Direitos já. Com sensibilidade.

Hoje saiu um texto tão bonito no site Terra Magazine (que acolhe o blog Bob Fernandes) que não posso deixar de indicar.

O link é este. Lá há uma discussão com 200 comentários.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4407382-EI8423,00-Direitos+Ja.html

E copio a seguir o texto sublinhando o que mais me comoveu.

DIREITOS JÁ

por Marcelo Carneiro da Cunha, de São Paulo (SP)

Aleluia, estimados leitores! Pois não é que o mundo deu um salto pra frente nessa semana? Enquanto todos ficavam ligados na reunião do Copom para aumentar os juros, ou no Flamengo x Corinthians pra ver quem estava mais fora de forma, com vitória por larga vantagem para Ronaldo, ou embasbacados pela revista Time ter colocado o nosso Lula como a maior personalidade de 2010 NO MUNDO; o STJ concedia a um casal o direito de adotar duas crianças. O que parece a coisa mais saudável, feliz e normal do mundo, a adoção de um filho, foi um momento épico, porque o feliz casal, que finalmente pode adotar os filhos com quem já vivia há sete anos, era formado por mamãe Luciana e mamãe Lidia, duas mães, nenhum pai, no sentido formal do termo.

Assim, já que o Legislativo e Executivo não ajudaram, o STJ fez a sua parte na remoção do entulho, e, agora, casais gays vão poder adotar uma criança.

Claro que no dia seguinte, um padre da CNBB (um especialista em sexualidade, não é mesmo?) e um pastor da Assembléia de Deus (especialista em coisa alguma, não é mesmo?) vieram declarar que sentem muita pena das criancinhas, que agora não vão mais poderem ser órfãs e solitárias, mas poderão ser adotadas por qualquer um com suficiente amor no coração, uma coisa terrível, não é mesmo?

Nada me parece mais maluco do que alegar um suposto conhecimento do que Deus disse sobre algo para justificar uma injustiça. Mas é exatamente isso que padres e pastores adoram fazer, para convencer pessoas a torturar os seus semelhantes. Tortura é crime, estimados leitores. Privar alguém de dormir é tortura e é ilegal. Privar alguém da sua liberdade de ir e vir também é crime. Proibir alguém de amar é o que, na sua opinião? Privar alguém de exercitar o direito de amar uma criança ao ponto de suspender a solidão dela pela duração da sua vida inteira, adotando-a e assumindo essa enorme responsabilidade, é o que mesmo?

Eu não sei o que os leitores sabem, mas eu conheci crianças em orfanatos, e posso garantir a vocês que elas não querem nada mais nessa vida do que o que quase todos os que me lêem devem ter a sorte de ter, que são, nada mais, nada menos, do que um pai, uma mãe, vários de cada, o que for, desde que ela possa chamar pelas palavras mágicas, “pai”, “mãe”, e se sinta cuidada e amada. Uma criança não dá a mínima para a sexualidade da mão que toca a sua testa se ela tiver febre, não está nem aí para o número de pais e mães que venha a ter, desde que ao menos um esteja por perto para a admirar quando ela acertar o gol, tirar uma boa nota em alguma prova, se mostrar uma boa criança, ou simplesmente a sua criança.

Alguns entre vocês podem se preocupar com os eventuais preconceitos que as crianças possam sofrer na escola, no clube, na serra ou no campo, por terem pais gays, e eu vou ter que concordar. Dada a quantidade de intolerância e burrice ainda presentes no nosso mundo, essa é uma real possibilidade e, sim, temos um problema. Mas comparem isso a uma vida solitária para uma criança sem pais ou mães, hetero ou gays, e onde chegamos? Qual o maior problema?

Preconceitos são parte da nossa humanidade. Submeter-se a eles é apenas uma das nossas piores fraquezas. Superá-los é uma prova da nossa capacidade de sermos maiores do que nós mesmos.

