Filme sobre Eliezer Batista, pai de Eike Batista, põe o dedo na ferida da Vale


O controle da Vale foi vendido por 3,33 bilhões de reais – um preço ínfimo sob qualquer ângulo de análise. Hoje o lucro da mineradora em apenas três meses costuma ser superior ao valor desembolsado pelo consórcio formado por BNDES, fundos de pensão, CSN, Opportunity e NationsBank para arrematá-la


Filme sobre pai de Eike põe o dedo na ferida da Vale – Portal EXAME

Filme sobre pai de Eike põe o dedo na ferida da Vale

Documentário Eliezer Batista – O Engenheiro do Brasil traz bastidores importantes sobre a privatização da Vale e ainda ajuda a mapear o DNA do bilionário Eike Batista

Por João Sandrini | 03.12.2009 | 08h58

Esqueça Lua Nova, 2012 ou qualquer outro blockbuster em cartaz. Para quem se interessa por economia e negócios, o filme mais interessante nos cinemas é Eliezer Batista – O Engenheiro do Brasil. É verdade que a fita, vista por apenas 350 pessoas no final de semana passado, o primeiro de exibição, comete boa parte dos pecados capazes de estragar qualquer documentário. A produção foi paga pelas empresas interessadas na divulgação da história. Os depoimentos de amigos são óbvios e excessivamente elogiosos. A própria família se encarrega de contar boa parte do enredo. A narração dos acontecimentos é feita de uma maneira quadradona.

Mas cabe ao próprio Eliezer salvar o filme e justificar o dinheiro do ingresso. O empresário, pai de Eike Batista, foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do Brasil no século passado. Como presidente da Vale na década de 60, desenvolveu o plano logístico que o possibilitou ao Brasil tornar-se um grande exportador de minério de ferro ao Japão – apesar de a distância percorrida pelo produto nacional ser sete vezes maior do que a do minério dos concorrentes australianos.

Como engenheiro, teve participação decisiva na construção da Estrada de Ferro Vitória-Minas, do porto de Tubarão (ES), da ferrovia entre a mina de Carajás (PA) e o porto de São Luís (MA) e do porto de Sepetiba (RJ). Em um país tão carente em infraestrutura, apenas essas obras já seriam suficientes para comprovar sua capacidade de realização. Mas Eliezer também ajudou na criação da Aracruz, que no início de 2009 se uniu à VCP para formar a maior empresa de celulose do mundo, e foi ministro nos governos – mal-sucedidos – de João Goulart (1961-64) e Fernando Collor de Mello (1990-92).

Além do papel de protagonista na formação econômica do país, Eliezer mostra, na fita, características humanas bastante raras no meio empresarial. Sempre bem-humorado, apresenta uma enorme capacidade de rir da vida e divertir aos próximos. Ao mesmo tempo, revela, em alguns de seus depoimentos, sensibilidade suficiente para emocionar os corações mais capitalistas.

Conhecer o personagem também ajuda a mapear o DNA de Eike Batista. Dono da conta corrente mais gorda do país, o bilionário é hoje capaz de reunir investidores para seus projetos como nenhum outro manda-chuva do mercado financeiro brasileiro. Obviamente muitos dos conhecimentos técnicos sobre mineração e logística que o ajudaram a construir seu império foram herdados do pai. Ao longo dos 84 minutos do filme, também fica claro que Eliezer transmitiu ao filho ensinamentos importantes sobre a gestão e o financiamento de projetos – os próprios espectadores podem tirar da fita ensinamentos para suas carreiras.

O ponto mais alto do filme, no entanto, é a discussão sobre a privatização da Vale. Apesar de ter a mineradora como um de seus patrocinadores e de contar com depoimentos bastante elogiosos do presidente da empresa, Roger Agnelli, o documentário não deixou de colocar o dedo nessa ferida – que ainda não cicatrizou totalmente 12 anos após o leilão. Assim como já havia declarado Eike em entrevistas recentes, Eliezer também defende que a Vale, além de buscar o lucro, sirva de instrumento para o desenvolvimento do Brasil. Mas ele vai além e não esconde sua convicção de que a decisão do governo Fernando Henrique Cardoso de vender a mineradora teria sido equivocada.

Em uma reunião com o então presidente antes da privatização, Raphael de Almeida Magalhães, amigo de Eliezer, diz ter aconselhado FHC a desistir porque a Vale poderia ser o instrumento do governo para resolver os problemas de logística do país. Com a geração de caixa da mina de Carajás, a maior do mundo, com capacidade de produção de 100 milhões de toneladas de minério ao ano, a Vale poderia viabilizar a construção das obras necessárias para reduzir o custo Brasil. Segundo Magalhães, FHC teria levado adiante o plano de leiloar a mineradora com a justificativa de que era necessário convencer os investidores da seriedade de seu programa de privatizações.

