e apoiou Lula, no processo se livrando da âncora Roberto Freire (e do Unger, que, tentando andar sozinho na política, levou uma surra memorável de quem entendia mais da coisa do que ele). Ciro percebeu que não tinha como disputar espaço com um Lula forte. E resolveu esperar o Pós-Lula.

Mas essa estratégia era muito arriscada. Com o PT fazendo parte do mainstream econômico, a janela que Ciro teve diante de si em 98 não tinha cara de que ia se abrir de novo. Se o governo Lula fracassasse, Ciro afundaria com ele (o que percebeu, mais que muita gente, durante a crise do Mensalão). Se o governo fosse um sucesso, como foi, porque o PT não lançaria seu próprio candidato?

Entrando em 2010, várias The Economist depois, havia dois cenários bons para Ciro:

Um era o Pós-Lula radical: Aécio se lança como candidato moderado, que apoiou Lula em vários momentos e teve sempre boas relações com o governo. Ciro adere, talvez como vice, e forma-se uma chapa que, sejamos honestos, seria difícil de perder. Ma sisso não aconteceu.

Serra estrangulou a candidatura Aécio, e está tentando roubar-lhe a estratégia, sem, entretanto, nenhuma das credenciais de Aécio: o serrismo foi oposição radical ao governo Lula em todos os momentos, e não vai ser difícil a campanha de Dilma arrumar citações do Serra contra tudo que o Lula fez – inclusive a política econômica ortodoxa. Serra, assim, fechou o espaço para Ciro pela direita.

Por outro lado, Dilma poderia ter empacado. Não era uma candidata muito orgânica do PT (é incrível que se tenha conseguido colar-lhe a pecha de radical), era completamente deconhecida, se não chegasse ao segundo lugar com chances de vitória no começo desse ano, o bloquinho (PSB/PDT/PCdoB) provavelmente lançaria Ciro, e a cristianização prevista lá atrás aconteceria do outro lado do espectro. Ciro seria o candidato de Lula, mesmo se Lula não quisesse.

Isso poderia perfeitamente ter acontecido, mas não aconteceu. Talvez esperando por Aécio, Ciro se manteve bastante passivo nos debates dos últimos anos (o que, convenhamos, não é da sua natureza), e, enquanto isso, Dilma se fez. Os pequenos partidos gravitaram para os candidatos com mais chance de vitória, e a Ciro restou o PSB, com base no Nordeste, onde o apoio de Lula é fundamental.

Não tenho tanta certeza quanto outros comentaristas a respeito do futuro de Ciro. Ele é como aqueles jogadores de futebol que começaram tão novos que a gente esquece que eles ainda são relativamente jovens. Daqui a quatro anos o quadro pode ser completamente diferente. Mas o fato é que Ciro parece estar entrando em sabático.

Na saída, ainda fez o que fez melhor nos últimos quinze anos, e levantou dois debates: um é a possibilidade de haver uma crise econômica causada pelos desequilíbrios da balança, o outro uma crise de governabilidade devida à voracidade das lideranças do PMDB.

A princípio, concordo com o Meirelles: o câmbio flutuante vai reequilibrar a balança, eventualmente. Mas eu acho que, no meio da intervenção do Ciro, como no meio do editorial de hoje da Folha, está a discussão sobre o risco do câmbio estrupiar a indústria antes de tudo se reequilibrar.

O comentário do Ciro sobre a competência do Serra é, na verdade, eco de um outro, feito um tempo atrás: Serra seria mais capaz de fazer esse debate (porque é sua galera heterodoxa que vive falando nisso – vejam o Sérgio Guerra na Veja), mas não faz porque é politicamente comprometido.

Eu, na minha humilde sociólogo-blogosidade, permaneço agnóstico a respeito da discussão sobre o câmbio, com viés pró-Meirelles. Claro, é preciso dar condições para um aumento de produtividade da indústria brasileira, como o editorial da Folha bem nota, mas isso é preciso de qualquer maneira. Se quiserem fazer isso por preocupação com a balança, beleza.

Vale dizer, se o candidato do PT estivesse falando em doença holandesa, ou qualquer coisa parecida com isso, lá se ia o Risco Brasil.

A segunda crise, a política, é perfeitamente possível, mas há algo a ser considerado. O intelectual tucano supracitado sempre dizia isso do PFL durante o governo FHC: quando você joga esses caras pra frente dos holofotes, muda o jogo. Eles passam a ser co-responsáveis pelo desempenho do governo diante da opinião pública. Para o cara que quer fazer sacanagem e só fazer sacanagem, é melhor ficar no Congresso quietinho, não no governo. Vamos ver como Dilma desata esse nó, se ganhar.