Nada me incomoda mais do que os preconceitos abastecidos com doses generosas de interpretações nada generosas de bíblias, ou qualquer outro manual de normas religiosas. Vocês talvez não saibam, mas padres e pastores já usaram os mesmos argumentos para justificar a discriminação contra os indígenas, contra as mulheres, contra os judeus, contra os negros. E eles estiveram errados SEMPRE! Hoje, quem aí vai defender a tese de que os indígenas não têm alma, mulheres não podem votar, ou de que os negros são escravos por natureza? Portanto, é óbvio que padres e pastores estão tão errados nesse caso quanto sempre estiveram nos outros, e o preconceito contra os gays é tão estúpido e grosseiro quanto os outros preconceitos foram, antes de serem eliminados do nosso conjunto de crenças pela nossa evolução como sociedade. E, se não bastasse o fato de eu, obviamente, estar certo agora como sempre estou, ainda existe o pequeno detalhe de que temos uma Constituição nesse país, e ela é claríssima quando diz que TODOS os cidadãos são iguais perante a lei.

Ué, todos quer dizer todos, ou alguma outra coisa que pastores e padres não compreendem direito? Todos são iguais. Todos podem casar, adotar, amar, se separar, cuidar dos pais e mães, ser gente, com todos os direitos preservados, e não sonegados. As pessoas têm o direito ao que a lei garante a todos, estimados leitores. E elas têm esse direito, não porque eu ache legal, ou porque eu não ache legal, mas porque sim. E negar esse direito é cruel, e criminoso.

Em um dos maiores livros do mundo, “As Aventuras de Huckleberry Finn”, Huck é um menino de rua americano no século 19, que foge em uma jangada de sua aldeia na margem do rio Mississippi, e que, por acaso, ajuda um escravo a fugir junto. No entanto, ele começa a se sentir culpado. O pastor evangélico da sua aldeia passou anos insistindo que ajudar um escravo a fugir era um crime contra Deus, e que quem o cometesse iria para o inferno. Huck, como todo mundo naquela época, tinha muito, mas muito mesmo, medo do inferno.

E então Huck resolve enganar Jim, o escravo, entregando-o à polícia, na primeira cidadezinha que surgir. Mas, ao se aproximar da cidadezinha, Huck começa a lembrar de todas as coisas boas que já viu Jim fazer, começa a pensar no sujeito legal, muito legal, que Jim é. Jim é um amigo! E nesse momento Huck faz a escolha bela, redentora, que eleva o livro para o nível de grande literatura em que ele vive desde então: “Azar”, diz Huck, para si mesmo. “Eu prefiro ir para o inferno”.

A foram certa de ser divino é ser um bom humano com os demais humanos, estimados leitores, mesmo que isso seja exatamente o contrário do que dizem padres e pastores desumanos.

Pense e seja um Huck você também, porque o rio Mississippi passa sempre em frente à nossa casa. Basta desligar a escuridão e ligar a luz, coisa que qualquer um de nós, mas qualquer um mesmo, pode fazer, e é só fazer. Então, e é simples assim, faça.

9 comentários sobre “Direitos já. Com sensibilidade.

  1. Otimo texto realmente. Eu acho esse debate tão medieval que nem tenho paciência pra entrar nele. Sei que é negligente, mas é que meu pavio é curto.

    Eu sou racional: Opção 1: Deixar as crianças em orfanatos e instituições que tentam, mas não tem condições de cuidar de todos que lá chegam. E pior, deixa-las na rua, no frio, roubando e, agora, fumando crack. Opção 2: Dar um lar, carinho, alimento, remédio, escola pra eles. Seja para outros seres humanos que não tem condições de ter filhos, seja para outros seres humanos que tem uma opção sexual diferente da minha.

    Pq pra mim é tao obvio que ofende a minha inteligencia escolher qualquer outra coisa que não a segunda opção.

