DATA – Don’t Sing feat. Benny Sings

Valor sobre Marina :: Uma campanha que custou a sair da defensiva

05h00
Uma campanha que custou a sair da defensiva
Por Daniela Chiaretti e Cristiane Agostine

Na manhã nublada de quarta-feira, Marina Silva ligou desesperada para o celular de Brasília. “Carlinhos, me diga que não é verdade”, perguntou, como quem não quer ouvir a resposta. “Infelizmente é verdade”, respondeu Carlos Siqueira, secretário-geral do Partido Socialista Brasileiro, o PSB, à candidata à vice-presidente. Ele falava de um carro a caminho de Santos; ela, de um flat, em Moema. Às 12h30 de 13 de agosto o Brasil soube que Eduardo Henrique Accioly Campos, 49 anos, candidato à Presidência pelo PSB e ex-governador de Pernambuco, havia morrido em um acidente de avião, junto com mais seis pessoas. A campanha presidencial de 2014 sofria uma reviravolta. Marina Silva chorou, foi para o quarto e se preparou.

A ex-senadora havia se despedido de Campos na noite anterior, no apartamento carioca de Nilson de Oliveira, seu coordenador de comunicação e amigo desde a campanha de 2010, aquela dos 20 milhões de votos pelo Partido Verde. Campos estava feliz com seu desempenho na entrevista ao Jornal Nacional. Tinha 9% na pesquisa Ibope divulgada há poucos dias e acreditava que era só se tornar mais conhecido para melhorar a performance. “Volte comigo, Marina, vamos poder conversar”, insistia o pernambucano. Eles haviam chegado juntos ao Rio, no jato que cairia horas depois no mesmo bairro da casa da sogra de Marina, Neide de Lima, em Santos (SP). Ela desconversava, era melhor que tivessem duas agendas. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e seu candidato a vice, Márcio França, do PSB, estariam lá – dupla que ela não apoiava. Marina queria evitar constrangimentos. Marcaram um encontro às 16h para gravar para o horário eleitoral, que começaria seis dias depois. Faltou combinar com o destino.

O tempo na Baixada Santista estava ruim. O deputado Márcio França, que aguardava na Base Aérea de Santos, viu o jato se aproximar e, de repente, arremeter. Não voltava. Siqueira, que estava em São Paulo com Roberto Freire, presidente do PPS, ligava para o celular de Campos e de seus assessores e nada. Telefonava para França, que dizia que o avião não chegava. A Polícia Federal ligou para o PSB em Brasília, para saber o prefixo do avião. “Foi uma angústia tremenda. Quando a televisão disse que um jato havia caído eu não tive mais dúvida. E então Roberto Freire recebeu uma ligação, e veio a confirmação”, lembra Siqueira. É amigo da família Campos há anos.

Marina Silva decolara do Rio em avião de carreira. Tinha reunião em São Paulo com seu “núcleo duro” – Nilson de Oliveira, Bazileu Margarido, Carlos Vicente, Pedro Ivo, Walter Feldman, Neca Setubal. A filha Moara também estava lá, com o namorado, Paulo. Oliveira chegou ao flat preocupado. O avião de Campos estava atrasado 45 minutos e não havia sinal dele. A comoção foi forte na sala depois do telefonema a Siqueira. Aquele grupo nunca mais seria o mesmo.

O país se comoveu com a tragédia, a vida do político sorridente interrompida no auge, o sofrimento da viúva Renata e os cinco filhos, as lágrimas dos parentes dos outros seis mortos. Seguiram-se dias de doloroso resgate de corpos até o enterro de Campos, em cenas tristes de um Recife enlutado. Marina se recolheu e pediu aos colaboradores que não discutissem o futuro até os funerais. Mas era impossível controlar as especulações. O frenesi político queria superar as perdas e seguir com a vida.

Correntes distintas disputavam o poder no PSB. A mais forte queria Marina candidata da Coligação Unidos pelo Brasil. O movimento contrário a ela – protagonizado pelo grupo paulista -, preferia que o partido não lançasse ninguém. O deputado federal Beto Albuquerque, do PSB gaúcho, pediu que ela o recebesse. Queria expor as tensões dentro do partido e manifestar solidariedade – dias depois seria indicado como vice na chapa, escolha que não teve participação de Marina. O grupo ligado a Roberto Amaral, atual presidente do PSB, cogitou lançar a deputada Luiza Erundina (SP); depois pensaram nela para vice, mas desistiram. O PSB de Pernambuco ventilou colocar a viúva de Campos como vice ou garantir espaço com um político local. A definição do nome aconteceu no domingo, depois do enterro de Campos, em uma conversa entre Amaral, Siqueira, Albuquerque e o deputado federal mineiro Julio Delgado. O anúncio formal foi feito dois dias depois. A chapa deu certo: Albuquerque assumiu a negociação política com candidatos e partidos que Marina não queria, mas que Campos havia costurado.

Já estava claro que a ex-seringueira Marina, 56 anos, tinha apoio popular e da família de Campos para tornar-se candidata. A consagração aconteceria em Brasília, oito dias depois da tragédia. Pouco antes da reunião da Executiva do partido, um encontro entre lideranças do PSB e do grupo de Marina na Fundação João Mangabeira procurou alinhar os discursos. No meio da conversa, Marina disse que faria algumas trocas no comando da coordenação. Queria puxar as finanças para si e nomeou Bazileu Margarido como coordenador. Abriu para que o PSB indicasse quem quisesse e teceu elogios a Siqueira. Mas algo deu errado: Carlos Siqueira recebeu mal aquilo tudo, disse que era uma deselegância o que se fazia com ele e anunciou a retirada do apoio a Marina. Saiu em disparada, sem aceitar desculpas, surpreendendo todos. Erundina foi escolhida para a coordenação, no lugar de Siqueira, e Walter Feldman, o adjunto. Oliveira continuaria na comunicação e Pedro Ivo, na mobilização.

