Os dois Brasis

Eu desenvolvi uma longa, mas creio que fundamentada, análise de porque eu acredito que fatores regionais serão mais importantes do que nunca nas eleições deste ano.

É sempre muita comentada a polarização para as eleições presidenciais entre PT e PSDB. Mas, como ela se verifica regionalmente e ao longo do tempo?

Antes de tudo devemos observar que houve grande mudança demográfica, apesar do curto espaço de tempo decorrido desde 1994. (Para este acompanhamento, em função de sua importância eleitoral, o estado de SP é tratado como se fosse uma “região”.)

Em 1994 as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste representaram 34,5% dos votos válidos para presidente. Para 2010 serão, no entanto, 41,4% dos eleitores. No sentido inverso, São Paulo e região Sul terão passado de 42,2% para 37,2%. Essa tendência prosseguirá pelo menos por mais algumas eleições e por volta de 2025 N/NE/CO poderão representar cerca de 50% dos eleitores. Para a eleição de 2014 o TSE adotará os dados do Censo 2010 e certamente haverá mudança na composição regional das bancadas, que pode se intensificar se houver subdivisão de estados.

REGIONALIZAÇÃO DA POLARIZAÇÃO

Em 1994 Lula recebeu aproximadamente metade dos votos de FHC em quase todas as regiões, exceto no Sul, onde a proporção lhe foi bem mais favorável. Em 1998 e 2002 Lula cresceu seguidamente em todas as regiões, com destaque para MG. Mas, em 2006, apesar da reeleição com percentual total parecido ao de 2002, Lula (ou o PT) viu uma mudança expressiva na origem de seu eleitorado : cresceu novamente na maioria das regiões mas recuou nos estados de maior renda (RJ, SP, DF, Sul.) O RS passou de estado mais “lulista” a menos “lulista” nesse ciclo.

A tabela mostra como em 1994 e 1998 todas as regiões eram “tucanas”. Em 2002 passaram todas a “lulistas”, mas desde 2006 temos o Brasil dividido. A porção setentrional permanece relativamente “lulista” e a meridional retornou parcialmente a uma influência “tucana”. Os extremos são o Nordeste para o PT (em 1994 o PT obteve 25% de seus votos nessa região, passando para 33% em 2006) e o Sul para o PSDB (que passou de 13% para 21% dos votos nacionais desse partido.)

As pesquisas eleitorais em curso refletem essa divisão que se acentua : por elas teríamos que Dilma recebe 48% de seus votos em N/NE/CO (onde Lula recebeu apenas 36% de seus votos em 1994) e que Serra recebe 44% de seus votos em SP/Sul (onde FHC recebeu 39% dos seus em 1994.) Ao contrário de 1994, 1998 e 2002, e similarmente a 2006, não há mais uma preferência nacional, mas duas preferências regionais. Esta condição deve trazer maior evidência às composições e palanques estaduais, ao tempo de TV e às mídias regionais.

O COMPONENTE SÓCIO-ECONÔMICO

O mais impressionante é como as preferências partidárias para o cargo de presidente foram se ajustando aos diferentes níveis de desenvolvimento econômico de tal modo que, nas eleições de 2006, com exceção de ES e MT, os estados onde Lula perdeu votos em relação a 2002 foram exatamente aqueles acima da renda média nacional.  E geralmente foi onde Alckmin obteve maioria dos votos. Isto contrasta com os padrões dos anos 70/80, onde o voto nas regiões menos ricas era frequentemente “conservador” (Arena, PDS, PFL, etc.) e o voto nas regiões mais urbanizadas e industrializadas era “contestador” (MDB, PDT, etc.)

o sinal da polarização inverteu

Assim, apesar de década e meia de esforços em estabilização econômica, desenvolvimento e inserção social, as disparidades regionais continuam um expressivo fator político. Enquanto se fala em polarização PT / PSDB, pode muito bem também estar havendo uma polarização Brasil Meridional / Brasil Setentrional, na qual os interesses regionais são representados por diferentes composições partidárias.  Isso é perceptível até nas opções que os diretórios estaduais do PMDB e PP, partidos tidos como “centristas”, adotam, ora alinhando-se ao PT, ora ao PSDB.