É óbvio que vender um bem estatal tão valioso quanto a Vale apenas por uma questão de credibilidade seria estupidez. FHC não comenta diretamente a afirmação. Diz apenas que tomou a decisão mais adequada para o Brasil naquele momento e descarta a precipitação nas privatizações, citando empresas que se mantiveram sob o controle estatal em seu governo. “Poderíamos ter privatizado a Petrobras, mas eu não permiti que isso acontecesse.”

De qualquer forma, quem assiste ao filme sai do cinema com a convicção sobre a necessidade de diminuir a presença do Estado na economia um pouco abalada. O controle da Vale foi vendido por 3,33 bilhões de reais – um preço ínfimo sob qualquer ângulo de análise. Hoje o lucro da mineradora em apenas três meses costuma ser superior ao valor desembolsado pelo consórcio formado por BNDES, fundos de pensão, CSN, Opportunity e NationsBank para arrematá-la.

No entanto, é impossível afirmar que, sob a tutela estatal, a Vale teria resultados próximos aos apresentados atualmente. Privatizada, a mineradora cresceu exponencialmente, gerou riquezas, contratou funcionários e passou a pagar muito mais impostos. Há quem defenda, principalmente na esquerda mais radical, que o governo poderia ter colhido os mesmos frutos.

Mas basta olhar para a Eletrobrás para entender que uma posição de liderança e ativos valiosos não são suficientes para transformar uma estatal em um colosso. Nas mãos do Estado, a maior empresa de energia do Brasil dá exemplos de má governança, retém o pagamento de dividendos aos acionistas, chega a dar prejuízo em alguns trimestres e, vez por outra, deixa milhões de brasileiros sem luz por não resolver problemas que poderiam ser evitados.

Não é possível voltar ao passado, cancelar o leilão de privatização da Vale, acelerar de novo o tempo e saber o que aconteceria. Líquido e certo é que hoje milhões de brasileiros podem lucrar com as riquezas produzidas pela Vale via mercado de capitais, comprando ações da mineradora. Enquanto isso, em empresas como a Eletrobrás, quem mais ganha são alguns caciques políticos e seus apadrinhados.

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16 comentários sobre “Filme sobre Eliezer Batista, pai de Eike Batista, põe o dedo na ferida da Vale

  1. “Não é possível voltar ao passado, cancelar o leilão de privatização da Vale, acelerar de novo o tempo e saber o que aconteceria. Líquido e certo é que hoje milhões de brasileiros podem lucrar com as riquezas produzidas pela Vale via mercado de capitais, comprando ações da mineradora. Enquanto isso, em empresas como a Eletrobrás, quem mais ganha são alguns caciques políticos e seus apadrinhados. ”

    Essa frase eu ouvia constantemente durante o governo FHC.
    Ainda bem que escassearam as vezes, é a primeira que leio em anos.

  2. Eu comecei a ler com má vontade por conta da fonte (exame, argh), mas mesmo assim tava com vontade de ir até o final. Afinal, o Eliezer é um Personagem. Vc pode concordar ou discordar dele, mas não pode menosprezar o papel que teve no desenvolvimento brasileiro.

    Agora, quando no terceiro parágrafo leio “teve participação decisiva na construção da Estrada de Ferro Vitória-Minas”, ai, não deu para ter mais nenhuma boa vontade.

    A Vitória-Minas existe desde o início do século XX (1904, tendo chegado efetivamente a minas em 1914). Acredito que o eliezer pode ter participado da duplicação, na década de 60, investimento realizado junto com a construção do porto de tubarão e do complexo de usinas de pelotas da vale.

    é isso que mata a imprensa brasileira: falta de noção e preguiça de pesquisar. Outro dia li uma matéria, acho que foi na folha, dizendo que pelota é um “minério muito fino” kkkkkkkkkkkkkkk

    Qt ao filme, acho que vou passar. Pode ter coisas boas, mas é muito chapa branca. Depois que ele morrer, espero que algum cineasta/documentarista faça algo mais real. pelas histórias que conheço, acho que vai valer a pena.

    1. Vcs tem que re-aprender a ler o dito PIG. Qdo chega nessas partes, vc pula. Ate pq essas materias sao feitas a 4 ou 6 maos, pq o editor nao vai deixar de alterar alguma coisa ne? Alias o texto começa muito mal, eu estava com ele aberto numa tab do firefox tem semanas, e nao lia. De qualquer forma, em epoca de Daniel Dantas é melhor ler qualquer coisa sobre isso, pra tentar compreender como conseguimos chegar nessa situação.

      Tb vou passar o filme. Nem o do Lula vou assistir. Mas queria uma biografia do Eliezer pra entender um pouco desse processo da construção das estatais fora daquilo que tem nos livros-texto.

  3. O Eliezer só vai dar para descobrir depois que ele morrer. Imagino que a essa altura já deve ter alguem reunindo informações, a partir de entrevistas com quem conviveu/trabalhou/conchavou com ele. É esperar para ver.