Pautada por adversários, Marina não conseguiu divulgar as marcas de sua candidatura

Uma fornada de pesquisas começou a sair: Marina empatava com Dilma Rousseff no primeiro turno, com 34% (Datafolha), no fim de agosto, e 33% (Ibope), no começo de setembro. Aécio Neves (PSDB) parecia carta fora do baralho. O PT ficou desnorteado com a arrancada da rival. João Paulo Capobianco, braço direito de Marina no Ministério do Meio Ambiente, seduzia o agronegócio conseguindo apoio explícito dos produtores de álcool, ressentidos com o desamparo do governo Dilma. O mercado financeiro vibrava com a proposta de um Banco Central independente. A Bolsa subiu. Com agenda lotada, Marina perdia peso, mas brilhava.

Na sexta-feira, 29 de agosto, o bufê Rosa Rosarum, em São Paulo, lotou para o lançamento do programa de governo – a base de sua aliança com Campos. Eram 242 páginas de um livro de capa verde que Marina viu pronto apenas naquele momento.

A euforia durou pouco. Dois erros colocariam nuvens negras na campanha. Um deles teve preço político altíssimo.

Campos e Marina dividiram a leitura do calhamaço e depois trocaram as metades. Cada um tinha um método: ele lia tudo, questionava, comentava e morreu antes de ler o último dos seis capítulos, onde estão propostas para a comunidade LGBT. Marina distribuiu o material a seus assessores para que lessem a compilação consensuada das milhares de propostas e dessem seu parecer. Depois lia as observações e alterava o que não concordava. Uma equipe foi contratada para fazer a sistematização das propostas. Na coordenação de tudo, Neca Setubal e Maurício Rands. Marina não leu a versão impressa.

O primeiro erro apareceu logo que o evento terminou. Embora o capítulo sobre energia não citasse nunca o nuclear, respeitando a oposição de Marina e Campos à fonte, o termo escapou e apareceu no capítulo sobre inovação. A imprensa recebeu a errata às 21h20.

O recuo mais grave veio no dia seguinte e versou sobre as propostas para a comunidade LGBT. Com um texto mais liberal até do que o PT pregava, o programa de Marina defendia o projeto que criminaliza a homofobia, em tramitação no Congresso; defendia o fim dos obstáculos à adoção de crianças por casais homoafetivos e estimulava o desenvolvimento de material didático sobre orientação sexual.

Recém-saído do bufê, Nilson de Oliveira recebeu um alerta de sua equipe que monitora as redes sociais. Algo estava estranho. Ele, Rands e Feldman se deram conta de que o texto não correspondia ao que Marina defendia – alguém mandou o arquivo errado para a gráfica. Marina ficou irritada e passou a responsabilidade aos assessores: “Decidam vocês o que fazer”. A ideia de não corrigir e evitar a repercussão negativa se tornou impraticável – Marina não sustentaria publicamente o que estava escrito. Decidiram pela errata e por pagar o preço do incrível erro.

Enquanto isso, no twitter, internautas perguntaram ao pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, o que havia achado do texto. Às 22h56 ele partiu para o ataques. “O programa de governo do partido de Marina é pior que o PT e o PSDB, no que tange aos direitos dos gays. Apoia descaradamente o casamento gay e pede, inclusive, a aprovação do extinto PLC 122, que, entre outras coisas, põe pastor na cadeia.” Disse aguardar Marina.

A errata chegou às 10h50 do sábado, mas o recuo foi associado à pressão do pastor. A campanha negou qualquer tipo de influência de Malafaia, mas o dano já havia sido feito. “O custo político foi muito alto. Abriu uma brecha para quem não tinha sequer programa desqualificasse nosso trabalho”, analisa um assessor. Marina não conseguiu se livrar da pecha de fundamentalista e conservadora.

O bombardeio seguiu, conforme PT e PSDB reviam suas estratégias e se refaziam do susto das pesquisas. Dilma usou o horário eleitoral para acusar a adversária de querer acabar com o pré-sal. Em palanque, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva gritava que, se necessário fosse, se jogaria no mar para arrancar a riqueza do petróleo. O programa de Marina, ao defender uma economia de baixo carbono, nunca disse que não exploraria o pré-sal, mas não resumiria o futuro ao combustível fóssil.

Marina estava no auge das pesquisas e a estratégia de campanha do PT foi de desconstrução da candidata. O ataque mais polêmico veio da campanha de Dilma. Uma propaganda mostrava banqueiros felizes e depois retirava pratos de comida da mesa de uma família, com o locutor dizendo que isso aconteceria com a autonomia do Banco Central. Outro golpe foi sugerir que os adversários de Dilma acabariam com o Bolsa Família. Ex-petista, Marina chorou ao ouvir os ataques de Lula, o velho amigo. “Também amo Marina”, respondeu o petista, dias depois. “Mas eleição não é questão de amor.”