Em 1994 e 1998 houve um claro movimento nacional pela continuidade. Em 2002 houve uma clara opção nacional pela mudança. Mas, tendo a questão da estabilização econômica saído do foco principal de preocupações desde 2006, as coligações devem, agora, em seus programas, não apenas abordar as grandes questões nacionais, mas também dar especial atenção ao modo como estas se refletem regionalmente. Em outras palavras, entender o Brasil como uma federação, que é ainda muito desigual. Algumas regiões podem depender de ainda maior impulso do estado para o desenvolvimento econômico e social, mas em outras pode haver uma percepção de que o papel do estado seria administrar responsavelmente a política econômica.

Tais divisões sempre existiram, mas a remoção dos graves problemas da inflação e do desemprego do panorama as trouxeram à tona. Aparentemente, o Brasil requer modelos diferenciados de desenvolvimento aplicados às suas várias regiões e será um governo bem sucedido aquele que tiver sensibilidade para tal.

O QUE PODE OCORRER COM AS “CAMPANHAS”ATUAIS

Um modo de acompanhar isso é ver em que regiões os “blocos” obtiveram seus votos e confrontar com os resultados mais recentes de pesquisas. O gráfico a seguir busca dar simultaneamente uma visão de tempo e de espaço.

Os círculos concêntricos partem da eleição de 1994, anel mais interno, até a eleição deste ano, no anel mais externo. Sempre considerando apenas os “votos válidos” para o turno definitivo. Note-se como os votos de N/NE/CO são progressivamente mais representativos.

São Paulo e Nordeste ainda são integrantes do mesmo país. Fora da política.

O anel exterior do primeiro gráfico foi construído com os dados da última pesquisa Datafolha (16/abr.) para 2º turno, que apresenta 56% de votos válidos para Serra e 44% para Dilma. Questiona-se muito se o eleitor é consistente no tempo com suas preferências partidárias ou se é mais sensível aos nomes mais conhecidos de candidatos. Este ano, sem o nome Lula na cédula, aprenderemos mais a respeito.

É provável que em todas as regiões, à medida que o nome Dilma seja mais associado ao governo Lula, caminhe-se para uma posição intermediária entre os resultados de 2006 e as estimativas atuais de pesquisas. Mas esse movimento provavelmente não será regionalmente homogêneo.

Principalmente para o Nordeste é perceptível uma provável superestimação da votação para Serra. Em 2006 o PT recebeu mais que 3 vezes votos na região que o PSDB, então é improvável que o quase equilíbrio atual (das pesquisas) se mantenha a partir da campanha, até pelas grandes chances de reeleição dos governadores locais do PT e PSB. Alckmin obteve, no Nordeste, apenas 6,0% do total brasileiro de votos. Não há por que se esperar que Serra dobre esse desempenho.

Em SP e Sul, é onde as pesquisas atuais mostram um resultado mais próximo ao de 2006 e nestas o crescimento de Dilma deverá ser mais lento ou menor. As demais regiões representam uma posição intermediária.

Em 2002 e 2006 o “lulismo”, alavancado primeiro pela fraca conjuntura econômica do 2º governo FHC, e depois pela própria performance no 1º mandato de Lula, atingiu cerca de 61% dos votos. Nas atuais pesquisas espontâneas esse é também o percentual recebido pela soma de Lula com Dilma. Eventualmente pode tratar-se de um “teto” hipotético para Dilma. O apoio de maior palheta de partidos pode compensar dificuldades de transferência de votos. Porém, temos que ter em mente o que foi observado a respeito da divisão regional das preferências eleitorais… A “campanha” de Dilma deveria apresentar mais claramente como o novo período de governo contemplará as aspirações do “Brasil Meridional”. As comparações com o governo FHC talvez não surtam o mesmo efeito com esse público.

Por outro lado, como a polarização regional de votos já se deu em 2006, além da substituição do nome Lula por Dilma na cédula, também não há nenhum novo fator que justifique o PSDB passar sua votação de 42%/39% (Alckmin, 2006) para 56% (Serra, pesquisa de abril/2010.) A preferência política pelo PSDB nos estados mais ao sul já está devidamente refletida nas pesquisas. É otimismo da oposição imaginar que, iniciada a campanha, Serra seja capaz de atrair mais dos votos hoje indecisos (aqueles que espontaneamente declaram seu voto a Lula) do que Dilma. Para isso seria necessário um discurso capaz de envolver os eleitores do “Brasil Setentrional”, e falar em “estado básico” provavelmente não é o suficiente, ao contrário.