  4. Penso que deveríam ser esclarecidas em definitivo – talvez até mesmo com uma CPI – as denúncias veladas sobre as informações previlegiadas recebidas pelo Sr. Eike Batista sobre a localização de reservas minerais. O estranho de tudo é que o ” empreendorismo” do Sr. Eike Batista tenha sido na mesma área de atuação por onde o seu pai como ministroe presidente da Vale tenha passado…

  5. É tudo mentira! Sucatearam a Vale e a CSN para depois comprá-las abaixo do valor real. O que chamam de empreendedorismo eu classifico como outra coisa. Expropriaram o partimônio público, as pesquisas realizadas pelo Estado, pagas com o dinheiro do povo para descobrirem os veios de minério foram entregues de graça para essas elites inexcrupulosas que, depois de administrar e se locupletarem do Estado, resolveram se apropriar das riquezas nacionais.
    Cedo ou tarde povo brasileiro saberá reinterpretar a História e reescrevê-la de forma livre e isenta dos interesses do capital.

    1. Positivo. A diferença entre eu e vc, é que eu relativizo isso um pouco. Sinceramente, naquela epoca não tinhamos mesmo capacidade de investimento, o estado endividado (eu sei as razões, não concordo com elas, mas isso já é história não?) não seria capaz de fazer a “máquina” se mover.

      Realmente, o capitalismo brasileiro é um factoíde, precisa do BNDES para que os velhos-novos “empreendedores” brasileiros consigam “fazer” algo.

      Enquanto isso, pequenos inovadores sofrem para conseguir montar uma micro e pequena empresa.

  6. Acredito que a parte negativa sobre a venda da empresa ainda fará do FHC o pior governante que tivemos, ele começou bem, mas depois se contaminou pelos politicos ganansiosos (poderosos financeiros) e deu no que deu, afundou o pais e o “Tempo é o Senhor da Razão”

  7. Eliezer Batista da Silva não teve participação decisiva na construção da ferrovia Vitória-Minas. O testo esta errado! A vitória-minas foi construída graças a iniciação do engenheiro Pedro Nalasco (obras começaram em 1903 e inaugurada em maio de 1904). O que não se pode desmintir é o fato de ele ter entrado na Vale quando ela era totalmente insignificante na economia do país e, a partir de sua presidencia (12 anos ao todo), ela ter alavancado como alavancou. Não porque esse poligrota autodidata que aprendeu a falar russo, inglês, alemão, francês, italiano, espamhol e boas pitadas de noções de grego (nato homem de negócios) seja politicamente correto- O que posso falar? Eu sou o cara? Não.. Afinal, adoro comprar ações de MMX e OGX..

  8. Sou engenheiro civil, esse brasileiro Eliezer Batista engrandece todos os profissionais ligados a area de infraestruturas, ele serviu a nação com dignidade, agora o filho vai fazer muito mais, o EIKE, é um homem despreeendido e além disso ousado, nosso país está nos rumos, seremos uma grande nação, não tenho dúvidas—euripedesantonioalves@gmail.com

  9. Sou Administrador e investiidor insider.
    Acompanhei com perplexidade as privatizações e ganhei dinheiro com elas. fazer o que? o dinheiro não é politizado.Todos sabiam que poderiam ter pedido mais pelas empresas privatizadas, só lamento não ter mais dinheiro para investir naquele momento e ganhar exponencialmente mais.Vejo os políticos brasileiros, por mais influentes que sejam, como infelizes amadores, que preferem buscar migalhas com corrupções, favorecimentos e consequentes lesões na alma.Ainda bem que podemos ver exemplos de determinação genética e comprometimento como é o caso de Eliezer Batista e seu filho Eike Batista.Desde os tempos de Irineu Evangelista de Souza(barão de Mauá), faltava ao Brasil esses exemplos de riqueza, determinação e uso adequado das possibilidades do capitalismo.
    Parabéns aos que decidiram mostrar aos investidores do Brasil que é possível e mais elegante enriquecer com o próprio talento.
    Aos jovens profissionais que virão depois de nós desejamos fé,trabalho, determinação e olho nos bons exemplos.
    Boa sorte e fiquem RICOS com elegância.

    Leonardo Fortuna
    fortuna-sa@hotmail.com

  10. Esses documentários servem somente para tentar deixar uma boa imagem desse sujeito o mesmo que Lula tentou fazer através do seu filminho. Não existe autobiografia imparcial. Acho que só por via das dúvidas deviamos prendê-lo e deixar pelo menos uns 20 anos lá.

  11. O comentário que fiz acima, às 09:44 h do dia 09/12/2010 (6 anos atrás), está se cumprindo hoje. Uma pena que seja apenas uma fase da justiça seletiva comandada por interesses do capital internacional! Fica o exemplo e a experiência do PODER DESTRUTIVO DO CAPITAL INTERNACIONAL que põe na cadeia empresários poderosíssimos que poderiam, com o apoio do projeto desenvolvimentista do PT, tornarem-se fortes concorrentes internacionais.

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