A campanha começou a se ressentir do fogo cerrado. Marina ficou na defensiva, pautada pelas críticas dos rivais. Em resposta, disse que diante dos ataques ofereceria a outra face. Não foi suficiente. A candidata do PSB despencou nas pesquisas enquanto Dilma e Aécio subiram e 34 dias depois do lançamento do programa, a petista cresceu de 34% para 40% (Datafolha). O tucano subiu de 15% para 21%. Marina caiu de 34% para 24%.

Com um sexto do tempo de televisão de Dilma e sem conseguir revidar os ataques, Marina também patinou ao enfrentar os problemas nos palanques estaduais. Ao assumir a candidatura, teve que enfrentar divergências em metade das alianças: em 14 Estados houve acordo, mas em 13 há conflitos. Com Campos, havia combinado fazer duas agendas conjuntas e cinco separadas a cada semana, para dar visibilidade à candidatura e driblar os conflitos estaduais.

A “nova maneira de fazer política” obrigou acrobacias no calendário de comícios. Escalado para subir nos palanques em que Marina se recusa, Albuquerque foi a Campinas (SP), em evento organizado pelo PSB local com a campanha do tucano Alckmin, a cerca de duas semanas das eleições. Marina foi à cidade, a mais populosa do interior paulista, dois dias depois, no mesmo local do ato com tucanos.

No palanque e no horário eleitoral, Marina dedicou-se a falar sobre o que não vai fazer. Não vai acabar com o Bolsa Família. Não vai reduzir direitos trabalhistas. Não vai parar de explorar o pré-sal.

Em comício no interior da Bahia, Marina usou sua vida como exemplo para desmentir o boato sobre o fim do Bolsa Família. Quem passou fome “na própria carne”, disse, jamais acabará com o programa. No palanque, deixou para trás termos impenetráveis como os “núcleos vivos da sociedade”, frequentes em 2010. E reclamou do discurso do medo contra ela: “Se o povo brasileiro fosse medroso, não pegava no cabo da enxada para ir trabalhar na roça, não teria enfrentado a ditadura”.

Candidata teve que enfrentar divergências nos Estados; fez acordo em 14 deles mas há conflitos em outros 13

A artilharia reforçou a ofensiva. A campanha petista a comparou aos ex-presidentes Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello, que não terminaram seus mandatos. O PT vinculou a coordenadora do programa de governo, Neca Setubal, herdeira do Itaú, aos interesses dos banqueiros. Explorou a contradição de Marina ter dito que votou a favor da CPMF, quando votou contra em plenário. A candidata reclamava dos ataques, negava acusações e respondia como podia. Mas não conseguia conter a destruição.

A campanha seguiu movimento pendular, de vai e vem, ataque e esclarecimentos. Se prometeu “atualizar” a legislação trabalhista a um grupo de empresários, – sem detalhar o que pretendia – teve que articular às pressas um comício em São Bernardo do Campo para negar acusações de que flexibilizaria leis trabalhistas. Marina se disse vítima de “fofocas”. “Podem caluniar, dizer o que quiser, mas o meu testemunho de vida está marcado na carne”, reagiu em Manaus.

O comício mais comovente foi no Recife, na última semana de campanha. Marina levou ao palanque a viúva e quatro dos filhos de Campos. Em discurso emocionado, João, o mais velho, lamentou a perda do pai, mas agradeceu a Deus por aproximá-lo de Marina: “Meu pai se transformou no que esperava, nos seus ideais e nos seus sonhos.” De microfone na mão, Marina dizia que não ia entrar na guerra de marqueteiros dos rivais.

A estratégia de comunicação de trincheira é apontada pelos assessores próximos de Marina como um dos principais problemas da candidatura no primeiro turno. Se é para manter o que já existe, analisaram, como convencer o eleitor a mudar? No balanço do comando da campanha, Marina passou tempo demais sendo pautada pelos adversários, sem apresentar seu projeto. Nas conversas com o responsável pelo marketing da campanha, o argentino Diego Brandy, Marina recusava-se a partir para o ataque contra Dilma e Aécio. A falta de um tom forte contra Malafaia também irritou os conselheiros.

Outro problema foi ter herdado uma campanha já pronta, a menos de dois meses da eleição, sem conseguir imprimir marca própria. As principais propostas apresentadas por Marina foram escolas públicas com turno integral e passe livre para seus estudantes. Eram ideias defendidas por Campos. O desenvolvimento sustentável e as bandeiras socioambientais, tão próprias de Marina, sumiram.

Marina também se viu diante de turbulências do PSB, mas procurou se manter distante das brigas de poder internas do partido que a acolheu há um ano. “Hospedeiro não se mete na casa do hóspede”, diz um interlocutor.

A desvantagem no tempo de TV – dois minutos contra os quase doze de Dilma – desaparece no segundo turno, quando todos têm 10 minutos. Se a candidatura passar à segunda fase, mais tempo de TV pode ser um problema. Diego Brandy não tem experiência em campanhas presidenciais no Brasil – atuou na de Campos ao governo de Pernambuco e de Geraldo Julio (PSB) à Prefeitura do Recife, mas nunca como estrategista. Marina recusa um marqueteiro que defina seu discurso. O cineasta Fernando Meirelles, que a ajudou em 2010, será um consultor informal e tem ajudado no reforço das equipes de produção e criação.