É absolutamente imbecil dizer que o debate democrático perde quando a eleição passa a ter um candidato a menos, mas tem gente dizendo isso. O que é verdade é que, se Ciro resolver ir para o exterior passear com a Patrícia Pillar (quem poderia culpá-lo?), outro sujeito vai ter que ser o levantador de bola do debate brasileiro.

PS: agora pesquisa volta a ser importante, pelo seguinte: vejamos quantos dos votos de Ciro vão para Marina. Um apoio formal de Ciro a Marina teria várias vantagens, mas sacrificaria sua base de apoio no Nordeste. Marina, vale dizer, já parece bem mais simpática à ortodoxia econômica. Acho que assim que Ciro bolar uma recompensa para pedir, entra na campanha da Dilma.

PSTU: em um certo sentido, Ciro está como o Nick Clegg, dos Lib Dems, estaria, se o Gordon Brown tivesse 80% de aprovação e a economia britânica estivesse indo bem.

PSTUdoB: uma hora a gente vai ser capaz de interpretar a trajetória do Ciro como exemplo de como a emergência do PT embaralhou as velhas estratégias da política brasileira. Acho que o Ciro notou isso, mas nem sempre teve muita margem de ação. Quando teve, em 98, eu acho que perdeu a chance.

De volta para o Ceará — Portal ClippingMP

De volta para o Ceará
Política
Autor(es): Maria Cristina Fernandes
Valor Econômico – 30/04/2010

Ciro Gomes já ficou outros anos sem mandato, mas sempre pôs a boca no trombone para não perder audiência nacional. Desta vez, apesar de ter idade para começar tudo de novo, há vários sinais de que o ostracismo pode empurrá-lo para de volta para o Ceará. As circunstâncias distintas das que marcaram outros períodos de entressafra podem ser resumidas em dois nomes: Dilma Rousseff e Eduardo Campos.

Por mais que recomponha boas relações com a candidata que já disse não estar preparada para conduzir o país em meio a uma crise, Ciro não terá como acumular o mesmo cacife político que em 2003 lhe deu um ministério no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Circulou com desenvoltura e lealdade no governo forrado pelos 10 milhões de votos com os quais apoiou o candidato petista no segundo turno de sua primeira eleição.

Desta vez, além de lhe faltarem votos, pode também lhe fazer falta um partido. Em 2006, quando deixou o governo para disputar um mandato de deputado federal tinha em mente consolidar no PSB uma liderança que se construiu fora dele.

Ofereceu sua votação, que acabou sendo a de deputado proporcional mais votado do país, para ajudar a salvar o partido da cláusula de barreira. Estreou combativo, mas acabou como um parlamentar apagado e ausente. Não havia como não ser cúmplice da estudada indignação de Ciro com seu isolamento na Câmara enquanto sobravam cargos na estrutura da Casa para os reis da negociata parlamentar.

Por trás do voluntarismo, começavam a ficar aparentes os prejuízos à sua carreira do poder sem alternância no seu berço político. Na definição de um conterrâneo seu, a ausência de oposição no Ceará, que já dura uma geração, deseducou Ciro para a política.

O PT, que, nesse período, elegeu duas prefeitas de capital, não se viabilizou como polo alternativo. O cabo de guerra armado pela prefeita Luizianne Lins em torno do estaleiro que o governador Cid Gomes tenta levar para Fortaleza é apenas o sinal mais visível de uma liderança à qual sobra carisma e falta jogo de cintura.

A aliança entre Ciro e Tasso Jereissati é mais longeva que a dos tucanos em São Paulo. Sua preponderância sobre uma economia 18 vezes menor e menos dinâmica explica porque a longevidade no poder asfixia mais os cearenses que os paulistas.

É a rota inversa do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente do PSB de crescentes antagonismos com Ciro. Depois de amargar o 5º lugar na disputa pela Prefeitura do Recife (1992), Campos se tornaria o braço direito do avô no governo do Estado (1995-98). Com a derrota acachapante de Miguel Arraes na tentativa de reeleição, Campos iniciaria lenta trajetória de reconstrução de seu campo que passaria pela adesão ao governo Luiz Inácio Lula da Silva, do qual acabaria ministro.

Entrou na disputa pelo governo do Estado em 2006 como a terceira força. De um lado, estava o candidato do governador duas vezes bem avaliado, Jarbas Vasconcelos (PMDB). Em torno de Mendonça Filho (DEM), que já governava Pernambuco desde a desincompatibilização de Jarbas, reunia-se a tríplice aliança PMDB/DEM/PSDB, uma das poucas sobreviventes ao fim do governo Fernando Henrique Cardoso.