Para ambos os candidatos o importante agora é reforçar seus palanques estaduais. Ainda que algumas associações de partidos no nível estadual pareçam estranhas à tendência federal, o fato é que se prendem a interesses e realidades locais. Neste contexto a importância da comparação de currículos ou governos pode ser menor do que se imagina.

Uma observação quanto a proposta do Partido Verde : os temas meio-ambiente, desenvolvimento sustentável e ética poderiam ser capazes de novamente unir o país em torno de um projeto. Mas 2010 pode bem ser visto como o ano de introdução dessa temática e de formação correspondente de bancadas, mas dificilmente capaz de superar a divisão nacional em torno do papel do estado.

Grosso modo, na ausência de novas informações e a confirmar-se as notícias mais veiculadas para coligações partidárias, podemos resumir as expectativas para os resultados finais de votos válidos (não importa aqui o turno.) Para Dilma pode-se esperar desde os 44% das pesquisas de abril para 2º turno até os 61% que a configuração regional de votos concedeu a Lula. Para Serra podemos imaginar como limite inferior os resultados de Alckmin em 2006, ou seja, 39%, mas é difícil imaginar um resultado superior aos 56% das pesquisas atuais.

O Brasil se unirá em torno de um nome, como em 1994 e 2002, ou se mostrará ainda dividido como em 2006? O ideal seria um sentimento coletivo de satisfação, mas são grandes os sinais de que grande parcela da população se sentirá frustrada.

O acompanhamento desse processo tornará os meses de agosto e setembro muito emocionantes!

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6 opiniões sobre “Os dois Brasis

  1. ;) Acho que estou habituado a ler gráficos e por isso esqueço de pensar que as pessoas vêem de várias áreas (tenho mania por gráficos, quase todos meus posts têm pelo menos um.)

    Mas se eu puder tentar explicar alguma coisa me avise, que de vez em quando passarei por aqui para ver se há alguma dúvida.

  2. Qual é, vc sabe que uma das nossas maiores criticas é sobre a simplificação e superficialidade da analise politica.

    Apesar de termos que traduzir isso de maneira mais popular, não dá pra fazer muitas concessões, afinal, é só olhar pra midia pra ver que o caminho correto é esse mesmo. Aprofundar a analise (com muitos graficos de preferencia).

    Como diriam, os liberais, não existe almoço gratis.

  3. Não concordo quando você diz que dilma deverá ter um crescimento menor e lento aqui no sul.O que verifico andando pelas ruas e conversando com as pessoas e que existe uma empolgação com a candidatura de dilma pois muitos acham que pela prim,eira vez desde os anos cinquenta teremos uma presidente que vive no sul e conhece bem a nosa região.serra é visto por muitos aqui como estrangeiro.

  4. O que você diz é uma possibilidade também. Parece mais provável para o eleitor do Sul que para o de São Paulo a mudança de inclinação em relação à última eleição.

    Infelizmente as pesquisas nacionais fazem amostragens muito pequenas para o Sul. Cerca de 150 questionários versus 400 usados em SP. Isso aumenta muito a margem de erro e os resultados para o Sul são os que mais oscilam entre institutos.

    O único argumento que eu tenho para um menor movimento nas pesquisas futuras, para Dilma no Sul, é que na última pesquisa foi nessa região que os percentuais de intenção de votos mais se aproximaram daqueles verificados na eleição de 2006. Mas isso não está escrito em pedra, claro.

    As proporções para Serra no Nordeste e em MG+RJ+ES estão mais fora do padrão histórico.

    Já li comentários dizendo algo parecido para MG, sobre a importância de Dilma haver nascido lá.

    Creio que em SP, especialmente na capital, isso não é tão importante. Na capital cerca de 2/3 das pessoas nasceram fora da cidade. Alguns políticos muito populares por aqui, como Jânio Quadros e Fernando Henrique nasceram em outros estados.

    Eu sou paulistano, acho que Serra é paulistano (será que já houve um presidente paulistano?) e nem penso nisso como fator relevante. Suponho que a maioria dos paulistas votou em Alckmin mais por ele ser do PSDB que por ser paulista.

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