O jornalista Antonio Alves, o Toinho, velho amigo e conselheiro da candidata do PSB, cuida do roteiro, edição e articulação da estratégia da campanha com a equipe de Brandy. Toinho trabalhou no passado em campanhas do PT no Acre e é conhecido pelas boas ideias e capacidade de improviso – certa vez, em campanha pobre, criou um teleprompter de cartolina enrolada em um cabo de vassoura. Comparada com o poder de fogo de Dilma, a campanha de Marina -para ficar em uma imagem ao gosto da ex-senadora – é mesmo uma batalha de Davi e Golias.

Marina fechou a campanha com o risco de não avançar ao segundo turno. A equipe sentiu a tensão e o desânimo. Na sexta-feira, durante a preparação da candidata ao debate da TV Record, Neca Setubal passou mal e foi para o hospital. Sintomas do stress dessa fase da campanha. “As mentiras do PT colaram”, lamentava um assessor. Na reta final (diferente da disputa de 2010, quando subia nas pesquisas), seu desempenho estava em declínio e muito próximo ao de Aécio Neves. Caciques do PSDB atribuíam parte da “culpa” de sua queda também aos ataques de Aécio. “Em eventual aliança de ambos no segundo turno, o compromisso terá que ser com a adesão ao programa e não com a promessa de cargos”, adianta um assessor de Marina. A única coisa certa, se a candidatura sobreviver às urnas no domingo, é que Marina Silva terá que falar do que não falou – de sua visão de um Brasil sustentável. E esclarecer o enigma que persiste até agora – com que dinheiro, afinal, foi pago o jato que matou Eduardo Campos.

Luiz Felipe de Alencastro no Valor: A fronteira de outubro

Valor Econômico

26/09/2014 às 05h00
A fronteira de outubro

Por Diego Viana

Folhapress

Alencastro: dinamismo da política transparece no fato de se ter duas mulheres disputando a Presidência, uma delas negra

Liderada por candidatas que fizeram carreira política longe das máquinas partidárias dos Estados, a corrida eleitoral pode marcar uma inflexão importante no presidencialismo, avalia o cientista político e historiador Luiz Felipe de Alencastro. Se Aécio Neves não reverter a queda em intenções de votos, o segundo turno não terá candidato tucano pela primeira vez desde 1989, e o único candidato formado na política dos Estados (após a morte de Eduardo Campos, que também tinha essa origem) estará fora da disputa. Alencastro observa que Marina Silva se formou politicamente na luta ambientalista e no período em que foi ministra do governo Lula. Em sua opinião, aquela possibilidade tenderia a reforçar o federalismo no país, reduzindo o peso dos Estados mais importantes na formação de futuros eventuais presidentes, e abriria caminho para uma renovação política.

Em entrevista ao Valor, Alencastro criticou a ausência da política externa como tema de debate entre os candidatos à Presidência. Após o empenho do governo de Luiz Inácio Lula da Silva para expandir a presença do Brasil na geopolítica global, sua sucessora recuou, disse e deu-se um “apagão”. Também falou sobre a ascensão de Marina Silva nas pesquisas, o significado de episódios de racismo e as manifestações de rua do ano passado.

Alencastro retornou ao país neste mês, após uma carreira como professor de história do Brasil na Universidade Sorbonne (Paris IV). O Centro de Estudos do Brasil e do Atlântico Sul, que dirigia, associado à sua cátedra, está sendo transferido para o Brasil. Terá sede na Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, onde Alencastro é professor titular. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: Temos a perspectiva, pela primeira vez desde 1989, de um segundo turno sem o PSDB. O que isso significa?

Luiz Felipe de Alencastro: O presidencialismo no Brasil mudou. O presidencialismo paradigmático é aquele em que os presidentes costumam sair de uma base estadual. É assim nos EUA e foi assim no Brasil antes da ditadura. Juscelino foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais. Jânio Quadros, prefeito e governador de São Paulo. Aécio Neves é de Minas, base regional. Se ele ficar fora do segundo turno, teremos Marina Silva e a presidente Dilma Rousseff, que não vêm desse paradigma. Os Estados desapareceriam como centro da política, algo que vem desde a formação do Brasil como Estado nacional. A contrapartida será abrir o quadro para uma renovação muito forte da política brasileira, como já se vê pelo fenômeno extraordinário de termos duas mulheres disputando a Presidência, uma delas negra. Isso dá prova do dinamismo da política brasileira.

Valor: Além da subida de Marina, um efeito da morte de Eduardo Campos foi a redução drástica do índice de indecisos.

Alencastro: Dilma vai para o segundo turno sem reserva de votos. Se, no quadro anterior, a eleição fosse para o segundo turno, uma parte dos votos de Campos ia para Dilma. Agora, os votos do Aécio vão todos para Marina. Não ter essa reserva é um problema grave para Dilma. Quanto a Aécio, os estragos em sua campanha, com o descolamento de cabos eleitorais no interior e a rarefação das fontes de financiamento, me parecem irreversíveis, apesar da recente melhora em intenções de voto.

Valor: Depois do impulso inicial, a subida de Marina parece ter estagnado, reabrindo o leque de possibilidades.

Alencastro: É importante ter um segundo turno. O Brasil é um país complicado e merece essa discussão. No primeiro turno, como se diz, candidatos são eliminados. O presidente é escolhido no segundo. Marina promete reduzir o Estado, mas também se empenharia na política social, o que é contraditório. Mas me preocupa o fato de ela não ter sido capaz de montar um partido político. Ela vem de um fiasco inicial que o destino mudou de maneira espetacular, o que certamente reforçou nela a ideia da mão do destino, mas sua própria base política, e agora a organização do programa de governo, está mostrando que há contradições.