Essa aliança aglutinava os principais interesses empresariais do Estado. Ao contrário do que aconteceu no Ceará, onde a ascensão da dupla Tasso-Ciro se fez com o engajamento de uma nova elite empresarial no pacto contra os coronéis, em Pernambuco, a ascensão de Campos margeou esses interesses. Só ao longo de seu mandato, com os caminhões de dinheiro que o governo federal tem despejado no Estado, é que a nova dinâmica da economia local alinhavou-se com o Palácio do Campo das Princesas.

Segunda força do Estado, o PT tinha na candidatura de Humberto Costa o beneficiário natural da popularidade do presidente da República no seu Estado natal. No terceiro mandato na Prefeitura do Recife, o PT sempre foi uma barreira importante à construção de uma hegemonia em torno do governador.

A equação local em torno da aliança PSB-PT, assim como em outros Estados, foi determinante ao malogro da candidatura Ciro. Lula hoje tem 95% de ótimo e bom em Pernambuco, mas o governador temia os ruídos da transferência dessa unanimidade numa disputa entre dois palanques locais. No primeiro turno de 2006, Campos e Humberto, somados, ficaram a 666 mil votos (59%) dos votos do que o presidente teve por lá na reeleição (71%).

O malogro da candidatura própria do PSB trouxe à tona o que, cedo ou tarde, acabaria se evidenciando: o partido talvez fique pequeno para Ciro e Eduardo. Em ambas as vezes em que se pronunciou por escrito sobre a decisão do partido, Ciro usou termos duros para se referir aos comandantes do PSB. Na primeira, disse que não estariam à altura do que a história lhes impõe. Por derradeiro, escreveu que democracia não se faz com donos da verdade.

No comando de um Estado que cresceu 3,8% no ano passado, ante o recuo de 0,2% no PIB nacional, Eduardo Campos é um dos poucos governadores que ainda não sabem quem será o adversário à sua reeleição. Sob sua presidência, o PSB tornou-se majoritário no Nordeste, governando um eleitorado (Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte) superior ao do PT (Bahia, Piauí e Sergipe).

Se reeleito, deixará o governo do Estado como o equivalente, para o campo de forças hoje reunido em torno de Lula, ao que Aécio é hoje para a oposição: nomes da geração pós-1964, que, ao contrário de Serra e Dilma, cresceram na micropolítica herdada do PSD de seus avós e que, mesmo sendo economistas, parecem mais à vontade num encontro de prefeitos do que numa mesa redonda sobre o nó cambial.

Para se viabilizar nacionalmente, Campos depende que seu campo político se desloque do PT. Nome de visibilidade nacional muito mais evidente, Aécio ainda precisa esperar que o eixo de seu partido se desloque de São Paulo. Não acontecerão se um Lula 3 for posto em marcha, mas anunciam a perspectiva de temperança num cenário em que, noves fora Ciro, Serra ou Dilma vão elevar a temperatura da política.

3 comentários sobre “Requiem para Ciro

  1. Ciro perdeu a chance de SP ou ainda não?
    Skaf?
    Sei não…
    Eu chutei certo quando Mercadante se colocou indignado contra Sarney e o próprio PT na epopeia dos atos secretos. Foi ator de novela das oito, apesar de que fica difícil para o paulistano comum da classe média, aceitar a distância tentada entre o PT do governo federal e o cargo que Mercadante pleitearia em SP em 2010. Pois ele sai para governador e veremos se ao menos ganhou alguns votinhos em SP. Duvido!

    1. SP na teoria não. Mas na pratica, só se sair num bloquinho bem menor. Mas vc está certo em levantar todas as possibilidades. Seria uma reviravolta dramatica com certeza, Ciro e Mercadante contra Alckmin, desconstruindo o Gov. Serra. Será?

      Skaf é peão nesse jogo de xadrez.

  2. Sempre torci por isso e o Skaf é peão mesmo… mas parece que ele não aceita sair de vice, estranhei um pouco isso.
    Quero dizer; primeiro o Ciro muda o domicílio eleitoral para o estado de São Paulo, depois sai na TV apoiando Skaf na propaganda do partido, falou da educação e do investimento em tecnologia (ta certo que não havia ponto pacífico na cabeça de Ciro quanto ao pleito presidencial pelo visto; ou havia?), então ele toma atitude semelhante a de Mercadante se colocando alheio às pretensões e posições petistas dizendo que Serra esta mais bem preparado do que Dilma.
    Seria uma benção para o estado de São Paulo ter essas alternativas a Alckimim (o “step” do PSDB). Se não rachar agora que seja daqui a quatro ou oito anos (caso a Dilma vença agora), quando de, e se um PT enfraquecido nos próximos pleitos federais (Lula beira os 80 anos), garantir São Paulo e enfraquecer Aécio no Sudeste.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s