  2. Lindo texto Gunter. Mais ainda porque fala do direito das crianças e também dos homosexuais. Torço para que nosso mundo evolua rápido nesse quesito, tenho vergonha de pertencer a uma sociedade tão estúpida que não consegue enxergar a injustiça de não deixar as pessoas amarem quem quisserem. Sou mais radical nessa questão do que muitos amigos que tenho que são homosexuais. Acho que como hetero tenho esse dever, porque não sofro o preconceito que eles sofrem, então posso lutar com mais força.
    Essa questão foi um dos primeiros motivos para eu colocar a marina silva do lado de lá. Ela não concorda com a igualdade das pessoas e isso para mim é inaceitável.

  3. Já não era sem tempo.

    Falta agora o julgamento de uma ação que corre no Rio, sobre o reconhecimento de união estável entre pessoas do mesmo sexo, voltar pro STJ.

    Explico: em 2009, o STJ julgou um Recurso Especial contra um acórdão do TJRJ, que decidiu pela extinção de um processo de reconhecimento de união estável, formulado por um casal de mesmo sexo.

    O argumento do TJRJ foi de que o pedido seria juridicamente impossível.

    Grosso modo, juridicamente impossível é pedir algo que a lei expressamente proíbe.

    O STJ, por maioria, anulou o acórdão do TJRJ e mandou o juiz de primeira instância julgar a ação.

    Foi uma votação (no STJ) muito dura, 3 votos a 2. Com direito a mudança de voto.

    Isso tudo só para dizer que É POSSÍVEL julgar uma ação de união estável de pessoas do mesmo sexo. Nada a ver com o mérito do pedido.

    Algo me diz que essa mesma situação vai subir de novo pro STJ, dessa vez com o mérito – se é legal o reconhecimento da união estável de pessoas do mesmo sexo.

    Não que eu ache que esse assunto mereça alguma grande controvérsia, porque pra mim está na cara que a Constituição Federal veda a discriminação, ao mesmo tempo em que regra de direito civil (união estável é regra dessa seara) não precisa estar positivada (escrita) para ser reconhecida.

  4. Pena que pouca gente leia o texto, matéria imprescindível para apreciadores do estudo da engenharia do comportamento humano. Vimos de tudo: “os prós”, “os contras” e “os neutros”. – Tudo para a tese “Teoria e Prática” – nova edição.
    Patenteado ficou: Criança desamparada é a melhor matéria prima para fabricação do bandido de amanhã!

  5. Obrigado pelo apoio, aiaiai. Eu posso dizer que faço parecido, como homem entendo que há um grande erro nas relações de trabalho que envolvem as mulheres. Como paulista entendo que houve um favorecimento tributário para o estado por décadas que precisa ainda ser revertido. Como alguém que não teve dificuldade de cursar uma universidade pública sou a favor de cotas sociais e/ou raciais e por aí vai.

    Fernando, essa declaração da Marina eu já li, não lembro aonde, deve ter sido postada em algum blog em um comentário. Não era nada dogmático. Pelo contexto era algo como que ela não acreditava em algumas coisas, em função da religião dela, mas que ela não deixaria isso interferir sua posição como personalidade pública e política para todos os brasileiros. Foi numa oportunidade em que ela disse a um questionamento que não colocaria o criacionismo no ensino público (ela pode ter se perguntado “como se um presidente tivesse poder para isso…”) Acho que foi mais na linha de “vamos tirar essa questão de religião do debate, sou criacionista e isso não é o ponto” Não fiquei com impressão negativa, mas também não positiva.

  6. LINDO TEXTO!

    Meu Deus, me vieram lágrimas aos olhos.
    Quero agradecer ao autor, Marcelo Carneiro da Cunha, por escrever algo tão bonito e compassivo. Parabéns!

    Ler isso fez bem ao meu coração!
    Vou dormir levinho agora. rsrs

    E obrigado ao Gunter pela indicação.

    Valeu pela gentileza de me avisar de algo tão belo.

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