Valor: Marina tem sido criticada por voltar atrás em várias posições. Isso afeta o eleitorado?

Alencastro: Marina tem repetido a ideia de governar com os homens de bem. “Homens de bem” é um conceito ingênuo, mas também perigoso. De repente, durante o governo, ela descobre que seus assessores não são homens tão de bem como pensava, porque ninguém sabe bem o que é isso. O que Marina vai fazer? Essa expressão passa também a ideia de um país sem conflito, sem grupos sociais com visões profundamente divergentes. É despolitizante. Ela vai ser presidente de um país dividido, com interesses conflitantes. Isso é normal num país complexo. Um país onde os interesses não se exprimam no jogo institucional ou é ditadura ou é um país passivo diante do Estado.

Valor: Não haveria uma despolitização anterior? Dilma, por exemplo, foi eleita como gerente, e não por causa de habilidades políticas.

Alencastro: Por que Lula decidiu sozinho, impôs, não teve convenção, nem nada. É claro, já tem uma despolitização. O PT foi decapitado também. Hoje, o puxador de voto do PT em São Paulo é o Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians. Não tem liderança política. O mensalão decapitou o partido. Não surgiu outra liderança com experiência política. A única liderança que apareceu foi o [Fernando] Haddad, e ainda dando cotovelada para abrir espaço dentro do PT.

Valor: Ainda assim, a conquista da Prefeitura de São Paulo é considerada uma grande vitória para o PT.

Alencastro: A eleição de Haddad em 2012 desequilibrou a política nacional, porque está ligada a uma mudança. Imediatamente, colocou Eduardo Campos na corrida sucessória, rompendo com o PT. Campos viu que vinha uma nova geração e ele não seria o candidato natural à sucessão de Lula. Se Haddad fizer dois bons mandatos de prefeito, ganha notoriedade nacional. Por isso o cerco em cima dele, as ações nos tribunais contra o IPTU progressivo.

“O puxador de voto do PT em São Paulo é o ex-presidente do Corinthians. Não tem liderança política. O mensalão decapitou o partido”

Valor: O eleitorado conservador parece ter visto em Marina Silva uma tábua de salvação quando o PSDB entrou em crise.

Alencastro: É um desastre para o Brasil a derrocada do PSDB, um partido de governo, que tem a experiência do Estado. É por isso que nunca houve aliança entre PT e PSDB. A polarização, que parece arcaica, expressa o fato de que os dois partidos têm uma concepção diferente do Estado, e por isso não se aliam. O PMDB e outros partidos se alinham com todo mundo porque não têm concepção nenhuma.

Valor: Por que o eleitor conservador precisa de tábua de salvação? Não tem um quadro próprio capaz de gerir o país?

Alencastro: Isso é exemplarmente demonstrado na declaração do Agripino Maia (DEM-RN), coordenador da campanha de Aécio, quando diz que o principal objetivo é levar o tucano ao segundo turno e, se não puder, tudo contra o mal maior, que é o PT. Essa frase é rústica, uma forma primária de fazer política. Qual é seu programa de governo? É tudo contra o PT. O Clube Militar expressou um sentimento semelhante recentemente.

Valor: Marina pode ser classificada como anti-PT?

Alencastro: Marina diz que não faz política tradicional, mas foi muito hábil. Logo que saiu candidata, ela disse: “Não vou me candidatar a um segundo mandato”. Essa foi a regra que Aécio tinha exigido de Campos. Os dois se declararam contra a reeleição e foram criticados, mas para eles era fundamental. Era a chance de um herdar os votos do outro no segundo turno e depois passar a chance ao fim do mandato.

Valor: Não seria um acordo fácil de romper?

Alencastro: Sim, mas o interessante é que Marina fez o mesmo acordo sem dar declarações tonitruantes contra a reeleição. Fez a politicagem mais eficaz, e com toda a razão. Mas não se recusa ao jogo político de jeito nenhum.

Valor: Pelo que o senhor está dizendo, ela anunciou que seu mandato vai ser um tampão.

Alencastro: O que é uma grande ilusão, porque, fora do governo, o PT vai ser um grande partido de oposição. Vai desabar aqui e lá, mas vai se reestruturar. Marina é uma liderança carismática vinda de um partido tão pequeno que não conseguiu se viabilizar. Ela se instalou num partido maior, que não é seu. Esses ingredientes estavam presentes nas crises de 1961 e 1992. Por isso, não me parece absurdo lembrar Jânio Quadros e Fernando Collor.

Valor: O governo Dilma mexeu em vários pontos da economia, como a redução dos juros, as concessões na infraestrutura e a desoneração da indústria, sem que houvesse progressos reais. O arsenal se esgotou?

Alencastro: A política de juros falhou e isso foi fundamental para o resto afundar. Mas algumas coisas estão andando, como o pré-sal. Fala-se muito da Petrobras, mas a produção aumenta regularmente. A ferrovia Norte-Sul vai destravar o interior, que terá acesso ao mar. Vamos, finalmente, ter ferrovias. Os aeroportos deram certo. O governo errou muito com a taxa de retorno das rodovias. Travou tudo. Quando soltou, nos aeroportos, foi adiante. Outro erro é que Dilma continua na política anticíclica, que era boa quando os preços das exportações estavam altos. Não podia continuar, muita gente avisou, e agora o ministro Guido Mantega, que perdeu a credibilidade há tempos, transmite mensagens de otimismo inapropriadas. O papel do ministro não é fazer “wishful thinking”.

Valor: A política externa tinha ganhado em importância com Lula, que se esforçou para elevar a posição internacional do Brasil. O governo Dilma parece ter voltado atrás nessa estratégia.

Alencastro: Dilma provocou um apagão na política externa. Colocou como ministro das Relações Exteriores alguém com quem ela não se entendia, o [Antonio] Patriota. Quando foi aos EUA, em abril de 2012, chegou lá e o Congresso estava em recesso. Fechado. Nem a imprensa brasileira, que era contra Dilma, se deu conta de que ela foi lá durante um recesso: como o Itamaraty organizou a visita assim? É como chegar a Brasília no mês de janeiro. Por outro lado, ela reagiu muito bem ao não ir na visita de Estado americana. Dilma reagiu nesse embalo, mas não tem uma política articulada. Coisas como a criação do banco dos Brics, por exemplo, já eram questões antigas. Dilma nunca deu uma entrevista coletiva para correspondentes estrangeiros sobre política externa, separando os grandes assuntos, como fazem em outros países.

Valor: Correspondentes estrangeiros têm manifestado estranheza com a ausência da política externa nos debates presidenciais. O senhor tem a mesma impressão?

Alencastro: A grande lacuna do debate é a política externa. O primeiro parceiro comercial do Brasil é a China e ninguém aqui sabe nada sobre a China. Há poucos especialistas em China no Brasil. Demorou 40 anos para aparecer o ensino da África aqui, quando já estava na cara que os portugueses iam dar com os burros n’água no começo dos anos 1960 e que esses países lusófonos estariam em contato com o Brasil de novo. Espero que não demore tanto para estudarmos a China.

Folhapress
“Marina tem repetido a ideia de governar com os homens de bem. ‘Homens de bem’ é um conceito ingênuo, mas também perigoso”
Valor: Como lhe parece a política externa nos cálculos políticos dos candidatos?

Alencastro: Não conta nada. Mas o presidente da República é chefe da sexta maior economia do mundo, está no G20 e toma decisões inclusive sobre casos como o da Argentina, país que está acuado por um juiz de segunda instância nos EUA. Aécio, por exemplo, não tem a menor noção do tema, nunca abriu a boca a respeito, não fez uma viagem ao exterior. Fernando Henrique Cardoso tinha uma rede internacional por causa da universidade e Lula, por causa do movimento sindical. Naturalmente, há jornais e aparelhos políticos europeus querendo se aliar a conservadores brasileiros e dariam espaço para alguém que chegasse lá. Não há uma foto de Aécio com conservadores europeus.

Valor: E quanto a Marina?

Alencastro: É a mesma ausência de articulação. A bandeira do meio ambiente, em que o Brasil tem posição de destaque, com a defesa da Amazônia, é um tema de interesse mundial e ela é uma militante de base. Foi convidada na Olimpíada de Londres para desfilar, foi a única brasileira. Há gente no mundo todo interessada no que ela tem para dizer, mas ela não coloca em debate a política externa.

Valor: O eleitor não se interessa por política externa, os candidatos tampouco, o governo menos ainda…

Alencastro: O país sofre com isso. É uma questão de desinteresse e incompreensão. Dilma tinha um posto-chave no governo Lula, não podia ter deixado o tema tomar esse rumo. Quando [o embaixador] Roberto Azevedo foi eleito presidente da Organização Mundial do Comércio, vários países votaram nele porque era o Brasil de Lula, e houve gente que reclamou porque ela não ligou para agradecer. O Brasil arrancou a presidência da FAO, da OMC, Olimpíada, Copa do Mundo, por quê? Porque estava presente e ativo.

Valor: Uma crítica diz respeito à recusa em fechar tratados bilaterais de comércio.

Alencastro: Isso é para ser comido em fatias. Os tratados, hoje, se organizam em bloco. O Brasil é muito pequeno, viraria aperitivo de grandes. A Europa e os EUA estão organizando o Tratado do Atlântico Norte. A China está organizando a Ásia e engole parte da América Latina. O Brasil podia jogar no Atlântico Sul, na África, destravar o Mercosul. A alternativa de acordo bilateral é boa para o México, uma economia reflexa da economia americana.

Valor: O senhor fez uma célebre defesa das cotas raciais nas universidades, no STF, em 2010. Como avalia o que ocorreu de lá para cá?

Alencastro: Na época, argumentava-se que as cotas criariam conflitos. E não há conflito. Há mais conflito com o trote do que com alunos negros. Os estudantes receberam essa novidade pacificamente. Tem sido um sucesso. A coisa mais visível para quem não morava no Brasil, progressivamente, é a presença da população negra em postos de classe média.

Valor: Como interpreta o xingamento racista ao goleiro Aranha, do Santos, e a expulsão de estudantes mineiros que protagonizaram um trote racista?

Alencastro: Isso é típico. Indica que a sociedade aceitou que o conflito racial existe. Como no romance “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado. O marido mata a mulher por adultério e não é inocentado: vai preso. Isso é uma ruptura na cultura jurídica machista. Fazer um insulto racista e ser posto diante das consequências penais do ato é novidade. E choca. Cria-se a ruptura na história do direito civil. Como o motorista que pegou 92 anos de cadeia por dirigir bêbado e matar três pessoas. A estupefação da família da moça que fez o insulto racista reflete isso.

Valor: Vivendo em Paris na época, como o senhor acompanhou o que ocorria no Brasil em junho de 2013?

Alencastro: Estamos entrando no pós-colonialismo. A polícia colonial é essa que se conhece, porque quando é para bater em pobre e negro, é pancada pura. A polícia está tendo que aprender, como a África do Sul depois do apartheid. Recentemente, dois policiais militares que se recusaram a atacar uma manifestação, porque poria vidas em risco, foram absolvidos pela Justiça Militar. Tinham sido presos por desobedecer aos comandantes e foram inocentados. Isso é um debate típico do pós-colonialismo., e me lembra [Nelson] Mandela com a polícia do apartheid, dizendo: “Não atirem mais”! Em maio de 1968, isso foi uma virada na França. As manifestações lá são violentas e as pessoas diziam: “A polícia não atira nos filhos da burguesia”. Sete anos antes, em 1961, a polícia matara centenas de argelinos durante uma manifestação em Paris, muitos deles afogados no Sena. Era uma polícia colonialista.

Valor: O senhor está dizendo que há um movimento consistente de superação da violência policial no Brasil?

Alencastro: Acho que sim. É um momento histórico, de ruptura. Ter uma polícia que não sai mais atirando é um contraste que deve ser cada vez mais marcado. Diante do Masp [Museu de Arte de São Paulo, na avenida Paulista, lugar usual de manifestações] não morre ninguém, mas dez quilômetros adiante morrem três ou quatro.

Valor: A mudança histórica não viria quando dez quilômetros adiante também não morressem?

Alencastro: Claro, mas criar o contraste nítido é importante. Pense, por exemplo, na emenda constitucional que estendeu os direitos trabalhistas dos trabalhadores domésticos. O substantivo já diz tudo. As domésticas têm sido há séculos sinônimo de exploração de trabalho adolescente, feminino, de negação de direitos sociais. A mudança na lei marca uma etapa de civilização pós-colonial, como a educação dos PMs para controlarem manifestações sem brutalidade.

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Ideia de renúncia, para apoiar Marina, ronda Aécio Neves Por Raymundo Costa | Valor Ruy Baron/Valor

Eleições 2014
17h20

Ideia de renúncia, para apoiar Marina, ronda Aécio Neves
Por Raymundo Costa | Valor
Ruy Baron/Valor

SÃO PAULO  –  A ideia da renúncia seguida do apoio a Marina Silva ronda o candidato Aécio Neves, segundo reportagem exclusiva publicada no Valor Pro, serviço de notícias em tempo real do Valor. Seria a maneira de despachar o PT já no primeiro turno das eleições, sem correr o risco de uma eventual virada no segundo turno, algo que até hoje não ocorreu nas eleições, desde 1989, quando foi restabelecida a eleição direta para presidente da República.

Aécio tem prazos. Assim como o PT, o candidato do PSDB apostou na polarização e se deu mal. Contra a maioria das apostas no PSDB, Aécio ainda acredita numa resposta positiva do eleitorado, em meados de setembro, quando aposta que sua propaganda eleitoral começará a apresentar resultados. De qualquer forma, o programa de Aécio, cada vez mais, fala para Minas Gerais.

Mal na disputa presidencial, Aécio também enfrenta problemas em Minas, onde seu candidato ao governo do Estado, Pimenta da Veiga, está comendo poeira no rastro de Fernando Pimentel, o único petista a liderar a corrida para o governo do Estado, nos quatro maiores colégios eleitorais. O próprio Aécio não tem o desempenho esperado em Minas. Em algum momento da campanha, o candidato terá de se concentrar na campanha mineira, de modo a assegurar sua base de apoio mineira para as próximas eleições.

Também não é certo, a esta altura, que se Aécio desistir e apoiar Marina a fatura será liquidada no primeiro turno. Hoje a presidente está consolidada no segundo turno, graças sobretudo ao forte apelo que seu nome mantém nas regiões Norte e Nordeste. O problema de Dilma é que ela não amplia nem para o primeiro nem para o segundo turno, conforme demonstram as últimas pesquisas.

É improvável que Aécio aceite algum tipo de acordo com Marina já no primeiro turno, mas o simples f ato de a proposta circular nas áreas afins ao candidato, eleitores fiéis que agora pensam no voto útil em Marina, dá uma ideia do tamanho do apoio que se delineia em torno da candidata do PSB. Na hora em que o PT perder a eleição, a disponibilidade dos o utros partidos para se aproximar será grande.

No segundo turno, a tendência do PSDB é apoiar Marina Silva e ajudá-la a governar, se ela for eleita, como apontam as pesquisas. Ao contrário do que aconteceu em 1992, quando era oposição e se recusou a compor com o governo Itamar Franco, o PT tem muitos interesses em jogo e deve  pensar com mais receptividade a ideia de dar apoio congressual a Marina. O problema é que Marina se tornou a primeira opção ao PT.  O mercado financeiro é parceiro de Marina porque não quer o PT no governo.

Nos cálculos dos políticos mais experientes, Marina não precisará compor com o PT. Ela pode fazer maioria tranquila com partidos médios e apoios nos maiores, mas, sobretudo, vai jogar luz sobre o Congresso. Marina terá uma agenda dura, para trazer as pessoas da rua, os manifestantes de junho. É evidente que haverá gente no Congresso tentando esconder com mão de gato, mas será muito mais difícil com uma relação transparente.

Dilma, no momento, tem maioria instável no Congresso. Pode-se afirmar que Marina deve ter uma minoria estável. Ela também vai contar com o apoio da mais tradicional sigla brasileira, o PG, o Partido do Governo, aquele que está com qualquer que seja o presidente no Palácio do Planalto. Mas a candidata do PSB também quer  inverter a lógica adotada pela presidente para a nomeação dos ministros.

Assim, não será o PSDB, por exemplo, que vai dizer “eu quero fulano”. Marina vai escolher, até porque poderá dizer que não tem interesse na reeleição. É uma negociação que não está sobre a mesa. E quando fala que não quer disputar um segundo mandato, Marina Silva desarma os partidos e seus eventuais candidatos em relação a ela. Pode montar um ministério de melhor qualidade. Eduardo Campos, o candidato cuja morte virou de ponta cabeça a  sucessão presidencial, era mais gestor e menos equipe. Marina, que o sucedeu, é menos gestora mas tem mais equipe

O PSDB deve declarar apoio a Marina Silva no segundo turno da eleição, se as pesquisas atuais forem confirmadas em 5 de outubro. A dúvida no entorno da candidata do PSB é sobre o apoio do PT. Afinal, Lula é candidato declarado em 2018. O fato de Marina não querer disputar um novo mandato ajuda um entendimento, se houver convencimento de que ela não cederá a pressões para permanecer, caso faça um bom governo.

A situação do PT hoje é muito diferente daquela vivida quando o partido teve de decidir se apoiava ou não Itamar Franco, após o impeachment de Fernando Collor. Não se trata simplesmente de uma questão de manter cargos, isso também existe, mas de projetos e políticas em andamento que são muito caras ao partido. Diz um integrante da coordenação da campanha de Dilma: “Na época do governo Itamar nós éramos oposição. Agora, com um monte de gente no governo, nós vamos ficar”.

Leia mais informações na coluna de Raymundo Costa na edição desta terça-feira do Valor.

bukowski :: então queres ser um escritor?

então queres ser um escritor?

(Tradução: Manuel A. Domingos)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

Via Revista Bula

“Hidrelétricas no Brasil e a vitória do obscurantismo”

hidreletricas = amazonia
Por algum motivo – e a culpa é do emissor, nunca do receptor, ou seja, minha – talvez tenha passado a impressão que “desembarquei” da candidatura Dilma/PT, pela Marina-Eduardo/PSB-Rede.
Ou seja, que marinei. Muito pelo contrário.
Longe disso, só não acho que a presença desses temas nas eleições vá fazer mal. E se pudermos escolher os adversários, estes dois são infinitamente melhores (para o Brasil) do que os que são mais propensos a serem derrotados, de novo (PSDB).
É exatamente o contrário, o fato de não discutirmos seriamente esses temas – sustentabilidade e inovação – é que abre espaço para o obscurantismo, para a ignorância e para a hipocrisia. E, óbvio, para a manipulação e distorção do quarto poder. A arena política é construída com muito embate e discussão. São os
tijolos e a argamassa. E, a meu ver, está faltando muito disso.
Se, aqueles que realmente se preocupam com o futuro desse país, se calam, a vitória será, sem dúvida daqueles “povos de Pandora” que “se alimentam da luz”, e no longo prazo, daqueles que trabalham em prol da consolidação da “teoria da dependência” como caminho, não para o desenvolvimento econômico e tecnológico de forma sustentável, e sim para a total entrega do que nos resta de recursos naturais e humanos.
Assim é um erro as pessoas bombardearem qualquer “alternativa” com FUD. Nunca usamos essa estratégia no passado, por que agora? Essa “alternativa” tem que ser desconstruída com argumentos, para na hora de governar termos a legitimidade de milhões de votos. É assim que funciona.
E a meu ver, o melhor momento pra tirar esses “interesses das sombras” e desmontar essa “visão infantilizada do mundo” é agora, em 2014, porque depois será tarde de mais.
11/11/2013 às 05h00 18
Por Ivan Dutra Faria

O anedotário da caserna nos conta que, ao assumir o comando de um quartel, um coronel indagou de seu oficial imediato acerca de um posto de sentinela permanente em frente a um banco de praça. Percorreu-se, sem sucesso, toda a cadeia hierárquica atrás da resposta, até que o soldado mais antigo do quartel acabou com mistério: há muitos anos, o banco fora pintado e, por isso, providenciou-se uma sentinela para evitar que alguém, inadvertidamente, sentasse sobre a tinta fresca. Desde então, o posto nunca mais ficou sem vigilância.

É inevitável a lembrança da sentinela do banco quando se assiste a alguém do governo federal, compungida e conformadamente, informar à plateia que “a sociedade decidiu que não se pode mais construir hidrelétricas com grandes reservatórios”. A sociedade quem, cara-pálida? Quando, onde e por quem essa decisão foi tomada?

Fala sério, autoridade! Isso nunca foi discutido adequadamente no Brasil e, menos ainda, definido por meio de mecanismos da democracia representativa. Nem quem vota nem quem foi votado escolheu coisa alguma. Essa decisão é de responsabilidade exclusiva de gente amedrontada por meia dúzia de bumbeiros tonitruantes. Gente que, passivamente, ouve os parlapatões midiáticos dizerem que a energia eólica substitui, com vantagens, a hidreletricidade. Gente que afirma que Belo Monte vai afetar o Parque Nacional do Xingu, aquela maravilha situada rio acima – a “apenas” 1.300 km, aproximadamente.

Tivessem prestado atenção às aulas, saberiam que a energia mais poluente é aquela que não se tem

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